Alimentos que falam? A nova febre de vídeos com IA levantam questões sobre limites, utilidade e (des)informação

Vídeos de alimentos que dão dicas viralizam nas redes sociais — Foto: Reprodução/TikTok
Casca da cenoura pode virar chá? Abacaxi não pode na geladeira? Batata e cenoura precisam ficar separadas? Tomate deve ser armazenado em ambiente seco? Dicas sobre escolha e armazenamento de alimentos estão viralizando nas redes sociais, porém, essas informações cotidianas ganharam um novo destaque: sendo narrados pelas próprias comidas.
@dicarapidaia
O fenômeno também impulsionou uma nova trend no TikTok: a de pessoas que passam a seguir, em tom de humor, os “conselhos” dos alimentos falantes.

Você já tomou bronca de um alimento hoje? Alimentos com expressões ranzinzas dando dicas sobre como devem ser usados ou conservados, quase sempre sem citar a origem das informações apresentadas, estão cada vez mais comuns por meios das hashtags #alimentosfalantes e #objetosfalantes.
@ianecessaria
No TikTok, já são centenas de publicações com o uso de uma linguagem simples e acessível, mesmo quando o alimento “briga” com você, ajuda a criar proximidade com quem assiste.
Para analisar esse tipo de viral, a Rede Onda Digital conversou com um time de especialistas na área de Nutrição para comentar sobre os impactos dessa tecnologia no comportamento humano, e se as informações repassadas por meio dos “personagens” são de fato embasadas.

O nutricionista Clínico para saúde, Reinaldo Vasquez, afirma que nem sempre é ideal confiar nos vídeos produzidos por IA, e destaca que, ao ter contato com esses conteúdos, o importante é sempre checar a fonte e, em caso de dúvidas, buscar orientação.
“Analisando esse tipo de conteúdo, a gente consegue ter muitas informações relevantes, mas também muitas outras informações completamente irrelevantes. (…) Mas quanto à questão de armazenamento dos alimentos e suas propriedades nutricionais, muito do que se vê nesses vídeos não tem muito fundamento”, disse.
Um exemplo citado pelo especialista é a temperatura utilizada para o alimento, colocar o alimento em alta ou baixa não altera sua composição nutricional. Vasquez cita que parte desses conteúdos relatam uma sensação comum: a de que estavam fazendo “tudo errado” na forma de guardar frutas, legumes e outros alimentos.
“Mas os criadores desses conteúdos sabem que precisam colocar um pouco de “Medo” ou “Susto” para poder engajar. É uma espécie de terrorismo nutricional que acaba afastando as pessoas da alimentação saudável. Pois, quando elas assistem esse conteúdo, acabam achando que se alimentar saudável é algo difícil ou burocrático, sendo que na realidade, é totalmente o oposto disso”, explicou.
O nutricionista ainda cita que apesar disso, informações são consideradas em outros cenários, como, por exemplo, as cascas de alimentos que servem como chás, podendo ser reaproveitadas sem perder o valor nutricional.
“De fato, conseguimos reaproveitar muita coisa dos alimentos que pensamos em jogar fora, como cascas. É uma prática muito comum e até ancestral fazer chás com isso para tratar algum tipo de enfermidade. Minha avó sempre fazia pra mim quando eu era criança e os efeitos eram notórios, tanto que até hoje eu ainda faço e indico alguns”, pontuou Vasquez.
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A nutricionista Ramaiana Otaviana, especialista em avaliação e prescrição nutricional individualizada, consultada pela Rede Onda Digital, revela que a RDC nº 216 de 2004 da Anvisa, considerada a norma oficial brasileira para serviços de alimentação, propõe as orientações sobre higiene e manipulação dos alimentos, são necessárias e extremamente importantes, mas precisam ser corretas, contextualizadas e baseadas em ciência, não em exageros.
“A RDC nº 216 deixa claro que o objetivo, o principal do manuseio adequado é reduzir os riscos de contaminação química, física e microbiológica. Isso aí vai incluir a higienização correta das mãos, lavagem adequada de frutas, legumes e verduras, uso de água potável. A gente fala também sobre evitar contaminação cruzada, controle de temperatura desses alimentos”, explicou.
Quando uma fruta, legume ou comida “fala”, o espectador tende a acreditar que aquele alimento sabe exatamente como deve ser conservado mesmo que a orientação não tenha respaldo técnico. Para a nutricionista, isso pode ocasionar muitos questionamentos, dentre eles, se tem base técnica ou só é um tipo de terrorismo nutricional, por isso, sempre é necessário verificar se cumpre os critérios da Anvisa.
“Agora, nem tudo que circula aí como circula na internet é correto. Por exemplo, o uso do vinagre, limão ou bicarbonato como desinfetante, ele não substitui o uso do hipoclorito de sódio, que é o sanitizante adequado. Então, a Anvisa recomenda na concentração correta, porque isso aí tem comprovação científica. Criar pânico dizendo que se não fizer ‘x’ vai adoecer, isso não é educação alimentar, isso é desinformação”, completou.
A especialista ainda alerta para que haja atenção ao conteúdo que está sendo compartilhado nesses vídeos animados.
“As orientações de manuseio são essenciais, sim, elas têm que ter embasamento técnico, mas elas precisam ser passadas por profissionais com base em normas oficiais como a RDC-216 e não em vídeos sensacionalistas que é o que a gente vê hoje em dia. Informação correta sobre como proteger a saúde, desinformação só vai gerar medo. Por isso, a gente sempre precisa questionar a fonte, procurar profissionais qualificados e confiar num embasamento técnico, científico. Segurança alimentar não é achismo, é norma, é técnica e é responsabilidade”, pontuou.
Conteúdos criados por IA
No geral, o conteúdo existe graças às ferramentas de IA acessíveis e gratuitas, algumas podem até ser pagas e possuem mais recursos e melhorias significativas. Os vídeos, geralmente de 15 a 60 segundos, são publicados em sequência, costumam seguir uma lógica de continuidade, com histórias recorrentes, como se cada publicação fosse um novo episódio de uma série.
A maioria dos criadores usa:
- Grok AI, Meta AI, Viggle AI ou Google Veo 3 para gerar imagens animadas;
- ChatGPT, com prompts do tipo “crie um tomate com cara de bravo explicando como ser armazenado”, para detalhar as instruções;
- Aplicativos como CapCut ou Clipchamp para editar e sincronizar voz e movimentos labiais.
Combinando esses recursos, o resultado se torna esse:
@podeissoia
Limites
Com o crescimento do uso de IA na produção de vídeos informativos, especialmente em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube Shorts, recomendações sobre alimentação e segurança sanitária passaram a ser replicadas em larga escala, nem sempre com validação profissional, como vimos anteriormente.
Para analisar esse tipo de conteúdo, a Rede Onda Digital conversou também com um especialista sobre os limites da IA na geração de informações sensíveis e de que forma a tecnologia pode contribuir tanto para a educação quanto para a desinformação.

Para Wollace de Souza Picanço, especialista em Detecção e Análise de Imagem, apesar dos vídeos gerados por IA serem chamativos e atraentes pela criatividade, sem a validação técnica, os riscos de quem consome pode ser alto.
“Os principais são a desinformação, o vídeo pode apresentar informações falsas ou distorcidas, levando pessoas a acreditar em algo que não é verdadeiro. Manipulação e engano, sendo possível criar falas e imagens de pessoas que nunca disseram ou fizeram aquilo, o que pode ser usado para enganar, difamar ou manipular opiniões. Riscos à saúde e segurança, esses conteúdos com dicas médicas, alimentares ou técnicas incorretas podem causar danos reais se seguidos sem orientação profissional. Perda de credibilidade, quando vídeos falsos circulam, fica mais difícil confiar em conteúdos legítimos, inclusive, de fontes sérias. Sem validação técnica, vídeos feitos por IA podem parecer confiáveis, mas espalhar erros, causar danos e comprometer a confiança das pessoas na informação“, explicou.
Em suma importância, a IA é capaz de fornecer orientações confiáveis sobre temas sensíveis como saúde e alimentação, mas cabe a um profissional da área orientar e prescrever aquilo que será animado pelo “personagem”.
E os cuidados que produtores de conteúdo devem ter ao usar IA, principalmente para esse tipo de conteúdo, o especialista alerta para evitar erros e danos, adotando cuidados claros para tratar dessas informações sensíveis.
“Usar IA com responsabilidade exige revisão humana, transparência e compromisso ético com quem consome a informação”, pontuou.
Confira algumas dicas:
- Verificar as informações: todo conteúdo gerado por IA deve ser revisado e confirmado com fontes confiáveis ou profissionais da área;
- Não substituir especialistas: a IA deve apoiar a produção do conteúdo, nunca substituir médicos, nutricionistas, professores ou técnicos qualificados;
- Deixar claro o uso de IA: informar ao público que o conteúdo foi gerado ou auxiliado por inteligência artificial aumenta a transparência;
- Evitar recomendações diretas: não fornecer diagnósticos, prescrições ou instruções personalizadas, especialmente em saúde, alimentação e segurança;
- Usar linguagem responsável: evitar afirmações absolutas, promessas de resultados ou tom sensacionalista;
- Atualizar e corrigir conteúdos: caso erros sejam identificados, o produtor deve corrigi-los rapidamente e informar o público.
Cabe o alerta para o disparo massivo de conteúdos nesse foco: linguagem simples, viral e com objetos animados. Por via de quaisquer dúvidas, quem consome esse tipo de informação deve consultar um profissional na área para sanar questionamentos e também assegurar um bom manuseio de alimentos ou comidas, sem se deixar levar pelo o que a internet apresenta.






