Doença rara faz intestino produzir álcool e confunde pacientes com alcoólatras

Bactérias Escherichia coli coloridas no microscópio eletrônico: uma das responsáveis pela síndrome — Foto: Cavallini James/BSIP/picture alliance via DW
Parecer embriagado sem consumir álcool pode soar como exagero, mas é uma condição real e potencialmente grave. Trata-se da síndrome da autofermentação, também conhecida como síndrome da autocervejaria, um distúrbio metabólico no qual o próprio intestino passa a produzir etanol.
Não há uma estimativa confiável sobre quantas pessoas são afetadas em todo o mundo. Na literatura médica, a síndrome é classificada como muito rara, mas especialistas acreditam que existam muitos casos não diagnosticados ou confundidos com abuso de álcool ou outras doenças.
O avanço nas pesquisas sobre o microbioma, conjunto de micro-organismos que vivem no corpo humano, tem ajudado a esclarecer a condição. Pessoas com a síndrome podem apresentar níveis elevados de álcool no sangue mesmo sem ingerir bebidas alcoólicas.
Durante anos, o excesso de leveduras no intestino foi apontado como principal causa. Estudos mais recentes, no entanto, indicam que determinadas bactérias exercem papel central no processo. Uma pesquisa publicada na revista Nature Microbiology é considerada a mais abrangente já realizada sobre a doença.
O estudo foi conduzido por uma equipe liderada por Bernd Schnabl e Cynthia Hsu, da Universidade da Califórnia em San Diego, instituição de referência em pesquisas sobre fígado e microbioma. Os cientistas analisaram amostras de fezes de 22 pacientes com a síndrome, 21 familiares e 22 pessoas saudáveis usadas como grupo de controle. A comparação permitiu separar os efeitos da dieta e do ambiente daqueles provocados diretamente pelo microbioma.
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Bactérias produtoras de álcool
Em laboratório, as amostras dos pacientes com a síndrome produziram quantidades significativamente maiores de álcool do que as dos grupos de controle. O fenômeno foi associado principalmente a bactérias intestinais como Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, capazes de fermentar carboidratos e gerar etanol em excesso.
Segundo Schnabl, esses microrganismos utilizam diferentes vias metabólicas que elevam o álcool no sangue a níveis capazes de comprometer atividades como dirigir. O achado mostra como o microbioma pode influenciar de forma profunda a saúde e o comportamento humano, inclusive em situações que envolvem implicações legais, como fiscalizações de trânsito.
Além dos sintomas físicos, a síndrome impõe um peso social significativo. Muitos pacientes enfrentam desconfiança constante, já que afirmam não ter bebido apesar dos exames indicarem o contrário.
Diagnóstico difícil e novas estratégias
Relatos médicos indicam que muitos pacientes são inicialmente rotulados como alcoólatras que bebem escondido, o que traz impactos severos à vida pessoal, profissional e à credibilidade dessas pessoas.
O diagnóstico atual é complexo e envolve dietas ricas em carboidratos sob monitoramento rigoroso, com medições frequentes do nível de álcool no sangue. Para o futuro, Schnabl e Hsu defendem métodos baseados na análise de amostras de fezes e no estudo direto do metabolismo bacteriano.
Transplante de fezes surge como alternativa
Ainda não existe um tratamento padronizado para a síndrome. Em um dos casos analisados no estudo, os sintomas diminuíram de forma significativa após dois transplantes de fezes.
O procedimento, conhecido como transplante de microbiota fecal, consiste na transferência de bactérias intestinais de um doador saudável para o paciente, com o objetivo de restaurar o equilíbrio do microbioma. Apesar de causar estranhamento, a técnica já é usada com sucesso em outras doenças intestinais.
A equipe de pesquisadores pretende agora avaliar essa abordagem em um grupo maior de pacientes. Especialistas consideram os resultados promissores e veem o estudo como um avanço rumo à medicina personalizada baseada no microbioma, mas alertam que ainda são necessários estudos mais amplos e dados de longo prazo antes da consolidação de um tratamento definitivo.
*Com informações de G1.






