“Nós existimos”: a voz dos indígenas LGBTQIA+ no Amazonas

Por muito tempo, falar sobre diversidade sexual e de gênero dentro dos povos indígenas foi um tema pouco debatido. Hoje, jovens lideranças indígenas estão ocupando espaços para mostrar que essas vivências existem e fazem parte da realidade de muitos territórios.
Entre elas está o jornalista Pedro Tukano, coordenador do Coletivo Miriã Mahsã, que atua na promoção do diálogo sobre gênero, sexualidade, juventude e saúde mental a partir da perspectiva indígena.
Muitas realidades, muitos povos
Quando o assunto é ser uma pessoa LGBTQIA+ dentro dos povos indígenas do Amazonas, Pedro Tukano faz questão de lembrar que não existe uma única resposta. Segundo ele, são dezenas de povos, culturas, línguas e formas de compreender o mundo, cada uma com suas próprias experiências. Por isso, generalizações acabam apagando a diversidade que existe dentro dos territórios indígenas.
O jovem líder explica que cada povo passou por processos diferentes ao longo da história, incluindo influências religiosas, educacionais e culturais. Isso ajuda a explicar por que algumas comunidades lidam com mais naturalidade com a diversidade, enquanto outras ainda enfrentam dificuldades para discutir o tema.
Entre a existência e a resistência
A realidade de muitos indígenas LGBTQIA+ ainda é marcada por desafios. Tukano relata que situações de discriminação, preconceito e exclusão podem ocorrer tanto nas cidades quanto dentro de algumas comunidades, afetando a vida de jovens que buscam reconhecimento e respeito.
“Ser uma pessoa LGBT dentro dos povos indígenas do Amazonas é, primeiro, dizer que nós existimos”, pontua.
Para ele, uma das missões do coletivo é justamente reafirmar essa existência. Mais do que discutir identidades, o movimento busca mostrar que indígenas LGBTQIA+ sempre fizeram parte de seus povos e continuam presentes nos territórios, nas universidades, nos espaços políticos e nos movimentos sociais.

A diversidade não veio de fora
Uma ideia frequentemente repetida é a de que a diversidade sexual seria uma influência externa às culturas indígenas. Pedro discorda dessa visão e argumenta que ela ignora a complexidade dos mais de 300 povos indígenas existentes no Brasil.
Segundo ele, algumas tradições possuem narrativas próprias sobre gênero e sexualidade. Além disso, o movimento indígena LGBTQIA+ costuma lembrar a história de Tibira, indígena do Maranhão morto durante o período colonial por não corresponder aos padrões de comportamento impostos pelos colonizadores portugueses.
“Dizer que ser LGBT é algo de fora das culturas indígenas é uma afirmação equivocada que desconhece a própria história dos povos indígenas”, argumenta.
Para o coordenador, antes de questionar as culturas indígenas, é necessário compreender que cada povo possui suas próprias formas de interpretar a vida, a identidade e as relações humanas.
Dupla discriminação
Nos centros urbanos, os desafios podem ganhar novas camadas. Pedro afirma que muitos indígenas LGBTQIA+ enfrentam uma dupla discriminação: por serem indígenas e por integrarem a comunidade LGBTQIA+.
Ele relata que ainda são comuns comentários e questionamentos que colocam em dúvida a existência dessas pessoas. Embora pareçam simples, essas falas acabam reforçando preconceitos e dificultando o reconhecimento da diversidade presente entre os povos indígenas.
Saúde mental e acolhimento
A saúde mental aparece como uma das principais preocupações do movimento. Jovens que sofrem discriminação ou são excluídos de espaços de convivência podem enfrentar sentimentos de culpa, isolamento e sofrimento emocional.
Por isso, o coletivo tem aproximado os debates sobre gênero e sexualidade das discussões sobre juventude e saúde mental. O objetivo é criar espaços seguros para diálogo, acolhimento e fortalecimento das identidades indígenas LGBTQIA+.
Espaços conquistados pelo diálogo
Nos últimos anos, o tema passou a ganhar mais visibilidade dentro do movimento indígena. Pedro destaca o papel fundamental das organizações de mulheres indígenas, que abriram espaços para que jovens LGBTQIA+ participassem de encontros, debates e atividades coletivas.
Hoje, integrantes do coletivo participam de mobilizações regionais e nacionais, incluindo eventos em Brasília, reuniões de organizações indígenas e fóruns voltados para juventude, direitos humanos e saúde mental. Segundo ele, a presença dessas lideranças ajuda a ampliar o diálogo e construir novas formas de compreensão dentro do próprio movimento indígena.

Muito além da identidade
Pedro faz questão de lembrar que as pautas dos indígenas LGBTQIA+ caminham lado a lado com as demais reivindicações dos povos indígenas. Questões como demarcação territorial, proteção ambiental, mudanças climáticas, saúde e educação continuam sendo centrais para essas populações.
Ele destaca que os efeitos das mudanças climáticas, das queimadas e das secas afetam diretamente as comunidades indígenas e, posteriormente, alcançam toda a sociedade. Por isso, compreender as pautas indígenas também significa compreender desafios que impactam o futuro de todos.
“Nós existimos”
Ao final da entrevista, Pedro resume a principal mensagem que gostaria de transmitir. Para ele, o primeiro passo para combater o preconceito é reconhecer a existência das pessoas indígenas LGBTQIA+ e compreender que elas fazem parte da diversidade humana presente nos povos indígenas.
“Não é um bicho de sete cabeças”, afirma. “Somos filhos, irmãos, estudantes, trabalhadores e lideranças. Temos identidade, cultura, sonhos e desafios. Acima de tudo, somos seres humanos e fazemos parte da história e do presente dos povos indígenas do Amazonas.”





