Projeto incentiva a entrada de mulheres na área de tecnologia em Manaus

A presença feminina na área de tecnologia em Manaus ainda é pequena diante da de homens, tanto nas salas de aula quanto no mercado de trabalho. Foi observando essa desigualdade, e vivendo na prática as dificuldades de atuar em um setor majoritariamente masculino, que Luana Pinheiro, 22 anos, e Iane Victória, 24, decidiram criar a ManasTech.
Luana é natural de Eirunepé, no interior do Amazonas. Na cidade, havia apenas três cursos técnicos integrados ao ensino médio, administração, agropecuária e informática. A escolha pela informática despertou seu interesse por códigos e inovação, o que a levou a se mudar para Manaus para cursar ciência da computação. Hoje, ela está no último período da graduação.
Iane veio de Nova Olinda do Norte, também no interior do Estado, e teve os pais, ambos professores da área de tecnologia, como principal referência.
“Não tinha referência feminina além da minha mãe lá na cidade onde eu morava, e desde aquela época eu senti um certo incômodo”, relata.
Ela começou a graduação em física pela UFAM, migrou para engenharia de software na mesma universidade e concluiu a formação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela PUC Minas. Atualmente, trabalha na Singulare Consultoria, empresa formada por 90% de mulheres.
As barreiras enfrentadas para mulheres na tecnologia
As duas relatam experiências parecidas de sub-representação. Na turma de Luana na faculdade, de cerca de 50 alunos, apenas 10 são mulheres. Em seu antigo emprego, ela integrava uma equipe de seis pessoas, das quais só duas eram mulheres. Iane teve uma experiência ainda mais direta: foi a única mulher do setor de tecnologia em seu primeiro trabalho.
“Fiquei um pouco receosa quando vi minha equipe, vi que tinha muitos homens. Graças a Deus minha gestora era uma mulher, então ela me deu muito esse apoio”, conta Luana sobre seu primeiro estágio. “Apesar de ter uma equipe muito masculina, ela disse: eu estou aqui com você, você tem pouco conhecimento, mas eu vou lhe apoiar. Isso me fez permanecer na área.”

Segundo Luana, parte da dificuldade está no medo de expor o conhecimento adquirido diante de chefias masculinas. “Muitas vezes, por ter chefes homens, fica-se com medo do constrangimento. É a falta de coragem, a falta de entender que você tem o conhecimento e mostrar esse conhecimento, e isso acaba fazendo com que as mulheres desistam e usem seus conhecimentos de tecnologia em outras áreas”, afirma.
Já Iane aponta que, mesmo quando conquistam cargos de liderança, mulheres seguem tendo o potencial questionado.
“É um mercado majoritariamente masculino, então até o fato de existirem mulheres em cargo de liderança já é um fator diferencial. Conversando com colegas e líderes do mercado, esse assunto é muito pautado: a dificuldade de ter a voz escutada, de duvidarem do seu potencial mesmo com o cargo e o conhecimento”, diz.
Como nasceu o ManasTech
O encontro entre Luana e Iane aconteceu de forma quase acidental, em um evento de tecnologia voltado ao público feminino que reunia poucas mulheres. “A gente percebeu: poxa, sempre tem muitos homens e sempre tem tão poucas mulheres. O que a gente pode fazer? Isso ficou na nossa cabeça”, relembra Luana. A percepção repetida em outros eventos levou as duas a se reunirem com amigas em 5 de julho de 2025 para criar uma comunidade.
O projeto nasceu com o nome Git Push Manas, referência a um termo usado no GitHub. “Só que as pessoas acabavam confundindo sobre o que era exatamente a comunidade, e ao longo do tempo a gente foi se estruturando melhor e após uma votação, mudamos o nome para Manas Tech”, explica Luana. Hoje, mais de 15 mulheres apoiam a organização do projeto, além das duas fundadoras.
Em um ano e um mês de existência, a Manas Tech já impactou cerca de 1.500 mulheres, segundo as fundadoras. O canal de WhatsApp da comunidade reúne aproximadamente 300 mulheres, divididas em grupos de chat geral, empregabilidade e eventos, e as redes sociais somam mais de 3 mil seguidores.
Um dos principais projetos da comunidade é o AdaConnecta, evento voltado à promoção do protagonismo feminino na tecnologia, com palestras, workshops e dinâmicas de network conduzidas exclusivamente por mulheres. Na primeira edição, gratuita, o público estimado de 150 mulheres foi alcançado. “A gente ficou muito orgulhosa, porque é muito para além de fazer um evento, é também incentivar, promover esse ambiente acolhedor, para elas se sentirem seguras a irem nesses encontros”, diz Iane.
Entre os resultados citados pelas organizadoras está o caso de uma participante que mudou de área dentro da tecnologia. “A gente tem um case da Bruna, que era da área de suporte e foi para a área de dados. Hoje ela conseguiu sair daqui porque era o objetivo dela, e está na área de ciência de dados”, conta Iane.
Luana também relata ter conseguido, com o apoio da rede, seu primeiro emprego no modelo home office. “Com o Manastec eu consegui ter contato com outras mulheres já sêniores na área, que me deram muitas dicas, e agora estou no meu primeiro trabalho home office, que foi uma conquista enorme, porque tenho mais tempo para ficar com a minha família”, afirma.
A comunidade oferece ainda um programa de mentorias com sete mentoras cadastradas, aberto a mulheres e homens, com agendamento disponível no site oficial. No último sábado (8/8), foi realizado o primeiro workshop presencial da comunidade, o IA para Elas, construído por dez integrantes e voltado à capacitação em inteligência artificial, com temas como letramento em prompts e uso de ferramentas como Lovable, Gemini e NotebookLM. “Foi um evento com muita troca, muito network, e isso é o que nos deixa muito felizes, porque a gente vê o impacto acontecendo em tempo real”, relata Iane. A ação teve cerca de 15 participantes e nota máxima de satisfação entre os presentes.
Próximos eventos para elas
A Manas Tech anuncia nesta semana a segunda edição do AdaConnecta, marcada para 10 de outubro, com expectativa de 289 participantes. “Essa edição vai ser uma edição histórica, porque ela de fato vai gerar esse network, esse encontro entre tecnologia e inovação”, afirma Iane.
A comunidade também prepara o lançamento do projeto Embaixadoras do ManasTech, que vai selecionar mulheres atuantes ou que desejam atuar na área de tecnologia para dar mais visibilidade a suas vozes no mercado de trabalho.
“É uma troca muito rica, porque a gente vê a união entre as comunidades para, de fato, gerar um retorno para essas mulheres”, resume Luana.





