Entenda como o IPCA e a Selic pesam no seu bolso

Você provavelmente já ouviu falar em IPCA e Selic no noticiário, mas talvez nunca tenha parado para entender o que esses números significam na prática, e como eles chegam até o seu bolso. A Rede Onda Digital conversou com dois especialistas para traduzir esse “economês” em linguagem acessível: o professor de economia da UFAM, Paulo Berti, e o assessor de investimentos Gabriel Santana, da XP Investimentos.

O que é cada coisa
O IPCA é o índice que mede a inflação no Brasil, calculado pelo IBGE.
“IPCA é um índice de preços do consumidor amplo, ou seja, é um índice de inflação”, explica Paulo Berti.
Que acompanha o aumento e a redução de preços de um conjunto de produtos e serviços considerando uma faixa ampla de renda da população.
Já a Selic é a taxa básica de juros da economia, a taxa que remunera os títulos públicos do governo. Segundo o professor, “a taxa Selic paga um valor de juros muito atraente na medida em que é livre de risco”.
A diferença entre os dois indicadores, explica Berti, revela o ganho real de quem investe em título público:
“se o IPCA é 3% e a taxa Selic é de 10%, temos um ganho real de juros de 7%”.
Por que uma mexe com a outra
A relação entre os dois indicadores existe porque o Banco Central usa a Selic como ferramenta para controlar a inflação. Gabriel Santana resume o mecanismo:
“a Selic aumentando deixa o crédito e o dinheiro mais caro pro mercado, então quando o cidadão vai pensar em financiar um imóvel, um automóvel, pegar um cheque especial, ele pensa duas vezes que tá muito caro”. Com o consumo mais contido, a inflação tende a ceder.
Paulo Berti reforça que a inflação, ao contrário da Selic, não é uma taxa controlada diretamente pelo governo: “é o resultado de um conjunto de fatores que estão fora do controle do governo”, diz, citando como exemplo choques externos que afetam a oferta de produtos, como crises que impactam o preço do petróleo. A Selic, por sua vez, é uma decisão do Banco Central que tenta reagir a esses movimentos.
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Como isso chega no dia a dia
Na prática, os dois indicadores afetam a vida das pessoas de formas diferentes. Segundo Berti, o IPCA está por trás de reajustes salariais e de contratos de aluguel: “os trabalhadores querem recuperar as perdas salariais provocadas pela inflação”.
Já a Selic influencia diretamente o custo do crédito e o rendimento de quem tem dinheiro guardado. O professor dá um exemplo simples:
“quando não tem juros nos parcelamentos, pagamos o mesmo valor, digamos R$ 100 em 5 parcelas, o que dá um total de R$ 500. Quando parcelamos com juros, o preço final sobe para R$ 600, e as parcelas passam a R$ 120”. Quanto maior a Selic, maior tende a ser esse acréscimo.
Do lado dos investimentos, Gabriel Santana avalia que a Selic atual, em 14,25% ao ano, já é um sinal para quem tem uma carteira maior se organizar. Mas para quem ainda está formando a reserva de emergência, a recomendação é direta: “abaixo de R$ 100 mil, não inventa moda: deixa tudo em ativos pós-fixados”, como Tesouro Selic, CDB ou “caixinhas” de bancos digitais, algo visto com básico e que é facilmente encontrado nos aplicativos bancários.
O que fazer com o dinheiro no fim do mês
Os dois especialistas convergem em um ponto: o essencial não é encontrar o investimento perfeito, e sim ter constância e organização financeira.
Para Santana, quem está começando com pouco não deveria gastar energia tentando escolher o ativo ideal:
“no final do dia, 90% do resultado vai ser do aporte mensal”. Segundo ele, o maior erro é justamente o oposto: “as pessoas querem ganhar muito dinheiro em pouco tempo”, em vez de focar no básico, guardar todo mês e “dedicar o trabalho pra ganhar mais dinheiro”.
Berti também recomenda cautela com hábitos que atrapalham as finanças:
“Não joguem em bets, jogos de azar tem esse nome por uma razão óbvia: as pessoas sempre perdem”.
O professor sugere ainda priorizar produtos mais baratos, evitar dívidas e não se deixar seduzir por promoções de cashback:
“o que devemos exigir é desconto, redução de preço agora, e não mais compra de produtos desnecessários no futuro”.
Santana acrescenta outro ponto que considera decisivo: ter clareza sobre prioridades financeiras. “Existem algumas prioridades na sua vida e você tem que ter isso claro”, afirma, citando itens como seguro de vida e plano de saúde que muitas vezes ficam de lado.
“Não ter essas prioridades claras, deixar a vida levar, isso acaba atrapalhando na criação de patrimônio.”
Em resumo
- IPCA mede a inflação; Selic é a taxa de juros usada para tentar controlá-la.
- Selic mais alta encarece o crédito e freia o consumo; Selic mais baixa estimula o consumo, mas rende menos para quem investe.
- Para reservas de emergência, os especialistas recomendam simplicidade: ativos pós-fixados que acompanham a Selic.
- O fator mais importante para construir patrimônio, segundo os entrevistados, não é a escolha do investimento, mas a constância do aporte mensal e a organização financeira básica.





