Manaus está pronta para envelhecer?

Envelhecer em Manaus pode significar experiências diferentes. Para alguns idosos, a cidade oferece espaços de convivência e atividades que ajudam a manter a rotina ativa. Para outros, sair de casa envolve dificuldades com calçadas, ônibus e acessibilidade.
A questão ganha peso diante do crescimento da população idosa. Segundo o Censo Demográfico de 2022, Manaus tinha 185.241 moradores com 60 anos ou mais, o equivalente a 8,35% da população. O índice de envelhecimento da capital, que relaciona pessoas de 65 anos ou mais e crianças de até 14 anos, passou de 13,71 em 2010 para 26,41 em 2022.
Atividade e convivência depois dos 60
Oscar Roque, de 80 anos, mantém uma rotina ativa. Aposentado, ele frequenta atividades de pilates e um centro de convivência e afirma estar adaptado à vida na capital. Para ele, o calor é uma das principais dificuldades, mas não impede que continue participando das atividades e mantendo amizades.
“Eu me considero já quase amazonense, porque eu gosto de estar aqui e me dou bem”, afirma. Sobre os espaços de convivência, diz que ajudam a ocupar o tempo e a manter os vínculos sociais.
Maria de Souza, também de 80 anos, segue trabalhando e praticando esportes. Para ela, o empreendedorismo é uma forma de se manter ativa e próxima das amigas. A aposentada afirma que usa ônibus para se deslocar e, às vezes, recorre a aplicativos de transporte, chegando a gastar R$ 40 em uma viagem de ida e volta.
O geriatra Sileno Fortes Filho destaca a importância dessa rotina. Segundo ele, preservar a mobilidade, a saúde mental e a convivência social é fundamental para a autonomia do idoso. Problemas urbanos, como calçadas inadequadas e dificuldades no transporte, podem aumentar o risco de quedas, com possíveis fraturas, traumas e perda de qualidade de vida.
“O Brasil e principalmente aí as regiões norte, nordeste, ela vem envelhecendo de uma maneira muito rápida e a gente precisa estar preparado como cidade e como sociedade também”, afirma.

Manaus ainda apresenta obstáculos
A experiência é diferente para Lúcia Pinheiro, de 64 anos. Para ela, envelhecer em Manaus é enfrentar uma estrutura urbana que ainda apresenta dificuldades para quem tem mobilidade reduzida.
“Envelhecer aqui é um problema, né? Porque não tem estrutura para as pessoas idosas, principalmente nas ruas”, afirma. Lúcia cita o caso de uma amiga que caiu em um terminal e diz que o acesso aos ônibus e as condições das ruas dificultam a rotina.
A arquiteta e urbanista Claudia Moraes explica que a acessibilidade depende de um conjunto de elementos, como largura e material das calçadas, ausência de obstáculos, sinalização e rampas com inclinação adequada. Segundo ela, as dificuldades também aparecem no transporte coletivo, tanto no acesso às plataformas quanto no embarque e desembarque dos ônibus.
“Não basta incluir uma rampa. A rampa precisa ter a inclinação adequada para o uso”, explica.

Dados do Censo 2022 mostram que 366.035 moradores de Manaus vivem em ruas sem calçada ou passeio público. Entre os locais onde há calçadas, 74,3% apresentam obstáculos que interferem na circulação.
A cidade também oferece espaços voltados à convivência e ao lazer. O Programa Conviver, no Parque Municipal do Idoso, reúne mais de 2 mil usuários frequentes e oferece de 15 a 20 modalidades regulares, entre elas hidroginástica, pilates, natação, caminhada, música, dança e artesanato. As atividades são gratuitas.
Para o geriatra, porém, a estrutura precisa estar distribuída pela cidade. Ele defende a expansão de centros de convivência e de equipes multidisciplinares para atender idosos em diferentes regiões.
O envelhecimento da população já está em curso em Manaus. Enquanto parte dos idosos encontra espaços para manter uma rotina ativa, outros ainda enfrentam obstáculos para circular e acessar serviços. Preparar a cidade para essa mudança envolve não apenas oferecer atividades, mas também garantir mobilidade, acessibilidade e autonomia.





