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“Estão colocando as mulheres na caixinha de novo”, diz Ana Paula ao falar de padrões de magreza e violência

Dados recentes apontam que feminicídios seguem em alta no Brasil, o que reforça o alerta sobre desigualdade e violência de gênero
18/03/26 às 14:06h
“Estão colocando as mulheres na caixinha de novo”, diz Ana Paula ao falar de padrões de magreza e violência

A jornalista e participante do Big Brother Brasil, da TV Globo, Ana Paula Renault, chamou atenção nas redes sociais nesta terça-feira (17) ao criticar o retorno de padrões estéticos associados à extrema magreza e relacionar o tema ao aumento da violência contra mulheres no Brasil.

Em sua fala, Ana Paula destacou que viveu dois momentos distintos: o padrão de magreza dos anos 2000 e o recente movimento de valorização de diferentes tipos de corpo. Segundo ela, após um período de maior aceitação e liberdade feminina, observa-se uma retomada de padrões considerados “inalcançáveis”.

A veterana também associou essa mudança a uma reação social. Para ela, o avanço da autonomia feminina, com mulheres mais seguras, independentes e livres para rejeitar imposições, pode gerar incômodo em parte da sociedade, o que reflete, inclusive, em casos de violência.

“O que tem acontecido? Estava com essa coisa do corpo livre, depois dos anos 2000, eu também sou dos anos 2000, eu tinha a idade da Samira. Então é quando a gente sofre todas as cobranças sobre padrões estéticos. Os anos 2000 eram aquela época das modelos anoréxicas. Então a gente vivia um padrão de uma magreza inalcançável. E o que voltou? Esse padrão de novo. Mas porque? Porque estava a liberdade do corpo feminino, as gordinhas mais sexy e gostosas nadando de braçada porque elas se sentiam seguras do corpo. Porra, isso é lindo, isso é gostoso, isso é poderoso. A mulherada se sentindo bem com qualquer tipo de corpo. O que fizeram? Vamos colocar elas na caixinha de novo, que elas estão com poder demais, estão se sentindo bem demais. E aí veio, em 2024, 2025, essa coisa da magreza de novo. Porque fica impossível. A mulherada está muito livre, a mulherada está muito contente com o que elas são, mas isso para mim foi tão nítido, esse movimento, porque eu vivi os dois movimentos. E o que acontece? Os feminicídios sobem na mesma escala, porque os homens começam a ficar muito desagradados, porque a mulherada está feliz, está livre, está falando não, aí matam a gente. Você vê por quê e o feminicídio vai acompanhando, vai escalando”, observou Ana Paula Renault.

Dados recentes mostram que o Brasil ainda enfrenta números elevados de violência contra a mulher. Quando se trata de feminicídio, que é o assassinato de uma mulher motivado por sua condição de gênero, o crime, previsto na legislação desde a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), se caracteriza principalmente em duas situações:

  • Violência doméstica e familiar (quando o agressor é parceiro, ex-parceiro ou alguém do convívio da vítima);
  • Menosprezo ou discriminação à condição de mulher (como crimes motivados por ódio, controle, ciúmes ou sentimento de posse).

Por ser considerado um crime hediondo, o feminicídio tem penas mais severas e menor possibilidade de benefícios legais para o agressor.

Em termos gerais, o conceito evidencia que não se trata apenas de um homicídio comum, mas de uma violência estrutural ligada à desigualdade de gênero.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registra, em média, mais de mil feminicídios por ano. A maioria dos casos ocorre dentro de casa e é praticada por companheiros ou ex-companheiros das vítimas.

Especialistas apontam que, embora avanços sociais tenham ampliado direitos e visibilidade das mulheres, a violência de gênero ainda está enraizada em desigualdades históricas.


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A discussão levantada por Renault reforça um debate mais amplo: a relação entre padrões sociais, comportamento coletivo e violência estrutural. Para pesquisadores, combater o feminicídio exige não apenas políticas de segurança, mas também mudanças culturais profundas.

“Epidemia”

Com o objetivo de ampliar o tema, a reportagem da Onda Digital ouviu a jornalista, professora, pesquisadora e fundadora do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (MUSAS), Ivânia Vieira, que alerta que a violência contra a mulher atingiu níveis alarmantes no Brasil, especialmente no Amazonas, e deve ser tratada como uma “epidemia”. Para ela, o feminicídio é o estágio final de uma cadeia de violências que começa com práticas naturalizadas no cotidiano.

“Como essa violência alcançou níveis tão altos? Por que se banaliza tanto a violência contra a mulher, os estupros, a exploração e o feminicídio, que é o ato final dessa corrente?”, questiona.

Ivânia também chama atenção para o crescimento de grupos que disseminam discurso de ódio contra mulheres, principalmente nas redes sociais. Segundo ela, essas narrativas ajudam a normalizar agressões e incentivam comportamentos violentos fora do ambiente digital. “São grupos que trabalham para tornar normal o que é anormal: espancar, violar e matar mulheres”, afirma.

A pesquisadora destaca ainda que fatores estruturais, como machismo, desigualdade social e dependência econômica, reforçam esse cenário. “Temos um poder marcado pelo patriarcado, que se manifesta nesses discursos e práticas de violência”, diz.

Vieira aponta a gravidade da situação no Amazonas: em 2024, foram registrados 77 homicídios de mulheres, sendo 29 feminicídios. Já em 2025, ao menos 20 mortes foram contabilizadas oficialmente, além de altos índices de violência sexual.

Para a ativista, o silêncio diante desses números contribui para a continuidade da violência. “Quanto mais silêncio se fizer sobre esse avanço, mais se torna cúmplice quem se omite”, afirma.

Ela defende que o enfrentamento passa pelo debate público, pela conscientização social e por ações concretas do poder público.

“Precisamos conversar em casa, com os pais, os avós, os irmãos, os primos, nos encontros onde circulamos, inserir esse tema em todos os espaços das instituições e da nossa vida social, para que juntos possamos organizar formas de enfrentamento. E essas formas de enfrentamento passam também pela tomada de decisão do que se dá no espaço público de poder. Nós temos um poder marcado pelo machismo, pelo patriarcado, que se realiza exatamente naquilo que esses grupos de ódio às mulheres fazem agora”, acrescenta.

A especialista defende que “todos e todas se sintam afetados por essa realidade e busquem formas de enfrentar e superar essa tragédia que ocorre contra as mulheres”, conclui.

Recorde em 2025

Ainda conforme a base de dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil teve, em 2025, o maior número de feminicídios dos últimos 10 anos: 1.568 mulheres assassinadas por motivo de gênero, alta de 4,7% em relação a 2024 (1.492 casos).

A série histórica mostra crescimento contínuo desde 2015, quando o crime passou a ser tipificado, com 449 registros. Desde então, os números avançaram até atingir o recorde atual, somando ao menos 13.703 vítimas no período.

O levantamento também aponta que os feminicídios passaram a representar uma fatia maior dos homicídios de mulheres, saltando de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024. Nos últimos cinco anos, o aumento acumulado foi de 14,5%.

Segundo especialistas, parte da alta está relacionada à melhora na identificação e classificação dos casos pelas autoridades, embora ainda existam diferenças na qualidade dos registros entre os estados.

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