Do “espectro” às constelações: ciência questiona modelo atual do diagnóstico do autismo

Medida que proíbe multa a autistas por perturbação de sossego em condomínios consta no PL nº 5576/2023 (Foto: andreswd/Getty Images)
Quando a psiquiatra britânica Lorna Wing propôs, em 1979, o termo “espectro do autismo”, a intenção era romper com as classificações rígidas que dominavam a psiquiatria infantil. A ideia não era criar um novo rótulo fechado, mas ampliar o entendimento sobre diferentes formas de desenvolvimento social e comunicativo.
Até então, o diagnóstico se baseava majoritariamente na descrição de Leo Kanner, feita em 1943, que tratava o autismo como uma condição rara, homogênea e bem delimitada. Crianças que não se encaixavam perfeitamente nesses critérios acabavam excluídas do diagnóstico, mesmo apresentando dificuldades sociais, comunicativas ou comportamentais.
A proposta de Wing teve um caráter pragmático e ético ao mostrar que o autismo não era excepcional, mas parte de uma ampla variação do desenvolvimento humano. O conceito nasceu para incluir, não para rotular de forma definitiva.
Com o passar das décadas, porém, a unificação de múltiplas condições sob o guarda-chuva do Transtorno do Espectro do Autismo resultou em um grupo extremamente heterogêneo. Hoje, duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem não compartilhar características em comum, o que tem levantado críticas dentro da própria comunidade científica.
Pesquisadores apontam que essa generalização excessiva tem prejudicado a produção científica. Estudos realizados com grupos muito distintos tendem a apresentar resultados inconsistentes ou inconclusivos. Na prática clínica, isso se traduz em dificuldades para definir abordagens terapêuticas eficazes e seguras.
A simplificação do autismo como uma linha contínua que vai do “leve” ao “grave” também é alvo de críticas. Especialistas alertam que essa lógica mascara necessidades específicas dos pacientes e ignora evidências de que a biologia do autismo envolve múltiplos mecanismos e camadas distintas, que não seguem uma régua única.
Pesquisas recentes têm reforçado essa visão. Um estudo publicado em 2019 na revista Nature Genetics, conduzido por cientistas como Benjamin Neale e Anders Børglum, analisou grandes bases de dados genéticos e de neuroimagem e identificou diferenças genéticas entre subtipos clínicos do autismo. Os resultados indicam que não existe um único fator biológico, mas centenas de variações que interagem de formas diversas.
Esse cenário dificulta o avanço da medicina de precisão, já que tratamentos aplicados a pessoas com perfis biológicos distintos podem ter efeitos opostos, ajudando alguns pacientes e prejudicando outros. Para os pesquisadores, separar subgrupos biológicos não significa engessar diagnósticos, mas compreender melhor os mecanismos envolvidos para desenvolver terapias mais eficazes e menos arriscadas.
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Apesar dos avanços, especialistas alertam para os limites dessa abordagem. Em entrevista à revista New Scientist, a psicóloga Amy Pearson, da Universidade de Durham, no Reino Unido, destacou que subtipos não conseguem capturar toda a complexidade do desenvolvimento humano. Segundo ela, indivíduos autistas mudam ao longo da vida e os subtipos funcionam apenas como aproximações.
Como alternativa ao modelo linear do espectro, ganha força a proposta das chamadas “constelações” ou perfis multidimensionais. Nessa abordagem, diferentes eixos são avaliados de forma independente, permitindo identificar combinações únicas de habilidades e dificuldades, como alta competência linguística associada a desafios severos no processamento sensorial.
A lógica diagnóstica deixa de perguntar “o quão autista essa pessoa é?” e passa a focar em quais são suas forças e necessidades específicas. Essas informações podem ser representadas visualmente em gráficos que formam uma constelação única para cada indivíduo.
Essa mudança também tem impacto social e educacional. Iniciativas como a “roda de cores” criada pela cartunista britânica Rebecca Burgess ajudam a comunicar visualmente a diversidade de traços do autismo, rompendo estereótipos e ampliando a compreensão pública.
Para especialistas, o avanço do cuidado às pessoas neurodivergentes passa pela substituição de rótulos genéricos por um olhar mais atento e individualizado. A educação, aliada à ciência, é apontada como o caminho para transformar o conceito de espectro em uma abordagem que respeite a complexidade e a singularidade de cada pessoa.
*Com informações de CNN Brasil.






