Cadê os bandeiraços? Campanha eleitoral aparece menos nas ruas de Manaus

Quem acompanha as campanhas eleitorais pelas ruas de Manaus pode ter a impressão de que a disputa começou mais silenciosa em 2026, sem tantos bandeiraços. Em rotatórias, cruzamentos e pontos tradicionalmente ocupados por grupos de cabos eleitorais, são menos frequentes as cenas de dezenas de pessoas uniformizadas com as cores de candidatos, segurando bandeiras ou distribuindo santinhos.
A propaganda eleitoral está liberada desde 16 de agosto, inclusive nas ruas e na internet. Nesta terça-feira (25), a disputa chega ao 10º dia oficial de campanha.
A redução das ações presenciais, porém, não significa necessariamente uma campanha menos movimentada. Parte da disputa migrou para as redes sociais, onde candidatos e partidos podem alcançar um número muito maior de eleitores sem depender de grandes equipes espalhadas pela cidade.
Para o cientista político Afrânio Soares, essa mudança já pode ser percebida nas ruas. “A gente vê menos do que se via antes os bandeiraços, as reuniões, posto de gasolina, uma série de outras formas de se manifestar”, avalia.
Segundo ele, enquanto a presença física diminuiu, a disputa no ambiente digital ganhou intensidade. “Nas redes sociais, como se diz na gíria, o fogo tá comendo. O pau tá quebrando e todo mundo tá tentando ganhar um espaço novo a cada dia lá”, afirma.
A avaliação é que os candidatos podem estar concentrando esforços em estratégias digitais, que permitem segmentar públicos, produzir conteúdo diariamente e manter uma comunicação constante com o eleitor. O próprio TSE regulamentou para 2026 regras específicas para propaganda na internet e para o uso de inteligência artificial durante a campanha.
O risco de perder o “olho no olho”
Apesar da força das redes sociais, a mudança também pode representar uma perda para os candidatos. O contato direto ainda permite uma aproximação que dificilmente é reproduzida por uma postagem ou vídeo na internet. No chamado “mano a mano”, o candidato ou sua equipe consegue conversar diretamente com o eleitor, ouvir reclamações e apresentar propostas de forma mais pessoal.
Para o eleitor, encontrar um candidato, apertar sua mão ou conversar rapidamente sobre um problema do bairro pode ter um peso diferente de apenas assistir a um vídeo nas redes sociais. Esse contato também ajuda a criar uma sensação de proximidade e identificação, principalmente entre eleitores que não acompanham ativamente o conteúdo político na internet.
Nesse sentido, a menor presença nas ruas pode significar não apenas uma economia de recursos ou uma mudança de estratégia, mas também a perda de uma oportunidade de falar diretamente com a população. Afinal, nas eleições, nem sempre quem aparece mais na tela é quem consegue criar a relação mais próxima com o eleitor.
Menos gente nas esquinas não significa menos gasto
A aparente redução das equipes nas ruas também chama atenção diante do volume de recursos destinados às campanhas. Para 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) soma R$ 4,96 bilhões, distribuídos entre os partidos conforme critérios estabelecidos pela legislação.
Isso, entretanto, não significa que os recursos estejam necessariamente sendo utilizados em bandeiraços ou que todos os candidatos tenham recebido os mesmos valores. O dinheiro pode financiar diferentes estruturas, como produção audiovisual, publicidade digital, pessoal, transporte, eventos e outras despesas permitidas. A questão, portanto, é menos sobre a existência de dinheiro e mais sobre onde os candidatos estão escolhendo colocar seus recursos.
A mudança também pode ter relação com o momento da campanha. Com a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão prevista para começar em 28 de agosto, as equipes podem estar guardando parte da estrutura para uma fase em que a exposição dos candidatos tende a aumentar. O próprio Afrânio Soares aposta em uma intensificação das ações presenciais a partir desse período: “Eu acho até que elas vão se intensificar na medida em que começarem as inserções em TV e rádio”, afirma o cientista político.
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Calor pode ser outro fator
Há ainda uma explicação mais prática para a menor presença de pessoas nas ruas: o calor de Manaus. Bandeiraços normalmente exigem equipes permanecendo durante horas em cruzamentos e rotatórias, muitas vezes expostas diretamente ao sol. Em períodos de temperaturas elevadas, a atividade pode se tornar mais desgastante para os trabalhadores e exigir maior estrutura de hidratação, pausas e proteção.
Esse fator, porém, deve ser tratado como uma possibilidade, e não como explicação definitiva para a redução das equipes, já que seria necessário ouvir as campanhas para confirmar se o clima está influenciando suas estratégias.
Interior mantém campanha mais presencial
O cenário também não é igual em todo o Amazonas. Enquanto Manaus apresenta uma presença aparentemente mais discreta de equipes nos cruzamentos, municípios do interior registram carreatas e motociatas, algumas com grandes concentrações de apoiadores.
Para Afrânio Soares, a diferença tem relação com a dinâmica das cidades e com os próprios meios de transporte utilizados pela população. “A moto é um meio de transporte predominante no interior”, explica. Segundo ele, motocicletas, carreatas e carros de som continuam sendo ferramentas importantes para demonstrar força política nos municípios.
No interior, essas manifestações também cumprem uma função simbólica: mostrar que determinado candidato possui uma rede de apoio e capacidade de mobilização local.
Campanha mais silenciosa ou nova estratégia?
A ausência dos tradicionais grupos de bandeiraço pode, portanto, representar menos uma desmobilização e mais uma transformação na forma de fazer campanha. Em vez de ocupar diariamente as esquinas de Manaus, os candidatos podem estar concentrando equipes e recursos em eventos específicos, conteúdos para redes sociais, comunicação direta com eleitores e, a partir desta semana, na preparação para a propaganda no rádio e na televisão.
A dúvida que fica é se o eleitor está apenas deixando de ver a campanha ou se também está deixando de ser alcançado pelas estratégias tradicionais. Para o eleitor acostumado às campanhas com ruas tomadas por bandeiras, carros de som e militantes, a eleição de 2026 pode estar apresentando uma mudança silenciosa: menos campanha à vista e mais campanha na tela do celular.





