Como a crise Moraes-Vorcaro pode afetar a votação do fim da escala 6×1 no Senado

A crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (2): a disputa política em torno das revelações da Polícia Federal (PF) passou a ameaçar o andamento da PEC que prevê o fim da escala 6×1.
A proposta, que pode mudar a rotina de milhões de trabalhadores, avançou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sob relatoria do senador Omar Aziz (PSD), que manteve o texto aprovado pela Câmara. A expectativa é levar a matéria ao plenário do Senado o quanto antes.
O problema é que a votação ocorre em meio a uma ofensiva da oposição contra Moraes, depois da divulgação de mensagens, registros de encontros e outros documentos encontrados pela PF no celular de Vorcaro.
Oposição ameaça
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu a abertura de um processo de impeachment contra Moraes. Para ele, o conteúdo das conversas justificaria a apuração de possível crime de responsabilidade.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) propôs uma ofensiva ainda mais ampla: interromper as votações do Senado até que Moraes renuncie ou seja submetido a um processo de impeachment.
“Não se vota nenhuma PEC, nenhum projeto de lei, se Alexandre de Moraes não renunciar ou se a gente não impeachmá-lo”, declarou.
Se a proposta de obstrução ganhar adesão, a estratégia poderá atingir diretamente a agenda do Senado, e, entre as matérias afetadas, está justamente a PEC do fim da escala 6×1.
Teor das mensagens
A pressão contra Moraes aumentou após a PF divulgar um relatório com mensagens trocadas entre Vorcaro e um número atribuído ao ministro.
Em uma das conversas, o banqueiro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, Vorcaro foi preso pela PF.
O relatório também aponta contatos e encontros entre os dois e traz informações sobre contratos entre empresas ligadas ao Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
O material, porém, não demonstra que Moraes tenha atendido aos pedidos de Vorcaro ou atuado para beneficiá-lo. As informações fazem parte de uma investigação e ainda precisam ser analisadas pelas autoridades competentes.
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Mendonça e Vorcaro
Outro ministro do STF entrou no foco das discussões nesta quarta. André Mendonça confirmou ter recebido Vorcaro em março de 2025, em São Paulo.
Um áudio encontrado no celular do banqueiro, contudo, levantou dúvidas sobre o objetivo da reunião. Na gravação, um advogado afirma a Vorcaro que Mendonça queria recebê-lo e menciona que o ministro tinha conhecimento da situação envolvendo o Banco Central e o Banco Master.
Mendonça sustenta que o encontro não tratou do Banco Master e que a conversa se limitou a um processo relacionado a precatórios.
A divergência entre o conteúdo do áudio e a versão apresentada pelo ministro aumentou a pressão por esclarecimentos sobre os contatos de Vorcaro com integrantes do STF.
Fachin
Já o presidente do Supremo, Edson Fachin, também se manifestou sobre o caso.
Sem citar diretamente Moraes ou Vorcaro, Fachin afirmou que os elementos divulgados apresentam “sérios elementos” que precisam de encaminhamento institucional. Disse ainda que o cargo de ministro não confere privilégios e que a Presidência da Corte anunciará, nos próximos dias, as medidas que considerar necessárias.
A declaração é significativa porque indica que o próprio STF reconhece a necessidade de analisar os fatos, embora Fachin não tenha antecipado qualquer conclusão sobre eventual irregularidade.
E onde entra a escala 6×1?
É justamente nesse ponto que a crise pode produzir um efeito que ultrapassa a disputa entre Congresso e STF. A intenção de Aziz é acelerar a votação por meio de um calendário especial. Para ser aprovada, a PEC precisará de pelo menos 49 votos favoráveis em dois turnos no Senado.
O risco, neste momento, é que uma pauta que trata diretamente das condições de trabalho seja transformada em instrumento de uma disputa política maior.
A oposição quer usar as denúncias envolvendo Moraes para pressionar o Senado. O governo, por sua vez, tenta preservar a agenda de votações, que inclui a PEC que prevê o fim da escala 6×1. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a afirmar que a proposta seria aprovada ainda nesta semana.
Nesse sentido, a questão central é saber se o conflito será capaz de paralisar o Senado justamente no momento em que uma das principais propostas sobre relações de trabalho dos últimos anos tenta chegar ao plenário.





