Por que tantos brasileiros continuam trabalhando mesmo depois de se aposentar?

O Brasil caminha para se tornar, até 2042, pela primeira vez na história, um país de idosos. Com uma população cada vez mais envelhecida, cresce também o número de brasileiros que permanecem no mercado de trabalho mesmo depois da aposentadoria, seja para complementar a renda, manter a rotina ou continuar ativos.
Durante décadas, a aposentadoria foi vista como a recompensa por uma vida inteira de trabalho e a garantia de uma velhice com mais tranquilidade. Hoje, porém, sucessivas mudanças nas regras da Previdência e a redução do poder de compra dos benefícios fizeram com que, para muitos brasileiros, ela passasse a representar apenas uma fonte complementar de renda.
Benefício costuma ser menor que o salário da ativa
Para o consultor previdenciário Vitor Daniel Orsini Victória, vários fatores influenciam esse fenômeno, mas o principal é que o valor da aposentadoria costuma ser menor que o salário recebido pelo trabalhador enquanto estava na ativa, com exceção de quem ganha salário mínimo.
“Em geral, a aposentadoria acaba sendo uma redução de renda, pois a pessoa dificilmente continua ganhando o mesmo valor da ativa, exceto quem recebe salário mínimo. Então, continuam trabalhando porque, além da aposentadoria, querem ter outra renda”, explica Victória, que atuou no setor de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por mais de 40 anos e segue trabalhando, agora na iniciativa privada.
“Agora tem gente que gosta mesmo de trabalhar, se aposentou, gosta, não quer ficar parado em casa. Se aposentou, mas ainda está com saúde e disposição, quer continuar trabalhando e, com a aposentadoria, fica com duas rendas”, pondera.
Atualmente, a aposentadoria mínima paga pelo INSS é equivalente a um salário mínimo, de R$ 1.621,00, enquanto o valor máximo é de R$ 8.475,55, correspondente a 5,2 salários mínimos.

Experiências de quem trabalha após os 60 anos
Os relatos de aposentados mostram que essa realidade vai além dos números. Enquanto alguns seguem trabalhando para complementar a renda, outros encontram no trabalho uma forma de preservar a rotina, o convívio social e o sentimento de utilidade.
Para a jornalista Joana Queiroz, que se aposentou há dez anos, seguir trabalhando é uma forma de estar ativa e aproveitar a boa saúde e a experiência acumulada em 40 anos de atuação na imprensa amazonense.
“Eu fiz uma preparação antes de me aposentar, fiz uma boa poupança, investi na XP, já tinha minha casa própria e segui trabalhando e sobrava renda. Já estava sem meus dois filhos (que casaram) e ia investindo tudo”, conta.
Para ela, o valor do benefício da aposentadoria é suficiente para bancar os principais gastos, inclusive as viagens anuais. Continuar trabalhando para Joana é bom porque aumenta a renda e dá a sensação de que está sendo útil.
“Outra coisa: para mim que moro só, trabalhar é a oportunidade de estar em contato com outras pessoas, conversando, trocando ideias, não me sentindo só. Chego em casa com o sentimento de dever cumprido. Mas eu tive uma preparação para isso”, destacou.
Além de seguir no jornalismo, Joana revelou que agora desenvolveu uma atividade extra de “personal kitchen” e de cuidar das plantas.
“Eu vou na casa das pessoas que eu conheço, meus amigos, vou na cozinha, arrumo as cozinhas, não cobro nada, tiro os excessos, ponho as coisas para cá, boto para lá e vou me sentindo ocupada e útil”, brinca, acrescentando que já está nos planos escrever um livro sobre a extinta cadeia pública Raimundo Vidal Pessoa, no Centro de Manaus.
Já o autônomo Vanilson Beba, de 61 anos, que trabalha no mercado informal fazendo fretes, conta que tem a perspectiva de se aposentar por idade aos 65 anos, mas sabe que não poderá parar de trabalhar. Em mais de 40 anos no mercado, ele atuou no comércio de importados da Zona Franca de Manaus entre as décadas de 1980 e 1990, foi taxista, microempresário no ramo de eventos, dono de bar e atualmente faz fretes nas zonas Oeste e Centro-Oeste de Manaus.
“Neste trabalho eu consigo uma renda boa, maior que o salário mínimo. Então, quando eu me aposentar, o valor do benefício não será suficiente para eu parar”, afirma.

A aposentada Ana Valda Calderaro Andrade, de 60 anos, vive a realidade de quem alcançou a aposentadoria, mas precisou permanecer no mercado de trabalho para manter o padrão de vida construído ao longo da carreira. Após trabalhar por cerca de 40 anos na mesma empresa, ela afirma que o benefício previdenciário, sozinho, não é suficiente para cobrir todas as despesas.

“Eu sempre pensei em continuar trabalhando mesmo após me aposentar, porque construí um padrão de vida bom, na medida do possível, para que eu e minha família vivêssemos bem. Viver só com o salário da aposentadoria não cobre os meus gastos por completo. Tem contas para pagar, remédios e exames para cuidar da saúde, conta de luz e outras despesas essenciais. Por isso penso que é necessário trabalhar mesmo depois da aposentadoria”, relata.
Para ela, no entanto, a continuidade no trabalho vai além da necessidade financeira. Depois de quatro décadas mantendo uma rotina diária, ela acredita que deixar o mercado de trabalho também representa um desafio emocional.
“Vai afetar muito no financeiro, mas o meu lado pessoal também será afetado, porque eu tenho uma rotina. Há 40 anos saio de casa para trabalhar, compartilhar o dia com meus colegas, resolver as situações do dia a dia e ter contato com o público. Quando isso acabar, vou sentir muita falta. A gente precisa pensar nesse momento, porque uma hora chega o tempo de parar. Como tudo na vida tem um fim, é preciso se preparar para encerrar esse ciclo, mas é difícil imaginar esse momento”, reflete.
As histórias de Joana, Vanilson e Ana Valda ilustram uma realidade cada vez mais comum entre os brasileiros: a aposentadoria deixou de representar, necessariamente, o fim da vida profissional. Para muitos, o benefício previdenciário passou a ser apenas uma das fontes de renda, enquanto o trabalho permanece presente por necessidade financeira, rotina ou realização pessoal.
Os números de benefícios pagos pelo INSS
Conforme dados do INSS, o Regime Geral de Previdência Social paga benefício de aposentadoria a 24,3 milhões de brasileiros, sendo essa a principal modalidade entre os 40 milhões de benefícios pagos pela Previdência Social.
Os números do Amazonas, segundo Vitor Daniel Orsini Victória, não estão estratificados, mas o número de aposentados no estado segue a média nacional, de aproximadamente 10% da população.
Sobre o total de benefícios, Victória afirma que os dados oficiais mostram que, neste ano, foram pagos mais de 300 mil benefícios entre aposentadorias, auxílios e pensões. Na média, esses benefícios foram de R$ 1,7 mil, valor pouco acima do salário mínimo nacional, de R$ 1.621,00.





