Interior “vira” e Roberto Cidade começa a desmontar alianças de adversários no AM

A eleição para o Governo do Amazonas começa a ganhar contornos mais agressivos nos bastidores. Se em Manaus os grupos políticos ainda medem forças e testam discursos, no interior a disputa já assumiu outro ritmo: lideranças estão trocando de lado, antigas alianças começam a rachar e o mapa político do Estado está sendo redesenhado município por município.
No centro dessa movimentação está Roberto Cidade, candidato à reeleição pelo União Progressista, que vem ampliando sua rede de apoio justamente em regiões onde adversários como David Almeida e Omar Aziz construíram, nos últimos anos, parte importante de suas bases políticas.
A ofensiva não acontece de forma isolada. Ela encontra respaldo em uma estrutura partidária que pode ser decisiva na eleição: a Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, que afirma estar presente em 57 dos 62 municípios do Amazonas, alcançando cerca de 92% das cidades do Estado.
Sob o comando estadual de Wilson Lima, a federação reúne prefeitos, vice-prefeitos, deputados e mais de 200 vereadores. Nos bastidores, o recado é direto: Roberto Cidade não quer entrar na campanha apenas como candidato. Quer entrar com uma rede política montada.
A troca de lado que acendeu o alerta
A adesão do ex-prefeito de Juruá, Dr. Júnior, é um dos movimentos que melhor traduz essa nova fase. Depois de ter declarado apoio a David Almeida, o ex-prefeito, que comandou Juruá por dois mandatos, mudou de posição e passou a apoiar Roberto Cidade.
A troca tem peso simbólico. Não necessariamente porque Juruá, sozinho, seja capaz de decidir uma eleição estadual, mas porque demonstra que apoios anunciados na pré-campanha estão longe de ser definitivos. E, em política, quando uma liderança troca de lado, a pergunta que surge imediatamente nos bastidores é outra: quem será o próximo?
Dr. Júnior justificou a decisão pela atuação de Cidade nos municípios e pela percepção de que o governador estaria mais conectado às demandas do interior.
A declaração, porém, produz um efeito político maior. Ela ajuda a alimentar a narrativa de que Roberto Cidade estaria conseguindo ocupar um espaço que seus adversários acreditavam estar consolidado.
O mapa começa a ficar desconfortável para os adversários
A movimentação não parou em Juruá. Em Manicoré, o prefeito Lúcio Flávio, do PSD, passou a apoiar Roberto Cidade, mexendo diretamente em uma área de influência política ligada ao senador Omar Aziz.
Em Maués, a prefeita Macelly Veras também se aproximou do governador. No Baixo Amazonas, o ex-prefeito de Barreirinha, Glênio Seixas, entrou no grupo de Cidade.
São movimentos diferentes, em regiões diferentes, com personagens diferentes. Mas a leitura política é a mesma: Cidade está tentando transformar adesões pontuais em uma sequência. E uma sequência de adesões é muito mais perigosa para os adversários do que uma adesão isolada. Porque começa a produzir percepção de crescimento.
O caso Manicoré mexe com Omar
Entre os movimentos recentes, Manicoré merece atenção especial. Lúcio Flávio foi eleito pelo PSD, partido de Omar Aziz, e sua aproximação com Roberto Cidade representa uma mudança dentro de um município estratégico da Calha do Madeira.
A questão não é apenas quem o prefeito apoia. É o que essa decisão pode representar para a estrutura política de Omar no interior.
A eleição estadual é uma disputa de maioria. E, quando prefeitos, vereadores e lideranças municipais começam a se reposicionar, os grupos adversários precisam decidir entre reagir imediatamente ou correr o risco de assistir à formação de uma nova maioria política.
A ferida também abriu dentro do PL
Se a movimentação no PSD chama atenção, o que acontece no PL é ainda mais delicado.
Em Coari, o presidente municipal do partido, Zé Henrique, declarou apoio a Roberto Cidade, apesar de a legenda ter Maria do Carmo Seffair como nome na disputa pelo Governo.
Em Parintins, o presidente da Câmara Municipal, Cabo Linhares, também confirmou apoio ao governador. E o movimento não ficou restrito às lideranças municipais.
Durante agendas em Parintins, deputados estaduais do PL, como Delegado Péricles, Débora Menezes e Cabo Maciel, apareceram ao lado de Roberto Cidade.
O detalhe que mais chamou atenção nos bastidores foi outro: as peças de divulgação dos parlamentares passaram a circular sem a imagem de Maria do Carmo. Na política, imagem também é mensagem.
Quando um parlamentar divide espaço com um candidato adversário ou simplesmente deixa de associar sua imagem à candidata oficial da legenda, o gesto pode ser interpretado como um sinal de distanciamento. E, neste momento da eleição, esses sinais estão sendo cuidadosamente observados.
União Progressista quer ocupar o território
É justamente aí que entra o maior trunfo da candidatura de Roberto Cidade: a estrutura. O União Progressista afirma possuir presença em 57 dos 62 municípios do Amazonas.
O União Brasil reúne 11 prefeitos, seis vice-prefeitos e 150 vereadores. O Progressistas acrescenta outros 57 vereadores. Juntos, são 207 vereadores espalhados pelo Estado.
Na Assembleia Legislativa, o União Brasil possui oito deputados estaduais, incluindo o presidente da Casa, Adjuto Afonso, e a terceira vice-presidente, Joana Darc. Na Câmara Federal, o partido tem Fausto Jr.
Não é apenas uma fotografia partidária. É uma rede. E rede política, em eleição majoritária, significa acesso a prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias, estruturas locais e capacidade de mobilização.
Wilson Lima, que preside a federação no Amazonas, aposta justamente nessa capilaridade. A mensagem do grupo é que uma candidatura forte precisa estar presente nos municípios, onde as lideranças conhecem os problemas locais e funcionam como pontes entre o eleitor e os candidatos.
Mas existe uma vantagem política evidente: um candidato que começa a campanha com uma rede municipal extensa larga com mais pontos de apoio do que aquele que precisa construir essa estrutura durante a corrida eleitoral. É essa diferença que os adversários precisam observar. Porque enquanto alguns grupos ainda discutem alianças, Roberto Cidade trabalha para apresentar uma fotografia de crescimento.
David Almeida perde aliados ou apenas assiste à dança?
Para David Almeida, o movimento merece atenção redobrada. O prefeito de Manaus vinha construindo sua pré-candidatura ao Governo com uma rede própria de alianças e apoios no interior. A mudança de posição de Dr. Júnior, portanto, não é apenas mais uma adesão para Cidade. É uma perda para o campo adversário.
E existe uma preocupação adicional: se outros aliados seguirem o mesmo caminho, o problema deixa de ser pontual e passa a ser estratégico.
A política amazonense já mostrou várias vezes que alianças municipais podem mudar rapidamente quando prefeitos e lideranças percebem qual grupo possui melhores condições de vitória. É aí que entra o chamado efeito manada. Ninguém quer ser o último a embarcar em um barco que parece estar ganhando força.
Omar também precisa fazer contas
Omar Aziz enfrenta um desafio semelhante. O senador possui uma trajetória política construída durante décadas e uma rede expressiva de aliados no interior. Mas justamente por isso cada perda de uma liderança municipal chama atenção.
Manicoré pode ser um caso isolado. Pode. Mas, se novos municípios começarem a apresentar movimentos semelhantes, a leitura muda completamente. A disputa passa a ser pela narrativa de quem está crescendo e quem está perdendo espaço. E, em eleição, percepção também conta.
O tabuleiro politico ainda está no começo. O mais importante é que essa história ainda não terminou. A propaganda eleitoral oficial começa em 16 de agosto, mas a disputa política já está em ritmo acelerado.
Até lá, novas adesões podem surgir, prefeitos podem mudar de posição, vereadores podem declarar apoio e partidos podem sofrer divisões internas.
A eleição do Amazonas, portanto, começa a ser desenhada muito antes do primeiro programa eleitoral. E o que os bastidores mostram neste momento é uma corrida cada vez mais territorial.
E as mudanças de lado oferecem o ingrediente que mais esquenta qualquer eleição: a sensação de que o jogo pode estar mudando.





