Depois da borracha e da Zona Franca, qual será o próximo ciclo do Amazonas?

A ideia de um terceiro ciclo de desenvolvimento econômico voltou a ser debatida no Amazonas durante a campanha eleitoral de 2026. Em entrevista ao Onda News, nesta segunda-feira (24/8), o candidato a deputado estadual Marcelo Palhano (AGIR) apresentou uma proposta de diversificação da economia amazonense e afirmou que um novo ciclo precisaria ir além do setor primário.
A declaração reacende também a discussão sobre a experiência implantada pelo ex-governador Amazonino Mendes nos anos 1990. Questionado pelo Onda News sobre o que faria de diferente em relação àquele período, Palhano classificou o modelo anterior como “monofocal”, por considerar que houve concentração no setor primário.
A avaliação, porém, contrasta com ações associadas ao programa daquela época, que incluíram investimentos em produção agrícola, infraestrutura, financiamento e mecanismos de escoamento da produção.
O que foi o terceiro ciclo de Amazonino
O chamado Terceiro Ciclo foi apresentado durante o governo de Amazonino Mendes como estratégia para ampliar a produção do interior e reduzir a dependência econômica da Zona Franca de Manaus.
Entre as ações associadas ao programa esteve a implantação do terminal graneleiro de Itacoatiara, utilizado para armazenamento e exportação de grãos, especialmente soja, com impacto sobre a atividade econômica do município e da região do Madeira.
O programa também levou equipamentos e estruturas de apoio à produção para municípios do interior, entre eles motores de rabeta, casas de farinha, botes, lanchas, tratores, caçambas, fábricas de gelo, caminhões, fábricas de ração, usinas de beneficiamento de grãos, câmaras frigoríficas, multicultivadores, engenhos de cana-de-açúcar e unidades de beneficiamento de frutas.
A estratégia buscava aumentar a capacidade produtiva dos municípios e, ao mesmo tempo, criar condições para que os produtos fossem beneficiados e comercializados.
Entre as culturas trabalhadas estavam arroz, feijão, café, guaraná, açúcar mascavo, milho, mandioca, soja, malva, pupunha, abacaxi, limão, acerola, mamão, banana, maracujá, açaí, caju, coco, cana-de-açúcar e melancia, além de hortaliças como repolho, couve, pimentão, cebolinha e coentro.
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Agência de Fomento entrou na estratégia
Outro braço da política foi a criação da Agência de Fomento do Amazonas, destinada a oferecer operações de crédito e financiamento para produtores de diferentes áreas, facilitando o acesso a recursos para produção e comercialização.
O programa também enfrentava um problema histórico do Amazonas, o de produzir no interior e conseguir transportar a produção até os mercados consumidores.
Estradas e transporte para escoar a produção
Nesse contexto, foram realizados investimentos em estradas vicinais, com destaque para a estrada de Novo Remanso, que recebeu pavimentação e passou a facilitar o transporte da produção agrícola. A região ganhou destaque especialmente pela produção de maracujá, cupuaçu, graviola e abacaxi, sendo que o abacaxi produzido no município chegou a receber reconhecimento nacional de qualidade.
Amazonino também associou o programa à construção de balsas, pistas de pouso e aeroportos, ampliando as possibilidades de transporte da produção por vias terrestre, fluvial e aérea.
Dados apresentados pelo próprio ex-governador apontam crescimento expressivo da produção durante o período. Segundo Amazonino, entre as safras de 1995/1996 e 2000/2001, houve aumento de 354% na área plantada e de 416% na produção obtida.
O que muda na proposta apresentada agora
É justamente nesse ponto que aparece a diferença defendida por Marcelo Palhano. Para o candidato, o novo terceiro ciclo não deveria repetir a estratégia anterior nem se concentrar exclusivamente na produção rural.
A proposta apresentada durante a entrevista é de um modelo multissetorial, envolvendo setor primário, tecnologia, turismo, mineração, serviços, indústria, floresta e infraestrutura. “A gente precisa desenvolver de forma multissetorial, não adianta a gente focar no setor primário”, afirmou Palhano.
Segundo ele, a Zona Franca de Manaus continuaria sendo fundamental para a economia do Estado, mas seria necessário construir alternativas capazes de reduzir a dependência de uma única matriz econômica.
Zona Franca continuaria como base
Na avaliação do candidato, o Amazonas vive atualmente uma situação de dependência da Zona Franca de Manaus, modelo que ele considera necessário manter, mas que deveria ser acompanhado pela criação de novas atividades econômicas.
A proposta, portanto, não é apresentada como substituição imediata do Polo Industrial de Manaus, mas como tentativa de construir uma segunda frente econômica para o Estado. Nesse novo desenho, o setor primário continuaria tendo espaço, mas dividido com tecnologia, turismo, mineração legal e constitucional, serviços e atividades relacionadas à floresta.
Palhano também defendeu uma mudança na forma como o Amazonas trata seu potencial mineral. Segundo ele, a exploração deve ocorrer dentro da legislação, mas não deveria ser descartada como alternativa econômica.
O candidato também citou a tecnologia como área estratégica para evitar a saída de jovens amazonenses para outras regiões do país, com a criação de oportunidades para que profissionais qualificados permaneçam no Estado e encontrem espaço em empresas e projetos ligados à economia digital.





