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Entenda por que o colete salva-vidas é essencial em viagens de lancha no Amazonas

Uanderson, sobrevivente do naufrágio no Encontro das Águas em Manaus, relata que não havia colete para crianças no dia da tragédia
06/03/26 às 09:35h
Entenda por que o colete salva-vidas é essencial em viagens de lancha no Amazonas

(Foto: Montagem / Rede Onda Digital)

O naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, ocorrido no dia 13 de fevereiro no Encontro das Águas, em Manaus, completa quatro semanas nesta sexta-feira (6/3). A tragédia deixou três mortos confirmados e seis desaparecidos, além de mais de 70 sobreviventes. Entre eles, o microempresário Uanderson Campos, que viajava com a esposa e os dois filhos pequenos, uma menina de 3 anos e um menino de 8. Em entrevista à Rede Onda Digital, ele relembrou, com detalhes, os momentos de desespero dentro d’água.

“Eu acho que foram vários pontos de pânico. O primeiro foi quando a lancha, na velocidade que estava, começou a enfrentar as ondas. Ela deu três solavancos. Era como um carro em alta velocidade passando em quebra-molas: bateu, levantou a frente, caiu. Bateu de novo, levantou, caiu. Na terceira vez, quando ela voltou para a água, a força arrebentou a porta da frente. A água entrou e, com o peso, ela só foi afundando. Não deve ter levado mais de 30 segundos”, relatou.

Uanderson conta que, no desespero, ele e a esposa tentaram colocar um colete na filha mais nova, mas o equipamento era grande demais.

“Não servia. Era muito grande. Eu também fiquei sem colete o tempo todo. Tinha alguns disponíveis, mas a gente deu prioridade para quem não sabia nadar. Teve uma hora que tentei puxar um, mas a corda prendeu em alguma coisa e a lancha já estava afundando. Ou eu ficava tentando ou saía para não ir para o fundo junto. Preferi sair e confiar que ia conseguir boiar em alguma coisa.”

Uanderson Campos, sobrevivente do naufrágio (Foto: Rede Onda Digital)

Na água, a família se agarrou a um freezer que boiou e a pedaços de madeira. As ondas, que de dentro d’água pareciam montanhas, engoliam as crianças a cada nova pancada, segundo o relato do sobrevivente.

“Minha filha ficava de frente para a minha esposa, só com a cabeça para fora. Quando a onda vinha, ela engolia água e dava aqueles soluços altos. A gente tentava não se desesperar, mas era difícil.”

O momento de quase morte

Um dos momentos mais dramáticos vividos por Uanderson foi durante o resgate. Ele tentou subir em uma embarcação que ajudava as vítimas, mas a correnteza o puxou para baixo do barco.

“As pessoas chegavam com muita força na lateral do barco e iam para o fundo. Eu fui um deles. Afundei, afundei, sentia meus pés tocando em outras pessoas que estavam embaixo de mim. Alguém me puxou tentando se apoiar. Num momento, eu achei que ia morrer ali. Tentei bater para subir, mas a força da água só jogava para baixo”, relembra.

Ele conseguiu boiar do outro lado da embarcação, a cerca de 15 metros de distância. “Quando olhei, não acreditei que estava vivo. Cheguei a bater no meu rosto para ver se era real.” Depois de quase uma hora na água, ele foi puxado por uma corda. “Não tinha mais força. O cara gritava: ‘Segura, rapaz, é a tua vida, porr*!’ Mas eu não conseguia. Só quando me laçaram e me puxaram. Quando subi, vomitei muita água e desabei.”

Falta de coletes infantis

Uanderson também chamou atenção para a ausência de equipamentos adequados para crianças.

“Não lembro de ter visto um único colete infantil. Tinham muitas crianças a bordo. Um bebê recém-nascido, minha filha, meu filho, outra criança de colo. No mínimo, umas dez crianças com menos de 10 anos. Nenhuma delas tinha colete adequado”, alertou.

O tenente Pinheiro, comandante do Grupamento de Operações Aquáticas do Corpo de Bombeiros, detalhou a complexidade da operação de buscas, que já dura 21 dias.

“A correnteza ultrapassa seis quilômetros por hora. A nossa região extrapola todo tipo de equipamento. Eu tenho comparado o nosso ambiente como se fosse o Everest do mergulho, pelas condições extremas de profundidade, força da água e mudanças climáticas”, explicou.

Tenente Pinheiro, comandante do Grupamento de Operações Aquática do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CMBAM) (Foto: Rede Onda Digital)

Sobre o uso do colete, o tenente foi enfático.

“Muitas e muitas ocorrências de mergulho por parte do Corpo de Bombeiros não precisariam ser atendidas. Muitas pessoas poderiam estar vivas se tivessem usado o colete. O equipamento é feito para, mesmo que a pessoa desmaie, manter as vias aéreas fora d’água e não dependa de uma caixa de isopor ou de uma garrafa PET. Use o equipamento adequado”, disse.

Ele também orienta os passageiros a fiscalizarem as condições da embarcação.

“Verifique se a lotação está sendo respeitada. Os nossos ajatos não são ônibus, não é previsto gente em pé. Os grandes naufrágios do Amazonas foram consequência de superlotação ou sobrecarga. Se a tripulação não orientar, cobre. Se achar necessário, exija o colete. A sua vida depende disso”, pontua.

Buscas seguem

A embarcação transportava mais de 80 passageiros. Até o momento, três mortes foram confirmadas: o cantor Fernando Grandêz, 39 anos; a pequena Samila de Souza, 3 anos; e a estudante Lara Bianca, 22 anos. As buscas pelos seis desaparecidos continuam, com mergulhadores enfrentando correnteza forte, visibilidade quase nula e o desafio de operar a 50 metros de profundidade.

(Foto: Rede Onda Digital)

O comandante da lancha, Pedro José da Silva Gama, é considerado foragido. A Justiça decretou sua prisão preventiva no dia seguinte ao naufrágio. As investigações seguem em andamento.