Inspirações gastronômicas: conheça pratos ‘estrangeiros’ que foram criados no Brasil

Produto da charcutaria nacional, a linguiça calabresa não existe na região italiana da Calabria
A gastronomia brasileira abriga um fenômeno recorrente e curioso: preparações batizadas com referências estrangeiras que não correspondem, necessariamente, a pratos tradicionais dos países citados. A prática atravessa décadas, aparece em diferentes regiões e envolve tanto receitas do cotidiano quanto itens de confeitaria e comida de rua.
O pão francês é um dos casos mais conhecidos. Presente de forma constante no café da manhã em todo o País, o produto foi desenvolvido no Brasil a partir de técnicas de panificação inspiradas em pães europeus. A baguete e outros formatos franceses fazem parte da tradição da França, mas o pão francês brasileiro possui características próprias de tamanho, casca e miolo.

Outro exemplo é a torta holandesa. Popularizada nos anos 1990, a sobremesa combina creme à base de manteiga, biscoitos e cobertura de chocolate. Não há registro de um doce equivalente com esse nome na confeitaria dos Países Baixos. A denominação passou a circular no mercado brasileiro como identificação do produto.

Fenômeno semelhante ocorre com a palha italiana. O doce, feito de brigadeiro com biscoito triturado, não integra o repertório clássico da Itália. Embora dialogue com preparações europeias que misturam chocolate e biscoito, a formulação e o nome consolidaram-se no Brasil.

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Fenômeno também em outras áreas da gastronomia
No campo das bebidas, a limonada suíça segue a mesma lógica. Preparada com limão batido com casca e, em muitas versões, leite condensado, não corresponde a uma receita tradicional suíça. O nome aparece associado à oferta em lanchonetes e restaurantes brasileiros.

Entre os pratos salgados, o arroz à grega ocupa lugar frequente em refeições festivas. A combinação de arroz branco com legumes não remete a um prato específico da culinária grega. A referência geográfica tornou-se parte da nomenclatura adotada no país, mas sem qualquer referência ao país de origem, no caso o Brasil.

Na categoria de embutidos, a linguiça calabresa brasileira também representa uma adaptação local. A Calábria possui tradição em linguiças, mas o produto consumido no Brasil apresenta formulação e processo de produção desenvolvidos internamente. Já o molho à bolonhesa tem origem italiana, embora a versão difundida no Brasil e em outros países apresente variações em relação ao ragù preparado em Bolonha.
A comida de rua oferece exemplos adicionais. O crepe suíço, assado em molde cilíndrico e servido no palito, não corresponde a uma especialidade suíça. O churrasco grego, carne assada em espeto vertical e servida em pão, aproxima-se de técnicas presentes em preparações como gyros, shawarma e doner kebab, difundidas em diferentes países.

Mais marketing do que origens verdadeiras
Pesquisadores e profissionais da gastronomia apontam que a adoção de nomes estrangeiros pode estar ligada a estratégias de mercado, circulação de referências culturais e processos de adaptação culinária. Ao longo do século 20, termos associados à Europa passaram a ser incorporados como forma de identificação de produtos, muitas vezes sem vínculo direto com receitas tradicionais.
O resultado é um repertório em que o nome indica uma inspiração simbólica, enquanto a receita reflete práticas, ingredientes e preferências consolidadas no Brasil. A dinâmica revela como a cozinha nacional absorve influências externas e produz interpretações próprias, mantendo denominações que se tornaram familiares ao consumidor brasileiro.





