Paridade de gênero na política: o cenário no Amazonas

O Brasil ocupa a 138ª posição no ranking da União Interparlamentar (IPU) de participação feminina no Parlamento. Mesmo sendo maioria entre os eleitores, as mulheres ainda são minoria entre os políticos eleitos. Elas representam 52,8% do eleitorado registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026, mas ocupam 17,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados (88 de 513) e 18,5% do Senado (15 de 81).
O índice brasileiro também está abaixo das médias mundial (27,3%), da América do Sul (31,5%) e das Américas (35,7%).
Na América Latina, Bolívia e México já ultrapassaram 50% de mulheres no Parlamento. Para a pesquisadora, doutora e cofundadora do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (MUSAS), Ivânia Vieira, uma das diferenças está nas regras eleitorais.
Nesses países, existem regras que obrigam os partidos a alternar homens e mulheres nas listas de candidatos. No Brasil, o eleitor escolhe diretamente o candidato. A legislação exige pelo menos 30% de candidaturas de cada sexo, mas isso não garante que as mulheres sejam eleitas.
Segundo Ivânia, homens com carreira política consolidada costumam ter mais acesso a recursos, estrutura de campanha e apoio partidário.
Amazonas e Brasil estão preparados para a paridade em 2026?
Para Ivânia, o Amazonas e o Brasil ainda não estão preparados para alcançar uma participação equilibrada entre homens e mulheres na política.
“O Brasil e, em recorte, o Estado do Amazonas, não estão preparados para abrigar a paridade nos poderes Legislativo e no Executivo. Primeiro, nunca foi preparado nessa direção. O poder representativo se organizou em torno dos homens com regras severas de veto às mulheres.”
No Amazonas, há uma mulher como candidata ao governo e três candidatas a vice-governadora. Na disputa pelo Senado, há uma candidata. Para a Câmara dos Deputados, são 51 mulheres entre 139 candidatos, o equivalente a 36,7%.
Na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), são 98 mulheres entre 294 candidaturas, sem considerar os registros inaptos.
Leia mais
TSE apresenta novas medidas contra violência política de gênero nesta terça (21)
Cota de gênero vira motivo para cassação de chapa e recontagem de votos em Anori
Além da falta de recursos e apoio, a especialista aponta a violência política de gênero como um obstáculo à participação feminina. Segundo ela, a presença das mulheres era mais aceita quando elas ocupavam funções de apoio, mas passou a gerar resistência quando começaram a disputar espaços de decisão.
“Enquanto as sujeitas mulheres permaneceram, em maioria, atuando como serventes dos homens em cargo de poder […] não havia tantos conflitos. Quando questionam a performance de carregar as pastas, servir cafezinho, água, limpar a sujeira, organizar o gabinete havia um tipo de pacto em torno da violência política de gênero.”
Para mudar esse cenário, a pesquisadora defende o combate à violência política, distribuição mais equilibrada dos recursos de campanha e discussão sobre participação feminina em escolas, famílias e comunidades.
“As mulheres desorganizam o pacto e vão à luta para abrir fendas no concreto do edifício do poder. As fendas estão em processo de alargamento, desconstruindo paredes e construindo portas por meio de muita luta”, conclui.





