“Não basta ser patrimônio, é preciso cuidar”, diz historiador sobre Teatro Amazonas

O reconhecimento do Teatro Amazonas, em Manaus, e do Theatro da Paz, em Belém, como Patrimônio Mundial Cultural da Unesco representa um marco histórico para a região Norte. Pela primeira vez, um bem cultural amazônico integra a Lista do Patrimônio Mundial da entidade, sob a denominação conjunta “Teatros da Amazônia”. Para o historiador Otoni Mesquita, a conquista precisa ser acompanhada de um compromisso efetivo com a preservação dos monumentos.
O anúncio foi feito na segunda-feira (27), durante reunião do Comitê do Patrimônio Mundial, em Busan, na Coreia do Sul. A candidatura brasileira foi aprovada após avaliações técnicas internacionais e análise dos 21 países que integram o comitê da Unesco.
Com a decisão, o Brasil passa a contar com 26 bens reconhecidos como Patrimônio Mundial, sendo 16 culturais, nove naturais e um misto. Os Teatros da Amazônia tornam-se o primeiro patrimônio cultural da Região Norte a receber o reconhecimento.
Riqueza e contradições da Amazônia
Em entrevista à Rede Onda Digital, Otoni Mesquita afirmou que o título reconhece o valor arquitetônico e histórico dos dois teatros, mas também convida a uma reflexão sobre o contexto em que foram construídos.

Segundo o historiador, tanto o Teatro Amazonas quanto o Theatro da Paz simbolizam o auge do ciclo da borracha e da chamada Belle Époque amazônica, período lembrado pelo esplendor econômico, mas também marcado pela intensa exploração da mão de obra dos seringueiros.
“O teatro é o ícone de Manaus, um símbolo daquele momento histórico do final do século XIX. Mas é preciso lembrar que toda essa riqueza foi construída sobre a exploração dos trabalhadores dos seringais”, afirmou.
Para Mesquita, existe uma tendência de romantizar esse período da história amazônica, exaltando as grandes obras e o desenvolvimento urbano, enquanto as desigualdades sociais e as condições de trabalho que sustentaram essa prosperidade ficam em segundo plano.
Mesquita ressalta que os teatros representam uma época importante para a cultura brasileira, mas não podem ser compreendidos apenas como monumentos da riqueza produzida pelo ciclo da borracha.
“Foi um breve período de riqueza que permaneceu como um encantamento na memória das elites. Hoje, esse passado precisa ser visto também de forma crítica”, declarou.
Durante a entrevista, o historiador também chamou atenção para um detalhe pouco conhecido sobre a história do Teatro Amazonas.
Segundo ele, embora a inauguração oficial tenha ocorrido em 1896, o prédio ainda estava incompleto naquele momento. A conclusão das obras ocorreu apenas em 1901, quando foram finalizados espaços como o Salão Nobre e parte da área externa, junto com intervenções na Praça São Sebastião.
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Reconhecimento precisa resultar em conservação
Apesar de considerar a chancela da Unesco extremamente importante para a valorização internacional da Amazônia, Otoni Mesquita afirma que o principal desafio começa agora, garantir recursos permanentes para a conservação do patrimônio.
Segundo ele, o Teatro Amazonas apresenta desgastes acumulados por décadas de uso intenso, recebendo diariamente turistas, ensaios, espetáculos e eventos, sem períodos adequados para manutenção.
“O teatro precisa respirar. É uma obra histórica que exige cuidados constantes”, afirmou.
O especialista afirma que diversos projetos de restauração permanecem paralisados, entre eles a recuperação do tradicional pano de boca do teatro e de diversos elementos decorativos internos e externos.
Na avaliação dele, adiar essas intervenções torna futuras restaurações mais complexas e mais caras.
“Não basta ser patrimônio, é preciso cuidar”
Para Otoni Mesquita, o reconhecimento internacional não pode se transformar apenas em um símbolo político ou turístico.
Segundo ele, a homenagem da Unesco deve servir como incentivo para que governos e sociedade assumam o compromisso de preservar efetivamente um dos maiores símbolos da cultura amazônica.
“Esperamos que essa premiação seja revertida em preservação. Não basta ser um patrimônio instagramável. Essas construções precisam de cuidados diários, manutenção permanente e consciência de que preservar custa menos do que restaurar”, declarou.
Para o historiador, a nova condição dos Teatros da Amazônia como Patrimônio Mundial representa uma oportunidade para fortalecer políticas de conservação e garantir que esse legado histórico permaneça preservado para as próximas gerações.





