O debate mostrou que, quem bate, lembra, e quem apanha também não esquece

Com um único bloco permitindo confronto direto entre os candidatos, cada pergunta passou a valer mais do que uma simples resposta. Era a oportunidade de escolher o adversário, apertar uma ferida e, principalmente, tentar obrigá-lo a jogar no terreno que interessava a quem perguntava. Foi justamente aí que apareceram os momentos mais interessantes da noite.
O debate deixou uma coisa muito mais importante para quem acompanha a eleição: mostrou onde cada candidato pretende atacar e, principalmente, onde pode ser atacado de volta.
David x Maria
O confronto mais quente foi entre David Almeida (Avante) e Maria do Carmo Seffair (PL). David decidiu questionar a experiência administrativa da candidata do PL e levou para o centro da discussão a atuação empresarial da família da professora, especialmente na Fametro.
Se Maria pretendia transformar sua trajetória empresarial em credencial para governar o Amazonas, David queria saber se essa experiência resistiria quando colocada sob a lupa da política. Ele questionou a demora na entrega do Tropical Hotel e da Santa Casa de Misericórdia, que agora pertencem à Fametro, e colocou em debate a avaliação do curso de Medicina da instituição.
Maria do Carmo não contou conversa. Disse que, como usa recursos financeiros próprios e a única ajuda que obteve do poder público foi o aumento de mais de 1.000% do IPTU, realmente não conseguiu cumprir o cronograma. E, para não deixar barato, devolveu a provocação com a seguinte pergunta a David Almeida: “Qual foi a faculdade escolhida pela tua filha para fazer o curso de Medicina?”.
A referência era a Fernanda Aryel, filha do ex-prefeito de Manaus e candidata a deputada federal, que estudou na instituição. David confirmou: “Minha filha formou na sua faculdade.” Mas não deixou a provocação sem resposta e voltou a questionar a qualidade do curso da instituição.
Esse embate direto foi um daqueles momentos em que a política abandona o discurso ensaiado e entra no terreno do improviso, que nem sempre pode dar certo. Nesse caso, David tentou transformar a Fametro em uma vulnerabilidade de Maria do Carmo, e ela conseguiu mostrar que a instituição também faz parte da trajetória da filha de seu adversário.
O confronto também revelou duas estratégias eleitorais bastante diferentes. O candidato do Avante precisa convencer o eleitor de que a experiência de administrar Manaus o credencia para administrar o Amazonas. Já a candidata do PL precisa convencer que sua experiência na administração privada, fora da política tradicional, é justamente sua grande vantagem. David carrega a experiência de prefeito. Maria carrega a imagem de empresária e estreante em disputas majoritárias.
Maria x Isael: a pergunta que virou armadilha
Outro momento importante aconteceu quando Maria do Carmo escolheu Isael Munduruku (Rede) para responder sobre políticas destinadas aos povos indígenas. Aparentemente, tratava-se de uma pergunta que poderia oferecer espaço para Isael falar sobre uma das principais bandeiras de sua candidatura. Mas o resultado foi outro. Ele aproveitou a oportunidade para confrontar a candidata do PL, colocando-a dentro da política de demarcação de terras indígenas adotada no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. “A candidatura como a sua representa aquilo que é de pior para os povos indígenas”, atacou.
Ali, Isael conseguiu fazer algo que talvez fosse ainda mais importante do que ganhar uma discussão: deixar claro que não pretende ser apenas mais um nome no debate. Desde a apresentação, ele havia avisado: “Nossa candidatura não veio aqui para fazer um papel folclórico.” E, naquele momento, tentou provar isso na prática.
Politicamente, o movimento de Isael é fácil de entender. Ele não tem a mesma estrutura eleitoral de David Almeida, Omar Aziz ou Maria do Carmo, tampouco disputa exatamente o mesmo espaço político. Por isso, precisa encontrar um território próprio, e esse território parece estar sendo construído em torno da defesa dos povos indígenas, da pauta ambiental e do confronto com o campo político de direita. Munduruku mostrou que não está limitado a defender apenas a pauta dos indígenas, mas conhece também as necessidades do interior.
A questão agora é saber se essa estratégia conseguirá sair do debate e chegar às urnas. Porque uma frase forte pode render manchetes e cortes para as redes sociais, mas eleição se ganha quando o eleitor que assistiu ao embate decide que aquela frase representa alguma coisa para ele.
O saldo do debate
Em resumo, o que se viu no debate foi um David Almeida querendo colocar a experiência administrativa dos adversários sob suspeita, Maria do Carmo tentando transformar sua trajetória empresarial em alternativa ao modelo político tradicional e Isael Munduruku buscando ocupar um espaço ideológico próprio e mostrar que sua candidatura não será de figurante.
E Omar Aziz? Apesar de, antes do debate, ter dito que esperava dos adversários que o confrontassem sobre a Cidade Universitária ou a Operação Maus Caminhos, sua participação foi tranquila, com liberdade para resgatar seus feitos como ex-governador enquanto os demais candidatos se atacavam.





