Poder e Justiça: uma reflexão necessária para o Brasil

(Arte: IA)
Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a cenas que deveriam nos levar menos à comemoração ou à condenação imediata, e mais à reflexão profunda.
Presidentes da República sendo presos.
Pessoas que chegaram ao cargo máximo do país pelo voto popular, que governaram, tomaram decisões, acertaram e erraram. E que, goste-se ou não, serviram ao Brasil. Não estou falando de mérito jurídico, não discuto culpa ou inocência, nem se merecem punição ou absolvição, isso é papel da Justiça. A reflexão aqui é outra. É humana.
Quando a Justiça vira símbolo
Será que transformar a prisão de um ex-presidente em símbolo político nos torna, de fato, uma sociedade melhor?
Quando Luiz Inácio Lula da Silva foi preso, vimos um país dividido, de um lado, comemoração, do outro, indignação. Agora, com Jair Bolsonaro, o roteiro parece o mesmo. Só mudam as direções dos aplausos e das vaias. A lógica não é nova. O que muda é o personagem.
Enquanto isso, crimes graves seguem impunes. A violência real, cotidiana, que destrói famílias todos os dias, continua acontecendo sem a mesma comoção. Sem o mesmo rigor, sem holofotes. Isso nos obriga a fazer uma pergunta incômoda: o que exatamente estamos celebrando?
Justiça, punição e espetáculo
A prisão, nesses casos, parece deixar de ser apenas pena, ela vira espetáculo, recado, símbolo político. E quando a Justiça assume esse papel simbólico, algo se perde no caminho. Porque a força do Estado não deveria estar na humilhação pública.
Nem no uso da punição como instrumento de afirmação política, mas na aplicação equilibrada da lei, com firmeza, sim e com humanidade. O problema não é punir, o problema é quando a punição passa a servir mais à narrativa do que ao princípio.
A linha tênue entre justiça e vingança
A pergunta que faço não é ideológica, não é partidária, é humana. Até que ponto isso é justiça? E a partir de que momento começa a se parecer com vingança institucionalizada?
Uma democracia madura não se constrói apenas com leis duras, ela se sustenta com equilíbrio e responsabilidade e ainda com a capacidade de punir sem desumanizar. Quando a sociedade passa a torcer por prisões, em vez de torcer por justiça, algo se desequilibra.
Porque justiça não pode ser seletiva, emocional, nem guiada por aplausos.
O risco para a democracia
Normalizar a celebração da queda pública de líderes eleitos cria um precedente perigoso. Hoje é “o outro”, amanhã, pode ser qualquer um.
Instituições fortes não precisam de espetáculos, precisam de credibilidade. E credibilidade se constrói com coerência, não com torcida e pensar isso não é defender pessoas, é defender princípios.
E princípios são o que diferenciam justiça de revanche, Estado de Direito de instinto coletivo, democracia de barbárie institucionalizada.
Uma reflexão necessária
Talvez o verdadeiro amadurecimento democrático comece quando formos capazes de dizer: “Que a Justiça faça seu trabalho. Sem aplausos, sem ódio e sem espetáculo.” Porque quando a Justiça vira palco, todos nós corremos o risco de virar plateia de algo que, no fundo, deveria nos preocupar.






