Setembro Amarelo esbarra em isolamento no Amazonas, diz especialista

Levar as ações de prevenção ao suicídio para todo o Amazonas é um desafio que vai além da divulgação da campanha Setembro Amarelo. No estado, a distância entre os municípios, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde mental e as diferenças culturais dificultam que informações e atendimento especializado cheguem às populações que vivem em áreas remotas.
Para o psicólogo Danilo Areosa, entrevistado pela Rede Onda Digital, o isolamento logístico está entre os principais obstáculos. Segundo ele, muitos municípios dependem de transporte fluvial ou aéreo, enquanto a oferta de profissionais especializados e de serviços de referência em saúde mental é concentrada nos centros urbanos.
“Se na capital já temos carência de especialistas em psiquiatria e de centros de referência, no interior essa situação fica ainda mais evidente, obrigando muitos pacientes a viajar para Manaus ou para outros estados”, afirmou.
Distância
A dificuldade não está apenas em fazer a campanha chegar às comunidades. Segundo Areosa, a própria estrutura de atendimento enfrenta limitações em áreas ribeirinhas e remotas.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS e são responsáveis pelo acompanhamento de pessoas em sofrimento ou com transtornos mentais. A rede também envolve unidades básicas de saúde, serviços de urgência e emergência e atendimento hospitalar.
No Amazonas, entretanto, as distâncias e as condições de deslocamento podem dificultar o acesso regular a esses serviços. Para o psicólogo, a ausência ou insuficiência de atendimento próximo da comunidade também prejudica a identificação dos casos e o acompanhamento contínuo.
“Isso gera subnotificação, enquanto a baixa qualidade dos prontuários e atestados em áreas de difícil acesso dificulta o mapeamento do risco real de suicídio”, explicou.
Informação
Outro obstáculo apontado pelo especialista é a dificuldade de adaptar a comunicação da campanha à realidade das comunidades tradicionais. Para Areosa, mensagens divulgadas principalmente nos grandes centros urbanos podem não alcançar de maneira adequada populações ribeirinhas e indígenas. Barreiras linguísticas, diferenças culturais e tabus relacionados ao sofrimento psíquico podem dificultar a procura por ajuda.
A questão indígena exige atenção específica. Pesquisas da Fiocruz apontam taxas elevadas de mortalidade por suicídio entre indígenas no Brasil, especialmente em estados como Amazonas, Mato Grosso do Sul e Roraima. Estudos também identificaram concentrações de casos em áreas do Alto Rio Negro e do Alto Solimões, no Amazonas.
Segundo Areosa, fatores culturais e sociais precisam ser considerados nas estratégias de prevenção, especialmente em comunidades onde o acesso a profissionais e serviços especializados é limitado.
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Jovens exigem atenção
O psicólogo também chama atenção para a população jovem. Segundo ele, o sofrimento psíquico nessa faixa etária pode ser agravado por dificuldades sociais, falta de oportunidades e isolamento, enquanto o estigma ainda impede muitas pessoas de procurar ajuda.
Segundo a Fiocruz, estudos recentes identificaram crescimento das taxas de suicídio entre jovens no Brasil. Uma análise de dados realizada por pesquisadores da Fiocruz Bahia e de Harvard apontou aumento anual de 6% na taxa de suicídio entre jovens no período de 2011 a 2022.
Areosa defende que o diálogo sobre saúde mental seja ampliado em escolas e universidades, onde é possível alcançar jovens de diferentes origens e realidades.
“Essas oportunidades favorecem a possibilidade de falar sobre a importância de uma escuta especializada para lidar com o sofrimento psíquico”, afirmou.
Escuta
O Ministério da Saúde orienta que mudanças de comportamento, manifestações de desesperança e agravamento de problemas emocionais sejam observados, especialmente quando vários sinais aparecem simultaneamente. A recomendação é conversar com a pessoa, ouvi-la sem julgamento e incentivá-la a procurar atendimento profissional.
A prevenção, porém, não deve ficar restrita ao mês de setembro. Para o psicólogo, a campanha pode ajudar a abrir espaço para o diálogo, mas precisa estar associada a uma rede permanente de atendimento capaz de acolher quem procura ajuda.
Onde buscar ajuda
Quem estiver passando por sofrimento emocional pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Esses serviços fazem parte da rede pública de atenção à saúde mental.
Em situações de crise ou emergência, a orientação é procurar uma UPA, pronto-socorro ou hospital. O SAMU pode ser acionado pelo número 192, inclusive em situações de tentativa de suicídio e outras emergências psiquiátricas. O serviço é gratuito e funciona 24 horas.
Também é possível conversar gratuitamente com o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188, disponível 24 horas em todo o país, com atendimento voluntário, sigiloso e anônimo. O CVV também oferece atendimento por chat e e-mail.
Em caso de risco imediato, a pessoa não deve ficar sozinha. É importante buscar atendimento de emergência ou acionar o SAMU.





