“Continuar não significa esquecer”: como pais enfrentam o luto após a morte de um filho

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A roupa no cabide, a escova de dentes que não será mais usada e o perfume preferido ainda pela metade. Dentro da casa dos pais, alguns objetos mostram que Yuri Vasconcelos esteve ali, onde viveu por mais da metade de seus 31 anos. Mas o som do portão já não anuncia sua chegada.
A vida do técnico de som terminou no dia 21 de abril. Yuri foi encontrado morto na casa onde morava com a ex-mulher, e o caso foi registrado como suicídio. Ele deixou dois filhos menores de idade e os pais, Mara Silva e Jander Vasconcelos, que precisaram seguir em frente atravessados pela ausência e pelas perguntas que ficaram sem resposta.

A presença que permanece
Para Mara, mãe de Yuri, o luto passou a fazer parte da rotina. Não se resume à falta de alguém à mesa ou ao silêncio de uma voz dentro de casa: está nos detalhes espalhados pelos cômodos, que mantêm viva a lembrança do filho.
“É uma das jornadas mais dolorosas e complexas que um ser humano pode enfrentar. É permitir sentir o luto. Tem dias em que a tristeza vem mais forte, outros em que você só quer sentir a presença dele. A presença dele está pela casa toda: no cheiro, na comida, na roupa, nos tênis sempre limpos. Enfim, é deixar de ouvir: ‘Mãe, sabe que eu amo você e o papai?’”, conta.
A memória de Yuri também se revela nas pessoas e nos pequenos hábitos que fazem parte da história da família. Quando perguntada sobre o que permaneceu do filho, Mara cita os netos, os animais e até o pão de queijo preparado pela sobrinha.
São lembranças simples, mas capazes de mostrar quem Yuri foi para além da circunstância de sua morte. Para Jander, pai do técnico de som, essa distinção é fundamental.
“Quando eu penso nele hoje, o que eu gostaria que as pessoas soubessem é que a vida dele não pode ser resumida pela forma como ele morreu. Antes daquele momento, existiu uma vida inteira. Existiu um filho, um pai, uma pessoa com sua personalidade, seus sonhos, suas qualidades, seus defeitos, seus momentos de alegria, suas histórias e todos os vínculos que construiu com as pessoas que fizeram parte da sua vida.”
Uma nova dimensão da vida
Jander afirma que a perda transformou a forma como passou a compreender a própria existência. Diante da fragilidade da vida, situações que antes pareciam urgentes ganharam outra dimensão.
“Depois da morte do meu filho, eu não passei simplesmente a enxergar a vida de outra maneira. Passei a enxergar a vida com uma profundidade diferente. (…) Aprendi que a vida é muito mais frágil e imprevisível do que eu imaginava.”

Para ele, continuar não significa deixar Yuri para trás. Seguir vivendo também é preservar o amor, as memórias e tudo o que o filho deixou na família.
“Estou aprendendo a conviver com a saudade e a encontrar forças para continuar. E, para mim, continuar não significa esquecer; significa levar comigo o amor, as lembranças e tudo aquilo que meu filho deixou na minha vida. Depois que meu filho partiu, minha vida nunca mais será como antes.”
Mara também não enxerga o luto como uma etapa com prazo para terminar. Há dias mais difíceis e outros em que a ausência parece pesar um pouco menos, mas a vontade de reencontrar o filho permanece.
A mãe ainda procura uma maneira de reorganizar a vida depois da perda. Em alguns momentos, relata, a tristeza chega com tanta intensidade que faz desaparecer, ainda que temporariamente, aquilo que antes parecia ter sentido.
“Quando meu filho faleceu, uma parte de mim morreu. Estou tentando encontrar uma maneira de recomeçar a viver, mas o desânimo vem como um tsunami, e aí a força acaba. Tudo que parecia ter sentido desaparece.”
O peso da culpa para quem fica
A perda de um filho pode ser acompanhada por um profundo sentimento de vazio. Quando a morte ocorre por suicídio, familiares e pessoas próximas também podem enfrentar culpa e questionamentos recorrentes sobre o que poderiam ter feito para impedir o desfecho.
Para o psiquiatra Luiz Henrique Novaes, acolher esses sentimentos e trabalhar a percepção de responsabilidade são partes importantes do cuidado destinado a quem enfrenta o luto.
“A primeira coisa que acontece com o pai e a mamãe numa situação como essa é uma sensação de vazio muito grande, porque perder um filho, do ponto de vista psicológico, não é uma ocorrência natural”, disse o especialista.
Segundo Novaes, o acompanhamento também busca ajudar os familiares a não permanecerem presos à tentativa de modificar aquilo que já aconteceu.
“Viva o presente sem a carga de responsabilidade, principalmente sem a carga de culpa e procure agora, para aqueles que ficaram, para os filhos que restaram, para os amigos que estão aqui ainda, se colocar mais à disposição para ouvir”, disse ele.
O psiquiatra ressalta que amar e cuidar de um filho não significa ter controle sobre todas as escolhas que ele fará ao longo da vida. À medida que crescem, os filhos desenvolvem suas próprias maneiras de enfrentar dores, conflitos e decisões.
Para Novaes, seguir adiante não significa deixar de sentir a perda ou esperar que a dor simplesmente desapareça. “Não significa que a dor vai diminuir, mas é possível ter um amparo e conseguir seguir em frente de maneira mais tranquila e feliz”, destacou.
Continuar não significa esquecer
A casa de Mara e Jander ainda guarda sinais da presença de Yuri. O cheiro, as roupas, as fotografias, os netos e as lembranças mantêm viva a história do filho no cotidiano da família.
Para Jander, continuar vivendo é carregar consigo tudo aquilo que Yuri deixou.
“Estou aprendendo a conviver com a saudade e a encontrar forças para continuar. E, para mim, continuar não significa esquecer; significa levar comigo o amor, as lembranças e tudo aquilo que meu filho deixou na minha vida. Depois que meu filho partiu, minha vida nunca mais será como antes”, finalizou.
Setembro Amarelo: falar e ouvir também são formas de cuidado
A história de Yuri e de sua família reforça a importância de falar sobre saúde mental com responsabilidade, acolhimento e respeito. Escutar sem julgamentos, levar manifestações de sofrimento a sério e incentivar a busca por atendimento profissional podem ajudar pessoas que atravessam momentos de crise.
Também é importante lembrar que familiares e amigos enlutados precisam de cuidado. O acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, os grupos de apoio e uma rede de pessoas disponíveis para ouvir podem contribuir para que a dor seja atravessada sem silenciamento ou isolamento.
Onde buscar ajuda
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso. O atendimento pelo telefone 188 funciona 24 horas por dia, sem custo de ligação; também há opções de chat e e-mail no site cvv.org.br.
Em situações de risco imediato ou emergência, a orientação é procurar uma unidade de urgência e emergência ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pelo número 192. A pessoa em sofrimento não deve permanecer sozinha.
Centros de Atenção Psicossocial em Manaus
Os CAPS são serviços públicos de saúde mental abertos à comunidade e voltados ao acolhimento de pessoas em intenso sofrimento psíquico.
- Centro de Atenção Psicossocial III Benjamin Matias Fernandes
Atende pessoas maiores de 18 anos com transtornos mentais graves e persistentes.
Endereço: avenida Maneca Marques, 1.916 – Parque 10 de Novembro
Atendimento ao público externo: de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h
O primeiro atendimento não exige agendamento prévio nem encaminhamento. - Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil Leste Dr. Rogelio Casado Marinho Filho
Atende crianças e adolescentes de até 18 anos com transtornos mentais graves e persistentes ou problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas.
Endereço: avenida Adolpho Ducke, 1.221 – conjunto Acariquara, Coroado
Atendimento ao público externo: de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h
O primeiro atendimento não exige agendamento prévio nem encaminhamento. - Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil Sul Psicóloga Nivya Kellen de Castro Valente
Atende crianças e adolescentes de até 18 anos com transtornos mentais graves e persistentes ou problemas relacionados ao uso abusivo de álcool e outras drogas.
Endereço: rua Santa Catarina, 3 – Parque das Laranjeiras
Atendimento ao público externo: de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h
O primeiro atendimento não exige agendamento prévio nem encaminhamento.
Unidades com acompanhamento psicológico
Na rede municipal de Saúde as seguintes unidades oferecem acompanhamento psicológico:
- USF Antônio Reis – rua Escandinávia, s/n, São Lázaro;
- Policlínica Dr. Antônio Comte Telles – rua Barreirinha, s/n, São José Operário;
- Policlínica Castelo Branco – rua do Comércio, s/n, Parque 10 de Novembro;
- USF Ajuricaba – avenida Leste, s/n, conjunto Ajuricaba, Alvorada;
- Policlínica Dr. Djalma Batista – rua Teotônio Vilela, s/n, Compensa — indicada pela Semsa como unidade em reforma;
- Policlínica José Antônio da Silva – rua Grumixava, s/n, Monte das Oliveiras;
- USF Desembargador Fábio Couto Valle – avenida Brigadeiro Hilário Gurjão, s/n, Jorge Teixeira;
- USF Professor Carlson Gracie – avenida Curaçao, s/n, Nova Cidade;
- USFR Ephigênio Salles – quilômetro 41 da rodovia AM-010, zona rural;
- USFR Pau Rosa – ramal do Pau Rosa, quilômetro 21 da BR-174, zona rural.





