Brasil assume meta de recuperar áreas degradadas até 2030; AM está incluído

O Brasil assumiu nesta terça-feira (25), na COP17 da Convenção da ONU de Combate à Desertificação, o compromisso de recuperar mais de 163 mil km² de áreas degradadas até 2030. No Amazonas, onde mais de 4,4 mil km² foram identificados como degradados entre 2016 e 2022, a meta reforça o desafio de recuperar áreas alteradas e conter novos danos ao território.
Apresentada em Ulaanbaatar, na Mongólia, a Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) reúne 17 submetas. Além da recuperação e restauração, o plano prevê ações de prevenção, conservação e manejo sustentável em outros 3,51 milhões de km².
Embora o debate sobre desertificação esteja historicamente mais associado às regiões semiáridas do país, o Amazonas também enfrenta um problema relacionado à degradação do território e aos efeitos cada vez mais severos das mudanças no regime de chuvas.
Amazonas tem mais de 4,4 mil km² de áreas degradadas
Dados reunidos pelo Governo do Amazonas no Plano Estadual de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas apontam mais de 4,4 mil km² de áreas degradadas no Estado entre 2016 e 2022.
As ocorrências se concentram principalmente no sul do Amazonas, região que reúne municípios sob forte pressão de expansão da atividade agropecuária e abertura de novas áreas. Entre os municípios citados estão Apuí, Boca do Acre, Manicoré, Novo Aripuanã, Canutama, Lábrea e Humaitá. Também há registros de áreas degradadas na Região Metropolitana de Manaus.
Os dados utilizados pelo plano estadual têm como referência informações do TerraBrasilis, plataforma do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com processamento realizado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.
O problema não significa que o Amazonas esteja entre as áreas brasileiras classificadas como desertificadas. A questão é diferente: trata-se da perda ou alteração da qualidade de áreas naturais provocada por processos como desmatamento, queimadas e uso inadequado do solo, além dos impactos provocados por eventos climáticos extremos.
Sul do Amazonas concentra parte da pressão
O sul do estado é uma das regiões onde a preocupação com a recuperação de áreas degradadas ganhou espaço nas políticas ambientais. Em relatório de gestão, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente registrou a elaboração de ações para recuperar 50 hectares de áreas degradadas na região, com implantação de espécies florestais e frutíferas em propriedades com passivo ambiental.
A região também aparece em iniciativas voltadas à gestão territorial, recuperação ambiental e manejo sustentável. Projetos apoiados pelo Fundo Amazônia incluem ações de recuperação de áreas degradadas, proteção de recursos hídricos e implantação de sistemas agroflorestais no sul do Amazonas.
Em Apuí, por exemplo, o governo estadual adotou em 2025 medidas relacionadas à regularização ambiental de produtores rurais, em uma região considerada estratégica para o controle do desmatamento e para a recuperação de áreas alteradas.
Seca também aumenta a vulnerabilidade
Além da degradação do solo e da vegetação, o Amazonas enfrenta outro componente do problema discutido na COP17: a ocorrência de secas mais severas.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) registrou, em agosto de 2024, agravamento da seca no oeste do Amazonas e apontou oito municípios amazonenses em condição de seca extrema na projeção para setembro daquele ano.
Em outro levantamento, o órgão identificou municípios do Amazonas que já enfrentavam seca havia mais de um ano. Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro acumulavam 16 meses de seca; Codajás, Maraã e Fonte Boa, 15 meses; e Guajará, Uarini e Ipixuna, entre 14 e 15 meses.
A seca de 2023 também atingiu progressivamente a região amazônica. Segundo nota técnica do Cemaden, o fenômeno começou a se manifestar de forma gradual na região a partir de maio daquele ano e, nos meses seguintes, seus impactos se intensificaram.
Em 2024, os efeitos foram novamente expressivos. Documento técnico do Cemaden registrou que, até o final de setembro, cerca de 745 mil pessoas haviam sido afetadas pela seca no Amazonas.
Desmatamento cai, mas passivo permanece
Os dados mais recentes também mostram uma redução dos alertas de desmatamento na Amazônia. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a área sob alerta caiu 36% no período de agosto de 2025 a julho de 2026, chegando a 2.874,38 km², o menor resultado da série histórica para o ciclo iniciada em 2016.
A redução dos novos alertas, porém, não elimina as áreas que já foram alteradas. O próprio INPE estima que aproximadamente 729 mil km² do bioma Amazônia já tenham sido desmatados, o equivalente a cerca de 17% de sua extensão.
É justamente nesse ponto que a meta apresentada pelo Brasil na COP17 ganha relação com o Amazonas: além de impedir novos processos de degradação, o compromisso prevê recuperar áreas que já perderam parte de suas funções ambientais.
A estratégia brasileira foi construída no âmbito da Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD), que reúne representantes de ministérios, governos estaduais e municipais, sociedade civil e setor privado. O processo envolveu 65 instituições.
A proposta também está relacionada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 15.3, que estabelece como meta combater a desertificação, recuperar terras e solos degradados e buscar a neutralidade da degradação da terra até 2030.
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Na prática, o desafio para o Amazonas é diferente daquele enfrentado pelo semiárido brasileiro, mas está ligado ao mesmo objetivo de preservar a capacidade ambiental e produtiva do território. No Estado, isso passa pela recuperação de áreas já degradadas, pela redução do desmatamento e das queimadas e pela adaptação aos períodos de seca que vêm afetando rios, comunidades e atividades econômicas.
A COP17, realizada na Mongólia, discute justamente mecanismos de financiamento, recuperação de terras e pastagens, manejo sustentável dos solos e da água e políticas para aumentar a resistência das populações aos efeitos da seca e das mudanças climáticas.





