Cuidados paliativos não significam fim da vida, explica médica

Falar sobre cuidados paliativos ainda é um desafio para muitas famílias e até mesmo para profissionais da saúde. Em entrevista ao Onda News, nesta quinta-feira (27/8), a médica especialista em clínica médica e cuidados paliativos, Dra. Rayssa Leite, explicou que o objetivo dos cuidados paliativos é oferecer suporte ao paciente e à família durante toda a trajetória da doença.
O tema, muitas vezes associado exclusivamente aos momentos finais da vida, envolve, na verdade, uma abordagem que pode começar desde o diagnóstico de uma doença grave ou ameaçadora à vida.
Segundo a médica, o cuidado paliativo é realizado por uma equipe multidisciplinar e busca compreender a realidade de cada paciente.
“Eu digo que tem a história da doença, mas também tem a história do meu paciente, daquela família, daquele contexto”, explicou.
Cuidados paliativos não são sinônimo de terminalidade
Um dos principais equívocos sobre o tema, segundo Rayssa Leite, é acreditar que os cuidados paliativos devem ser iniciados apenas quando o paciente está em fase terminal ou nos últimos momentos de vida.
A especialista explica que o acompanhamento pode começar muito antes e, inclusive, ser iniciado no momento em que a doença é diagnosticada.
Para ela, quanto mais cedo o paciente e a família recebem esse suporte, maiores são as possibilidades de controlar sintomas, reduzir sofrimentos e estabelecer um cuidado alinhado ao que realmente importa para aquela pessoa.
“Eu posso acompanhar o paciente desde o momento do diagnóstico. Na verdade, esse seria o ideal”, afirmou.
A médica destaca que o diagnóstico de uma doença grave costuma vir acompanhado de medo, ansiedade e muitas dúvidas. Ao longo do tratamento, também podem surgir sintomas como dor e enjoo, além de efeitos provocados pelas próprias terapias.
Nesse cenário, a equipe de cuidados paliativos atua para aliviar o sofrimento e proporcionar mais conforto, sem necessariamente interromper tratamentos destinados ao controle da doença.
O foco também está naquilo que importa para o paciente
Outro ponto destacado pela especialista é que o cuidado paliativo não se resume à utilização de medicamentos. A proposta também é entender quais atividades, relações e objetivos são importantes para cada paciente.
Rayssa Leite contou que, durante os atendimentos, pode ouvir de um paciente que ele sente falta, por exemplo, de frequentar sua igreja ou participar de sua comunidade.
A partir disso, a equipe busca alternativas para que ele possa retomar essas atividades dentro das suas possibilidades.
“Como será que a gente pode fazer para você retornar ao seu meio, ao que importa para você?”, relatou a médica.
Para a especialista, esse olhar individualizado permite que o tratamento seja constantemente adaptado. O objetivo é melhorar a qualidade de vida e, quando possível, recuperar parte da autonomia e da dignidade do paciente.
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Atendimento pode acontecer no hospital e no ambulatório
A Dra. Rayssa também explicou que acompanha pacientes em diferentes momentos da trajetória da doença, tanto no ambiente hospitalar quanto no atendimento ambulatorial.
Segundo ela, quando o paciente recebe alta e continua o acompanhamento no ambulatório, existe a possibilidade de construir um diálogo mais próximo sobre sintomas, dificuldades e objetivos pessoais.
Nesse processo, a evolução do quadro também pode ser percebida de maneira mais ampla. Um paciente que anteriormente enfrentava muitas dificuldades pode apresentar melhora e voltar a realizar atividades que considerava importantes.
“Estava tão ruim, agora é um momento que eu estou me sentindo melhor. Eu resgatei um pouco da minha dignidade”, destacou.
Por que ainda existe resistência?
A médica também chamou atenção para a resistência que ainda existe em torno do assunto. Em alguns casos, familiares e até profissionais evitam mencionar os cuidados paliativos por acreditarem que falar sobre o tema seria o mesmo que anunciar uma sentença de morte.
Para Rayssa, essa percepção precisa mudar.
A proposta dos cuidados paliativos, segundo ela, é justamente oferecer qualidade de vida durante o período de tratamento e acompanhamento de uma doença, inclusive quando ela é incurável.
A especialista defende que o diálogo seja iniciado o quanto antes para que paciente e família possam participar das decisões e receber suporte durante as diferentes fases da doença.
Mais do que representar o fim das possibilidades de tratamento, os cuidados paliativos buscam garantir que o paciente não enfrente sozinho uma trajetória marcada por sintomas, dúvidas, medos e mudanças na rotina.
A abordagem, portanto, coloca o paciente no centro do cuidado e considera não apenas a doença, mas também sua história, seus vínculos, seus desejos e aquilo que dá sentido à sua vida.





