Natal com o pai ou com a mãe? Como famílias separadas definem as festas de fim de ano

As festas de fim de ano geralmente são marcadas pelas celebrações em família com mesas repletas de comidas gostosas, união, presentes e reencontros. Mas, para pais separados, esse período pode vir acompanhado de um desafio que é dividir o convívio dos filhos com os ex-companheiros sem transformar o clima festivo em confusão.
Um exemplo prático dessa realidade vem do relato de Roger Salles, que é pai de um menino. Seu filho mora com os avós maternos, e todas as decisões sobre o convívio são definidas em conjunto com eles.

“Um lado ou outro cede na paz, nada tão grande a ponto de discussões tóxicas. Como eu disse, ele mora com os avós maternos e com esses, sim, eu tenho uma ótima relação. Um ano ele passa Natal comigo, outro o Revéillon”, explicou.
Roger destacou que sente a falta do filho quando não passa alguma data comemorativa com ele, mas tudo é planejado com flexibilidade.
“Uma falta, mas ele tem a família da mãe, né? Tudo é dividido na paz. Ano passado, ele passou o Natal comigo, então esse ano talvez eu não passe. Houve um ano que ele não passou nem comigo, nem com a família da mãe, porque a minha mãe viajou com ele para outra cidade, aí a tutela foi dela”, relatou.
O pai reforçou que o segredo para uma convivência harmoniosa é o diálogo aliado ao bom senso. “Diálogo e bom senso, não tomar pra si na base do egoísmo o protagonismo na vida da criança, afinal o filho não tem nada a ver com os problemas e mágoas dos pais”, concluiu.
A importância do diálogo

Segundo a psicóloga Alcilene Moreira, planejar as festas de fim de ano com os filhos após uma separação é um desafio que exige maturidade, diálogo e muito carinho. O primeiro passo é reconhecer que, embora seja uma fase sensível, é possível transformá-la em uma experiência emocionalmente saudável para toda a família.
“Minha sugestão, sob uma perspectiva clínica, é tratar a comunicação como uma espécie de “reunião de negócios”. O tom deve ser formal, cortês e altamente focado no objetivo (o bem-estar da criança). Deixamos as emoções e mágoas do relacionamento adulto de lado para focar na logística parental. A assertividade, combinada com a antecedência, é a sua melhor aliada. Decidam o calendário meses antes, se possível, e apresentem o plano de forma unificada à criança”, explicou.
Ausência da ‘família original’
De acordo com Alcilene, é natural que, nas primeiras celebrações após a separação, os pequenos sintam um luto pela tradição perdida e pela ausência da “família original”. Porém, quando a alternância é estável e previsível, a criança passa a compreender que há espaço para ela em ambos os lares e aprende a construir novas tradições em cada um.
“É natural que, no início, a criança sinta um luto pela tradição perdida. É uma tristeza legítima por não ter a “família original” reunida. Contudo, querido (a) pai/mãe, aqui está o ponto-chave: a alternância, quando feita com previsibilidade e rotina, é uma ferramenta poderosa! Ela ensina a criança que há espaço para ela em ambos os lares e permite a criação de novas e significativas tradições em cada núcleo. O impacto é minimizado pela estabilidade do esquema: se ela souber que todo Natal ímpar é com o pai, e par com a mãe, a ansiedade diminui muito”, sugeriu.
A psicóloga orienta os pais a não perguntarem para os filhos sobre com quem preferem passar as festas de fim de ano, pois essa decisão deve ser inteiramente dos adultos.
“Aqui, minha orientação é categórica: a criança não deve ser consultada sobre quem ela prefere. O ônus da decisão pertence 100% aos adultos. Perguntar a ela é forçá-la a trair a lealdade de um dos pais, um conflito emocional que ela não tem ferramentas para resolver. Apresentem o calendário como um acordo positivo e inegociável entre vocês”, destacou.
Alcilene orienta, ainda, que os pais não tentem apagar o passado, mas o ressignifiquem com delicadeza. Uma forma saudável de fazer isso é dizer algo como: “Aquele tempo foi importante e temos lembranças lindas. Hoje nossa família é diferente, mas continua cheia de amor, só mudou a forma de se organizar”, pontua.
“Ao fazer isso, você ensina à criança que a família se transformou, mas o amor é inabalável”, concluiu.





