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Café da manhã amazonense: uma luta entre a herança regional e a pressa da vida moderna

Considerada por alguns especialistas como a principal refeição do dia, o café da manhã do amazonense é um panorama de nossas influências gastronômicas
01/02/26 às 09:00h
Café da manhã amazonense: uma luta entre a herança regional e a pressa da vida moderna

Em busca da regionalidade do café da manhã, manauara fez nascer um forte segmento econômico na beira das nossas estradas

O café da manhã é indicado por nutricionistas e gastrônomos como a principal refeição do dia. Ele encerra o jejum noturno, contribui para a regulação do metabolismo e fornece energia para as atividades das primeiras horas. No Amazonas, além de seu valor nutricional, essa refeição possui um forte componente cultural, relacionado ao território, à produção local e aos modos de vida tradicionais. Entretanto, mudanças foram observadas nos últimos anos.

Historicamente, o café da manhã amazonense tem como base a mandioca e seus derivados. Beiju, tapioca, macaxeira cozida e mingaus feitos com carimã ou banana compõem uma mesa que reflete saberes herdados dos povos originários e adaptados ao cotidiano ribeirinho e urbano.

A intensa migração nordestina registrada durante o ciclo da borracha trouxe elementos do café da manhã do Nordeste, como o cuscuz e suas variações, queijo coalho e queijo manteiga (in natura, ou queimado no fogo ou na chapa) e, nas mesas mais fartas, carne de sol desfiada ou em forma de paçoca, além de curau, pamonha e milho cozido.

Em famílias mais ligadas à herança nordestina, destaca-se também a manteiga de garrafa, conhecida na gastronomia como manteiga clarificada, sem sólidos e resistente ao calor da frigideira.

Essa mistura de culturas resultou em pratos típicos, como o x-caboquinho, preferência de grande parte dos amazonenses no café da manhã. Ele reúne pão francês, manteiga, queijo coalho chapeado (ingredientes de origem nordestina) e lascas de tucumã, fruta típica da região.

O café preto, muitas vezes com leite de gado, é quase sempre presente e funciona como elo entre diferentes camadas sociais e regiões do estado. Nos municípios do interior e em comunidades ribeirinhas, não é incomum reforçar a refeição com peixe frito, banana pacovã frita ou outros alimentos que garantem sustento para longas jornadas de trabalho.

Nas cidades, o suco também ganhou preferência, seja oriundos de frutas regionais cultivadas e comercializadas na forma de polpas congeladas, seja na forma industrial compradas em supermercados.

X-Caboquinho (Foto: Reprodução)

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Mudanças sociais e culturais em curso

Esse padrão alimentar, entretanto, passou por transformações significativas nas últimas décadas. Processos como urbanização acelerada, expansão das redes de supermercados, maior presença da indústria alimentícia e influência da publicidade colaboraram para a introdução de produtos industrializados e de hábitos vindos de outras regiões do país. Novas ondas migratórias, impulsionadas pelo Polo Industrial de Manaus, também estimularam mudanças nas preferências alimentares amazonenses.

Pão de forma, queijo muçarela, presunto, apresuntados, cereais matinais, achocolatados e margarinas passaram a dividir espaço com os alimentos tradicionais, sobretudo nas áreas urbanas.

O resultado disso é um café da manhã híbrido, no qual convivem elementos da cultura alimentar amazônica e produtos associados a um padrão nacional de consumo. Para especialistas, essa mudança reflete não apenas escolhas individuais, mas também alterações no ritmo de vida, no tempo disponível para o preparo das refeições e no acesso aos alimentos.

Enquanto os produtos industrializados oferecem praticidade, os alimentos locais mantêm vínculos com a identidade cultural e com a produção regional. Não por acaso há uma forte expansão dos negócios de café da manhã nas estradas que saem de Manaus e onde o manauara urbano pode se reconectar com as origens e com o café mais raiz da terra dele.

Assim, podemos dizer que no Amazonas essa primeira refeição segue como um espaço simbólico de disputa entre tradição e modernidade, local e o nacional, sempre reconhecido como fundamental para a saúde, mas atento às transformações sociais, econômicas e culturais que atravessam o Estado.