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Energia limpa atrai big techs, mas impactos ambientais acendem alerta

Professor Raimundo Albuquerque revela cenário preocupante ao meio ambiente
22/02/26 às 20:00h
Energia limpa atrai big techs, mas impactos ambientais acendem alerta

Interior de um complexo de data centers da Meta (Foto: Divulgação / Meta)

Nos últimos meses, pelo menos cinco grandes complexos de data centers de inteligência artificial foram anunciados no Brasil, no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Ceará. Juntos, esses empreendimentos podem consumir energia equivalente a 16,4 milhões de residências, segundo projeções. O governo federal, por sua vez, criou o Redata, regime de tributação que oferece incentivos fiscais para atrair essas empresas.

Por trás do discurso do avanço tecnológico, há questões ambientais que ainda recebem pouca atenção. Quanto de energia e água esses data centers realmente consumirão? A matriz energética brasileira, majoritariamente renovável, garante que o impacto será menor? E a regulação atual é suficiente para evitar danos?

Para responder a essas perguntas, a Rede Onda Digital entrevistou o professor e advogado Raimundo Albuquerque, mestre em Sociedade e Cultura e doutorando em Ciências Ambientais. A conversa revelou um cenário marcado por lacunas normativas, pressão sobre recursos hídricos e energéticos e uma ausência de transparência.

Comparações alarmantes

“Um data center de grande porte consome tanta eletricidade quanto uma cidade de porte médio. Só os sistemas de refrigeração absorvem entre 30% e 40% de toda a energia da instalação, porque servidores produzem calor incessante e precisam ser mantidos em temperatura controlada, sem pausa, 24 horas por dia”, explica Albuquerque.

Professor e advogado Raimundo Albuquerque, mestre em Sociedade e Cultura e doutorando em Ciências Ambientais (Foto: Arquivo pessoal)

Estudos recentes ajudam a dimensionar o problema. Até 2030, os data centers nos Estados Unidos poderão emitir entre 24 e 44 milhões de toneladas de CO₂ por ano, o equivalente a colocar de cinco a dez milhões de carros adicionais nas estradas.

Mas há um dado que torna a questão mais palpável. “Um estudo estimou que cada prompt de cem palavras enviado a um modelo de linguagem consome cerca de 519 mililitros de água. Uma garrafa. Parece pouco, mas bilhões de usuários enviam prompts a cada minuto.”, alerta o professor.

Matriz limpa, mas vulnerável

O Brasil tem uma vantagem comparativa inegável: cerca de 84% da matriz elétrica é composta por fontes renováveis, com destaque para hidrelétricas (55%), energia eólica (14,8%) e biomassa (8,4%). Nos Estados Unidos, por outro lado, 56% da eletricidade que alimenta os data centers vem de combustíveis fósseis.

“Essa diferença faz do Brasil um destino atraente para as big techs, que precisam mostrar compromissos climáticos nos relatórios anuais. Até aqui, o argumento funciona”, reconhece Albuquerque. Mas ele pondera: “Menor não significa baixo. E a vantagem brasileira repousa sobre uma fragilidade que ela mesma não governa”.

Pressão sobre o sistema elétrico

O especialista chama atenção para casos concretos que ilustram o tamanho do desafio. Em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, planeja-se um complexo de 4,75 gigawatts.

“O número soa abstrato até que se coloca ao lado de outro num comparativo. A usina de Jirau, no rio Madeira, quarta maior hidrelétrica do país, gera 3,7 GW e abastece quarenta milhões de pessoas. Um único empreendimento privado planeja consumir mais do que isso”, compara.

Scala AI City, ‘cidade’ de servidores projetada para Eldorado do Sul (RS)(Foto: Divulgação / Scala Data Centers)

Quando um empreendimento de escala nacional se instala numa rede regional, a rede sente. “A pressão sobre os sistemas de transmissão costuma gerar um custo difuso, diluído na tarifa de quem já paga”.

Regulação atrasada

Um dos pontos mais críticos levantados por Albuquerque é a fragilidade da regulação ambiental brasileira para lidar com data centers de hiperescala. “O ordenamento ambiental brasileiro, estruturado pela Lei 6.938/1981 e pela Resolução CONAMA 237/97, não foi pensado para data centers. Claro, quando essas normas foram criadas, data centers de hiperescala não existiam.”

A Medida Provisória 1.318/2025, que instituiu o Redata, prevê que os data centers habilitados ao regime especial devem atender à totalidade de sua demanda com energia de fontes limpas ou renováveis.

“O Brasil atrai os data centers pela energia limpa, mas não exige que a permanência deles sustente aquilo que os atraiu. Se a promessa de sustentabilidade depender apenas de autodeclaração, o país estará oferecendo seu patrimônio energético como vitrine, sem exigir contrapartida à altura do que entrega”, conclui Albuquerque, em alerta à população.

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