Peixes amazônicos têm semelhanças que induzem consumidor a comprar “gato por lebre”

(Arte: Rede Onda Digital)
O consumidor descuidado sempre pode levar o famoso “gato por lebre” e no caso de peixes da Amazônia o desatento pagará a diferença no preço e também no sabor à mesa. Peixes como tambaqui e pirapitinga, matrinxã e curimatã e bodó e tamoatá são bem diferentes na mesa, mas com algumas semelhanças nas bancas das feiras.
O tambaqui e a pirapitinga, por exemplo, são dois dos peixes mais emblemáticos da Amazônia, muito parecidos entre si, mas com diferenças importantes.
O tambaqui (Colossoma macropomum) é uma das estrelas da culinária amazônica, sendo um dos peixes mais conhecidos e consumidos da Região Norte. Pode ultrapassar um metro de comprimento e chegar a mais de 30 quilos. Vive principalmente em rios de água branca e lagos de várzea. Alimenta-se de frutos, sementes e plantas aquáticas, tendo papel fundamental na dispersão de sementes da floresta alagada.
A carne é considerada uma das mais saborosas da Amazônia, com gordura característica, especialmente na região da barriga. Costuma ser consumido assado, frito, em bandas ou na famosa costela de tambaqui. É o principal peixe da piscicultura amazônica, com produção em larga escala.

A pirapitinga (Piaractus brachypomus), também conhecida como “puta”, é um pouco menor, podendo chegar a cerca de 90 cm e pesar até 25 quilos. Ocorre naturalmente na Bacia Amazônica e também na Bacia do Orinoco. Prefere águas mais calmas e ambientes de floresta alagada.
A alimentação é semelhante à do tambaqui, baseada em frutos e sementes. A carne é mais clara e ligeiramente menos gordurosa, mas igualmente valorizada. Na culinária, aparece assada, cozida ou frita. Na piscicultura, é bastante usada em cruzamentos, dando origem a híbridos como o tambacu.

Diferenças principais
O tambaqui tem corpo mais alto e arredondado, além de mandíbula inferior mais pronunciada. A pirapitinga tem corpo um pouco mais alongado e cabeça proporcionalmente menor. No mercado, o tambaqui costuma ser mais popular e reconhecido, enquanto a pirapitinga aparece com menor frequência, apesar da qualidade semelhante.
A diferença também está no preço de ambos. Um quilo de tambaqui de rio é encontrado nas feiras de Manaus variando entre R$ 25 e R$ 30, enquanto o quilo da pirapitinga alcança, no máximo, a metade disso. A diferença de preço e a semelhança entre as duas espécies podem induzir o consumidor a comprar a pirapitinga pensando que é um tambaqui.
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Nome induz ao erro do consumidor
Outra confusão bastante comum nas bancas das feiras e com reflexo na mesa e no bolso do consumidor ocorre com a matrinxã, também conhecida como jatuarana. Ela confundida com a curimatã. Ambos são de espécies diferentes, mas são também bastante parecidos.
O matrinxã (Brycon amazonicus), ao lado do tambaqui, pirarucu e (em Manaus) o jaraqui, está entre os mais consumidos e procurados pelos consumidores do Amazonas. Embora esteja em período de defeso nos rios, a alta produção de matrinxã em viveiros garante o abastecimento o ano todo.

O peixe tem porte de médio a grande, podendo passar de 80 cm e chegar a mais de dois quilos. Alimenta-se de frutos, sementes, insetos e pequenos peixes, o que faz dele um importante dispersor de sementes na floresta alagada. A carne é considerada nobre, saborosa e mais gordurosa, muito usada assada, frita ou na caldeirada. Uma unidade de grande porte nas bancas pode chegar a mais de R$ 50 em Manaus.
A curimatã (Prochilodus nigricans), por sua vez, é um peixe migrador, de médio porte, que pode chegar a 60 cm. Alimenta-se principalmente de detritos orgânicos e algas do fundo dos rios, desempenhando papel essencial na limpeza e no equilíbrio ambiental.
A carne é mais firme e magra, bastante apreciada frita ou seca ao sol. Apesar de ter muitas espinhas, é presença constante nas feiras e mercados populares, com preço mais acessível. E Manaus, o preço da curimatã é aproximadamente a metade do preço da matrinxã.

Dois cascudos, mas sabores diferentes
A última confusão que faz o consumidor desatento é entre o bodó e o tamoatá, ambos peixes muito populares entre as populações ribeirinhas, mas que na cidade causam uma certa confusão na hora de se efetuar a compra. Ambos são associados à subsistência, à pesca artesanal e à culinária popular, especialmente durante períodos de escassez de espécies maiores.
O bodó (Pterygoplichthys spp. / Hypostomus spp.), conhecido também como acari ou cascudo, é facilmente identificado pelo corpo coberto por placas ósseas duras, o que funciona como uma armadura natural. Vive no fundo dos rios, igarapés e lagos, preferindo águas calmas e barrentas.
Alimenta-se principalmente de algas, matéria orgânica e detritos, ajudando na limpeza do ambiente aquático. Uma característica marcante é a capacidade de respirar ar atmosférico, o que permite sobreviver em águas pobres em oxigênio.
Na culinária amazônica, o bodó é muito consumido cozido ou assado, geralmente acompanhado de pirão. A carne é branca e firme, mas o preparo exige cuidado por causa da carapaça rígida. Dele também sai o famoso piracuí, uma preparação bastante usada pelos caboclos para farofas e bolinhos.

Também chamado de tamoatá-de-couro ou caborja em algumas regiões, o tamoatá (Hoplosternum littorale) tem corpo alongado, placas ósseas e coloração escura. Assim como o bodó, é um peixe de fundo e tolera ambientes com pouco oxigênio.
É conhecido pela resistência: consegue sobreviver fora da água por algum tempo e até se deslocar curtas distâncias em solo úmido. Alimenta-se de insetos, larvas, restos orgânicos e pequenos invertebrados. Na mesa, o tamoatá é bastante valorizado em caldeiradas e cozidos. A carne é saborosa, porém, cheia de espinhas, o que faz do consumo uma tradição passada de geração em geração.
Em termos de preço, tanto o bodó quanto o tamoatá estão entre os mais baratos nas feiras, com uma pequena diferença no tamanho das espécies, pois, o tamoatá é bem menor que o bodó.







