Os herdeiros do voto: a política do amazonas que passa de geração em geração

Na política, algumas disputas começam muito antes do período eleitoral. Para determinados candidatos, a campanha também é uma continuidade de uma história familiar construída ao longo de décadas. No Amazonas, as eleições de 2026 colocam novamente em evidência um fenômeno conhecido nos bastidores: a presença de filhos que seguem os passos dos pais e tentam transformar sobrenomes já conhecidos pelo eleitor em capital político.
Os rostos mudam, mas os sobrenomes permanecem. A sucessão familiar não acontece necessariamente pela substituição imediata de um pelo outro. O que se vê é a construção de uma segunda geração dentro do mesmo ambiente político, ampliando a presença da família e criando uma reserva eleitoral para o futuro.
Entre os candidatos de 2026 aparecem nomes que carregam a marca de grupos políticos já conhecidos no estado. Entre os filhos de Adail Pinheiro estão Adail Filho, Adail José Figueiredo Pinheiro, pelo MDB, disputando a reeleição, e Emanoel Pinheiro, Emanoel da Costa Pinheiro, pelo PSD, para concorrer ao cargo na Aleam.

Na Assembleia Legislativa, George Lins, George Augusto Monteiro Lins de Albuquerque, busca a reeleição pela Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas. Ele é filho de Belarmino Lins, político de longa trajetória no estado.

Outro exemplo é Thiago Abrahim, do União Brasil, filho de Mário Abrahim, prefeito de Itacoatiara. Eleito deputado estadual, agora disputa a reeleição e tenta consolidar o espaço político construído pela família.

Quando o legado vira carreira
A relação entre pais e filhos na política amazonense também aparece em trajetórias que já ultrapassaram a simples herança do sobrenome.
David Reis, do Avante, foi eleito vereador de Manaus quatro vezes, em 2012, 2016, 2020 e em 2024, e ocupa a presidência da Câmara Municipal de Manaus. Atualmente, é candidato a deputado estadual. O pai, Sabá Reis, também construiu uma longa carreira política, com um mandato de deputado estadual e sete passagens pela Câmara Municipal.

O sobrenome funciona como um cartão de visitas: facilita o reconhecimento do eleitor, abre portas dentro dos partidos, aproxima lideranças e oferece uma rede política previamente construída. Mas, na urna, o patrimônio familiar precisa ser convertido em voto, e é aí que começa o verdadeiro desafio dos herdeiros.
Filhos de candidatos também entram no jogo
No pleito deste ano, a presença de pais e filhos disputando cargos também chama atenção. O coronel Menezes disputa uma vaga de deputado federal pelo Avante, enquanto a filha, Débora Menezes, do PL, busca a reeleição para deputada estadual.

O mesmo ocorre com David Almeida, candidato ao Governo do Amazonas pelo Avante, enquanto Dra. Aryel Almeida, Fernanda Aryel Rodrigues de Almeida Lima, disputa uma vaga de deputada federal pelo mesmo partido.

Na família de Felipe Souza, atual deputado estadual que concorre à reeleição pelo Podemos, Thaysa Lippy de Souza Florencio também busca espaço eleitoral pela Federação União Progressista para deputada federal, ela é vereadora na CMM.

São movimentos que mostram como a política familiar pode assumir diferentes formatos: o filho ocupando o espaço deixado pelo pai, pai e filho disputando simultaneamente cargos diferentes, numa espécie de dobradinha eleitoral, ou o herdeiro construindo carreira própria a partir de uma estrutura política que já existia.
O sobrenome ajuda, mas não garante
Ter um pai ou uma mãe com trajetória política pode representar vantagem inicial, mas não significa necessariamente vitória. O eleitor pode reconhecer o sobrenome, mas também pode questionar se o candidato possui identidade própria, capacidade de articulação e propostas que ultrapassem o legado familiar. É nesse ponto que está o dilema dos herdeiros políticos: continuar o legado sem parecer apenas uma extensão do pai ou da mãe.
Para os grupos tradicionais, lançar uma nova geração também pode ser uma estratégia de sobrevivência política. Enquanto uma liderança se aproxima do fim da carreira, outra já está sendo preparada para ocupar espaços, manter alianças e preservar influência.
No Amazonas, a eleição de 2026 não apresenta apenas uma disputa entre candidatos. Em alguns casos, ela também coloca frente a frente diferentes dinastias políticas e projetos de continuidade.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples: o eleitor está escolhendo apenas um candidato ou também está votando em uma história de família? Porque, na política amazonense, a renovação dos rostos nem sempre significa renovação dos sobrenomes.





