“Red Pill”: o que é e como atua o movimento da “machosfera” nas redes sociais

(Foto: Montagem/Rede Onda Digital)
O movimento conhecido como Red Pill saiu de fóruns anônimos da internet para ocupar espaço central nas redes sociais. A trajetória mistura cultura pop, monetização de conteúdo, discursos de enfrentamento entre gêneros, investigações criminais e uma recente onda de “cancelamentos” de influenciadores ligados ao grupo.
A expressão “red pill” nasceu do filme Matrix (1999). No enredo, a escolha pela pílula vermelha simboliza o abandono de uma realidade ilusória em troca do acesso à “verdade”. A metáfora foi apropriada por comunidades on-line que passaram a defender a ideia de “despertar masculino”. Nesse contexto, homens seriam capazes de enxergar uma estrutura social considerada desfavorável a eles.


O conceito ganhou forma na chamada “machosfera”, um conjunto de comunidades digitais que inclui incels, MGTOW (homens seguindo o próprio caminho) e fóruns de masculinidade.
- Machosfera: termo que engloba fóruns na internet, canais de YouTube, grupos de WhatsApp e perfis em redes sociais voltados para defesa da masculinidade tóxica, o ódio às mulheres e a oposição aos direitos femininos.
- MGTOW (Men Going Their Own Way): homens que pregam o afastamento total de relacionamentos com mulheres, alegando que as leis e a sociedade moderna são injustas com o sexo masculino.
- Incels: contração das em inglês involuntary celibates (celibatários involuntários). São homens que alegam, de forma ressentida e violenta, não conseguir parceiras sexuais ou românticas por culpa das mulheres ou de padrões sociais. A comunidade foi abordada na série da Netflix, intitulada Adolescência, onde o personagem Jamie Miller, de 13 anos, mata uma colega de classe.

Foto: Netflix/Divulgação
Esses espaços surgiram em sites anônimos, principalmente na década de 2010. A partir daí, migraram para plataformas abertas com Youtube, impulsionados por algoritmos que privilegiam conteúdos polêmicos, diretos, virais.
A expansão acelerou com o uso de formatos curtos. Cortes de podcasts, vídeos com linguagem agressiva, frases de impacto. O conteúdo passou a circular fora dos nichos originais. Hoje, hashtags ligadas ao movimento acumulam dezenas de bilhões de visualizações. Um dos modelos de crescimento que impulsionou o movimento foi o formato de react, personalidades da internet começaram a reagir a conteúdos redpill, isso gerou maior repercussão e fez com que os vídeos “furassem a bolha” a partir de 2022.

No centro da narrativa está a ideia de que relações sociais funcionam como uma disputa. Parte dos influenciadores defende que mulheres manipulam relações afetivas, que leis favorecem o sexo feminino, que o homem precisa retomar posição de comando. Entre os conteúdos mais comuns estão orientações sobre comportamento em encontros, rejeição à divisão igualitária de tarefas, incentivo à postura dominante, desconfiança constante em relação a parceiras.
Frases amplamente divulgadas nesse meio incluem recomendações para evitar demonstrações de vulnerabilidade, manter controle emocional rígido, tratar relações como jogos de poder. Há também a classificação de homens em categorias como “alfa”, “beta” e “sigma”, com base em traços de liderança, submissão ou isolamento estratégico.
- Alfa: é o topo da hierarquia social masculina na visão da “machosfera”. É a idealização do homem dominante, líder, fisicamente forte, financeiramente bem-sucedido e sexualmente atraente. Diferente do Chad (nome usado pelo movimento para definir quem nasce com “genética privilegiada”), o Alfa é visto como status que pode ser alcançado por esforço e mudança de mentalidade.
- Beta: é o homem comum, visto como submisso, cooperativo e sem dominância social. São frequentemente ridicularizados por serem, na visão da machosfera, usados pelas mulheres apenas por estabilidade financeira. Constantimente relacionados aos chamados Blue-Pills (o oposto ao movimento Red)
- Sigma: popularizado em redes como o TikTok, é o homem visto como um “alfa solitário”, que não precisa de validação social e foca apenas no próprio sucesso. O termo é frequentemente usado para mascarar isolamento e desprezo pelas mulheres.
O movimento também consolidou um modelo de negócio. Influenciadores vendem cursos, mentorias, livros, grupos fechados. Promessas de “dominar relacionamentos”, “entender a mente feminina”, “recuperar poder”. Alguns conteúdos chegam a centenas de milhões de visualizações.

No cenário internacional, um dos principais nomes ligados à difusão dessas ideias é Andrew Tate. O influenciador acumulou bilhões de visualizações com vídeos que defendem a submissão feminina. Ele foi banido de diversas plataformas por violação de políticas de conteúdo. Posteriormente, foi preso na Romênia sob acusações de exploração sexual e tráfico humano.
Estupro coletivo no Rio de Janeiro
No dia 9 de março deste anos, Vitor Hugo de Oliveira Simonin, de 18 anos, se apresentou no 12ª Delegacia Policial (Copacabana) para prestar depoimento sobre sua participação no estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, na Zona Sul da capital. Ele chamou a atenção por usar uma camiseta com a frase “Regret Nothing” (“Não se arrependa de nada”) durante a sessão.
A frase é comumente utilizada por grupos misógenos, que propagam discursos de ódio contra mulheres na internet. Os chamados “Red Pills” são os mais conhecidos desse ambiente virtual, um dos propagadores deste slogan é justamente o influenciador americano Andrew Tate.


A comunidade Red Pill tem outra referência da cultura pop muito forte e constatemente discutida nas redes sociais que é o personagem Patrick Bateman, de Psicopata Americano (2000), é uma sátira do narcisismo e consumismo de empresários bem sucedidos de Nova York, mas foi ironicamente adotado por comunidades “red pill” e machistas como um ícone de “homem de alto valor”. Ele simboliza a masculinidade performática, obsessão por aparência e status, onde a falta de empatia e o comportamento agressivo são tolerados pelo sistema.
O movimento transformou Bateman de um vilão satírico em um modelo de sucesso, foco e desprezo por emoções, muitas vezes ignorando a crítica social do filme/livro. Bateman aparece como retrato da superficialidade, onde a imagem de sucesso em Wall Street esconde um vazio existencial e no caso do personagem beirando a psicopatia.

No Brasil, a visibilidade do movimento aumentou com casos envolvendo criadores de conteúdo que se apresentam como especialistas em masculinidade. Um dos episódios mais repercutidos envolve Thiago Schutz, conhecido como “coach do Campari”. Ele viralizou após enviar mensagens com ameaça a uma humorista Lívia La Gatto que satirizou seu conteúdo. A frase “processo ou bala” gerou forte repercussão pública, levou ao registro de boletim de ocorrência.

Pouco tempo depois, Schutz voltou ao noticiário após ser detido sob acusação de agressão e tentativa de estupro contra a namorada, em São Paulo. O laudo do Instituto Médico Legal apontou múltiplas lesões. Ele nega as acusações, afirma ter ocorrido uma “briga corporal mútua”. A Justiça determinou medidas restritivas. O caso segue em investigação.

Influenciadores ligados ao movimento passaram a enfrentar maior pressão pública. Marcas se posicionaram. Plataformas intensificaram monitoramento de conteúdo. Parte desses criadores perdeu alcance, parcerias comerciais, monetização e até as páginas onde publicavam os conteúdos. Nos últimos dias, perfis no Instagram lideraram movimentos para observar homens que seguem e consomem esse tipo de conteúdo na internet. Segundo as postagens, a comunidade Red Pill tem grandes criadores de conteúdo com mais de 1 milhão de seguidores.
Esse movimento tem sido interpretado como uma onda de “cancelamento”, impulsionada por denúncias, reportagens, mobilização nas redes.
Dados indicam que conteúdos associados ao movimento atingem audiências massivas. Vídeos com hashtags relacionadas ultrapassam bilhões de visualizações.





