Calor, fumaça e falta de áreas verdes podem afetar saúde mental em Manaus

Calor excessivo, poluição do ar, ruído e falta de contato com áreas verdes não afetam apenas o conforto de quem vive em uma cidade. Esses fatores ambientais também podem interferir no bem-estar mental e contribuir para quadros de estresse, ansiedade e alterações no sono. Em Manaus, onde períodos de calor intenso e fumaça das queimadas fazem parte da rotina de parte do ano, especialistas chamam atenção para os efeitos dessa relação entre ambiente e saúde.
Para a psiquiatra Alessandra Pereira, ambientes constantemente desconfortáveis podem aumentar a sobrecarga emocional. Segundo ela, o cérebro busca situações de segurança e conforto e, quando fatores como calor e barulho permanecem presentes por longos períodos, atividades cotidianas podem se tornar mais desgastantes.
“Quando nós temos um ambiente muito barulhento, muito tráfego e aquilo fica perturbando ali o juízo da pessoa, quando nós temos um ambiente muito quente e também um impacto climático que traz desconforto para aquela situação, a pessoa começa a gerar um desconforto também emocional”, explicou.
Esse desconforto, segundo a médica, pode acompanhar a pessoa durante o dia. O deslocamento até o trabalho, por exemplo, pode se tornar uma fonte adicional de estresse, fazendo com que ela chegue ao trabalho já sobrecarregada ou retorne para casa levando o desgaste acumulado.
“Você já chega estressado no trabalho, você já chega em casa com aquela sobrecarga, além do dia inteiro, do desconforto climático também”, afirmou.
Fumaça e poluição
Durante o período de fumaça em Manaus, outro fator ambiental ganha destaque: a presença de partículas finas no ar. Alessandra Pereira cita as partículas conhecidas como MP2,5, que possuem tamanho reduzido e podem penetrar profundamente no organismo quando inaladas.
De acordo com a psiquiatra, a exposição à poluição pode estar relacionada a processos inflamatórios no organismo e também no cérebro. Ela afirma que essa chamada neuroinflamação pode interferir em aspectos como humor, atenção, concentração, memória e sono.
“Essa neuroinflamação atrapalha o bom humor, trazendo irritabilidade, muita impaciência, falta de atenção, concentração, memória e prejudicando inclusive o sono”, explica.
A relação entre poluição e saúde mental também vem sendo investigada pela ciência. Um estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aponta evidências de associação entre determinados poluentes atmosféricos e problemas como depressão, ansiedade e demência. O organismo também destaca que os efeitos da crise climática, como eventos extremos, insegurança econômica e deslocamentos, podem repercutir sobre a saúde mental.
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Ecoansiedade também entra no debate
A preocupação constante com as mudanças ambientais também pode produzir sofrimento emocional. Alessandra cita a ecoansiedade, termo utilizado para descrever sentimentos como medo, angústia e preocupação relacionados às mudanças climáticas e à degradação ambiental.
Em Manaus, situações como alertas de chuvas intensas, períodos de calor extremo e episódios de fumaça podem aumentar essa percepção de insegurança.
“Então a ecoansiedade é uma realidade, e você também pode gerar muita angústia, e além da ansiedade, se sentir triste”, explicou.
Segundo a médica, pessoas diferentes podem reagir de maneiras distintas às mesmas condições ambientais. Características individuais e predisposições também precisam ser consideradas. Uma pessoa que passa a evitar atividades prazerosas ou perde a expectativa de ter dias confortáveis, por exemplo, pode experimentar alterações no humor.
“Então nós temos um impacto, sim, do ambiente sobre as emoções. Ele sozinho vai causar? Com certeza não, mas influenciar vai”, afirmou.
Contato com a natureza pode ajudar
Se o ambiente urbano pode gerar desconforto, o contato com a natureza aparece como um possível contraponto. A psiquiatra destaca que momentos de contato com rios, mata, céu, horizonte e até plantas podem favorecer o relaxamento. Ela explica que experiências como observar uma paisagem ou caminhar em um ambiente natural podem contribuir para desacelerar e reduzir a tensão cotidiana.
“Quando você entra em contato com a natureza, que você coloca o pé na areia, que você vê aquele horizonte, essa linha do horizonte, o azul ou o verde ou o preto das nossas águas, com aquela faixa de verde da mata, com aquele céu azul, ele desacelera a frequência das ondas cerebrais, então ele traz o relaxamento”, afirmou.
A médica também recomenda que o contato com a natureza faça parte da rotina sempre que possível, seja por meio de um banho de rio, da contemplação de um pôr do sol ou mesmo do cuidado com uma planta.
“Esses momentos, eles são fundamentais, então não deixe nunca de ter aquele contato com o banho, com a estrada, com o rio, com o pôr do sol, porque são momentos que renovam a sua mente”, disse.
O PNUMA também aponta benefícios associados ao contato com ambientes naturais e destaca que florestas e outros espaços naturais podem contribuir para o bem-estar físico e mental.
Manaus e a falta de áreas verdes
Em uma cidade marcada pela presença da floresta e dos rios, o acesso a esses espaços não é igual para toda a população. Para o arquiteto Marcos Cereto, coordenador do Núcleo de Arquitetura Moderna na Amazônia (NAMA), Manaus ainda precisa avançar na relação entre urbanização e natureza.
“A qualidade urbana de Manaus deixa muito a desejar. A relação entre a urbe e a floresta é de uma grande disputa. Infelizmente, nós não estamos em harmonia”, afirmou.
Segundo Cereto, essa realidade tem impacto direto sobre a população, principalmente pela dificuldade de acesso a áreas verdes e locais destinados à contemplação da paisagem.
“A população tem pouco acesso a áreas verdes, pouca condição de contemplação da paisagem, o que, infelizmente, privilegia apenas a um grupo mais restrito que tem acesso a esses espaços”, destacou.
Para o arquiteto, ampliar esses espaços deveria fazer parte do planejamento urbano da capital. A criação de praças, áreas verdes e locais de contemplação dos rios poderia aproximar a população da natureza e oferecer alternativas de convivência em meio à cidade.
“É fundamental que tenhamos, cada vez mais, praças, áreas de contemplação para a área verde, para os nossos rios, para que nós possamos enfrentar com mais condições a emergência climática que estamos vivendo”, ressaltou.
Moradores relatam impactos do calor e da falta de áreas verdes
Na rotina de quem vive, estuda ou trabalha em Manaus, o calor aparece como um dos principais fatores de desconforto. A estudante Evelyn da Silva, que mora em Iranduba e se desloca diariamente para a capital, conta que enfrenta temperaturas elevadas durante o trajeto de ônibus, principalmente nos horários de pico.
“Quando está quente mesmo é muito estressante, porque eu tenho alergia ao calor. (…) Muito difícil esse calor.”
Na construção civil, James Soares, de 19 anos, também aponta o calor como o que mais interfere no seu bem-estar durante o trabalho.
“No ambiente de trabalho, o que mais me estressa é realmente o calor. Onde eu trabalho é bastante quente.”
Segundo ele, depois do expediente, o banho é a principal forma de aliviar o desconforto provocado pelas altas temperaturas.
Já a estudante de contabilidade Luane procura parques, praças, rios e outros espaços naturais nos fins de semana para descansar da rotina de estudos e trabalho. Ela afirma, porém, que o calor continua sendo um obstáculo e percebe mudanças no humor quando passa muito tempo em ambientes fechados.
“Durante a semana é muito quente, principalmente dentro de ônibus, quando não tem ar-condicionado. É um humor que deixa a gente estressada.”
Luane também avalia que Manaus ainda oferece poucos espaços verdes e áreas de lazer acessíveis à população, destacando que pessoas em situação de rua enfrentam dificuldades ainda maiores para encontrar locais de descanso e proteção contra o calor.
Prefeitura afirma que mais de 45 mil mudas já foram plantadas
O desafio da arborização urbana ainda é expressivo em Manaus. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 44,8% dos trechos de vias da capital tinham pelo menos uma árvore, enquanto 55,2% não apresentavam arborização. O índice coloca Manaus entre as capitais com menor presença de árvores nas vias públicas. O tema ganha relevância diante das altas temperaturas registradas na cidade e da necessidade de ampliar áreas capazes de oferecer sombra e reduzir a exposição da população ao calor.
Questionada pela reportagem, a Prefeitura de Manaus informou que a arborização tem sido adotada como uma das estratégias para melhorar as condições ambientais dos espaços públicos da capital. Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), mais de 45 mil mudas de árvores foram plantadas em áreas públicas de Manaus desde o início de 2026.
De acordo com a gestão, a escolha dos locais para o plantio passa por análise técnica que considera fatores como baixa presença de árvores, exposição solar, necessidade de sombreamento e circulação de pedestres. Também são avaliadas as condições dos canteiros e passeios públicos e a existência de redes elétricas, iluminação, drenagem, sinalização e outros equipamentos urbanos.
As zonas Leste e Norte, que concentram parte significativa da população de Manaus, receberam cerca de 27 mil das mudas plantadas pela Semmas em 2026, o equivalente a aproximadamente 60% do total.
Além da função ambiental, a presença de árvores nas cidades está relacionada às condições de uso dos espaços públicos. Áreas mais arborizadas podem oferecer sombra, reduzir a exposição ao calor e tornar praças, calçadas e outros locais de convivência mais confortáveis.
A prefeitura afirma ainda que considera a arborização e a manutenção das áreas verdes componentes da infraestrutura ambiental de Manaus, com impactos no conforto térmico, na paisagem, na biodiversidade e no uso dos espaços públicos.




