O caminho perigoso de quem busca votos no Amazonas

A morte do vereador Edgar Litaiff Mendes Júnior (União Brasil), de Alvarães, após um acidente no lago de Tefé, durante uma ação de campanha do deputado estadual Thiago Abrahim (MDB), não é um fato isolado.
No Amazonas, onde os rios funcionam como estradas e muitas rodovias são precárias, chegar ao eleitor muitas vezes significa enfrentar riscos que já resultaram em acidentes, naufrágios e mortes durante deslocamentos de campanha e agendas de governo.
Uma sequência de acidentes ao longo das décadas
Os registros atravessam diferentes eleições. Em 1998, o então governador Gilberto Mestrinho, candidato ao Senado, sofreu um acidente na AM-070, a caminho de Manacapuru.
Em novembro de 2001, Amazonino Mendes se acidentou na BR-174, quando seguia para Presidente Figueiredo em uma agenda de governo. O carro saiu da pista após um desvio e bateu em um barranco, e Amazonino fraturou seis costelas, uma delas perfurando o pulmão. O episódio mostra que os riscos não se limitam ao período eleitoral.
Em 3 de outubro de 2002, a logística eleitoral terminou em tragédia. Três estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e o piloto morreram na queda de um avião que transportava urnas eletrônicas para as eleições em São Gabriel da Cachoeira. Os estudantes trabalhavam para o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) e participariam da transmissão dos resultados em comunidades do Alto Rio Negro. A aeronave caiu logo após decolar, três dias antes do primeiro turno.
A relação entre política e acidentes também aparece nos deslocamentos por rios. Em 2016, Mazile Menezes, candidato à Prefeitura de Beruri, estava em uma lancha que naufragou após colidir com uma canoa, mas ele e os demais ocupantes sobreviveram.
Em 2020, uma lancha com integrantes da equipe do então prefeito e candidato à reeleição de Urucurituba, José Claudenor de Castro Pontes, o Sabugo, naufragou de madrugada na região da Ilha do Risco. O candidato não estava a bordo, uma pessoa desapareceu e outras ficaram feridas. Em 2024, um acidente envolvendo o candidato a vereador Cleverson Redivo, em Manaus, terminou com a morte do motociclista Josué de Souza Matos.
2026 repete o padrão de riscos
Em 2026, a sequência continuou. Em março, a presidente da Câmara de Silves, Nelci Lira (Republicanos), e três vereadores ficaram feridos quando o carro em que estavam capotou na AM-010, em Rio Preto da Eva.
Em junho, o deputado estadual Daniel Almeida (Avante) sofreu um acidente na AM-070, em Manacapuru, quando seguia para encontrar o irmão, David Almeida, para uma agenda em Caapiranga. A viagem de David, então em pré-campanha ao Governo do Amazonas, acabou cancelada, pois, segundo ele, a chuva forte e as condições de navegação no rio Solimões aumentavam o risco.
Antes disso, o deputado federal Amom Mandel (Republicanos) e Matheus Garcia também sofreram um acidente na BR-319 enquanto gravavam um documentário sobre a rodovia.
O acidente que matou Edgar Litaiff recoloca essa realidade no centro da política amazonense. Em um estado de dimensões continentais, a campanha não se resume a palanques, ruas e comícios, passa também por rios, lagos, estradas e ramais, que candidatos, parlamentares, equipes e servidores precisam enfrentar para chegar aos municípios e comunidades onde estão os eleitores. A sucessão de acidentes ao longo dos anos mostra que, no Amazonas, chegar ao eleitor também significa enfrentar os perigos do caminho.





