Vinil em Manaus: como colecionadores, lojas e DJs mantêm tradição viva na era digital

(Foto: Montagem)
No Centro de Manaus, em meio ao vai e vem da Praça do Congresso, funciona há oito anos um ponto de encontro para apaixonados por música, memória e discos de vinil. O Sebo Art Vinil, de propriedade de Fernando Coelho, de 57 anos, é mais que um comércio, é um espaço de preservação da cultura musical.
A relação de Fernando com o vinil começou nos anos 1970, ainda menino, ouvindo o toca-discos do pai no comércio da família, na Praça 14. “Martinho da Vila, Originais do Samba, Adoniran Barbosa, Luiz Gonzaga… a gente ouvia muito esses discos”, lembra. Nos anos 1980, já trabalhando, começou a formar sua própria coleção. Passou pela Philips, onde teve acesso a discos com preço reduzido para funcionários.

Chegou a ter quase 2.800 discos, de diversos ritmos. “Tinha de MPB, rock nacional, rock progressivo, lambada, e alguns que minha mãe me deu”, conta. Mas foi a partir de 2017, quando se viu desempregado, que começou a transformar a paixão em negócio. Primeiro, montou uma banca na Feira do Eduardo Ribeiro, aos domingos. Depois, passou a participar de feiras pelo centro da cidade.
Até que, há oito anos, conseguiu um ponto fixo na Praça do Congresso. “Aí eu precisava colocar um nome. Como eu achava as capas bonitas, pensei: esses discos são uma arte. O cara que desenha a capa é um artista. E as letras também são uma arte. Aí ficou Sebo Art Vinil.”

Um ponto de encontro de colecionadores
Hoje, o sebo é ponto de referência para quem busca desde os clássicos do rock internacional até as raridades da música amazonense. “O pessoal procura muito disco regional. Semana passada mesmo, vendi um disco do Raízes Caboclas para um inglês que estava aqui em Manaus”, conta Fernando.
Há alguns anos, o sebo recebeu uma visita ilustre: a secretária do Axl Rose, brasileira, que estava em Manaus. “Ela levou vários discos nacionais e importados. Me deu dois ingressos, tirei foto com ela”, relembra.

Luciano Felipe Braga, de 42 anos, também coleciona. Com cerca de mil discos em casa, 800 de rock e 200 variados entre blues, jazz, MPB e trilhas sonoras, ele conta que a paixão começou em 2010, influenciada por amigos. “Ganhei alguns discos deles e foi daí que comprei meu toca-discos e comecei a colecionar”, diz.
O disco mais especial da coleção dele é um ao vivo do Uriah Heep, importado de 1973. “Essa raridade vem com um folheto dentro, com fotos e assinaturas da banda. Além do encarte ser de papel com a notícia deles saírem na revista Rolling Stones.”

Vinil volta com força
Fernando observou de perto o renascimento do vinil nos últimos anos, impulsionado por fatores como filmes biográficos e a volta dos toca-discos às lojas. “Quando lançaram o filme do Queen, a demanda foi enorme. Mandei buscar disco em São Paulo, chegava e acabava rápido. Agora, com o filme do Michael Jackson previsto para abril, já mandei buscar mais de 80 discos dele.”
O público, de fato, mudou. Ao lado dos saudosistas, jovens colecionadores ocupam espaço. “Muitos jovens procuram Beatles, Elvis, Elton John. E também os mais novos, como Lana Del Rey e Taylor Swift. A gente trabalha com tudo”.
O sebo também é memória viva da música amazonense. Fernando já teve em estoque discos de Cileno, Raízes Caboclas, Carrapicho, Roberto Dibo e os volumes 1 a 5 de Teixeira de Manaus, um dos maiores vendedores de LPs do Brasil nos anos 1980, precursor do movimento conhecido como “beiradão”.

Cena do vinil em movimento
Além do comércio tradicional, Manaus também tem visto crescer eventos dedicados ao vinil. No dia 17 de janeiro, aconteceu a primeira edição da Feira de Vinil 2026, no Encruzilhada Bar, reunindo expositores, DJs e colecionadores.
O idealizador, DJ M. Portuga, destaca a iniciativa como uma forma de fortalecer a cultura do vinil e valorizar a música em seu formato físico. O evento contou com a participação do Sebo Art Vinil e de outros expositores locais.
E toda sexta-feira, o Encruzilhada Bar promove a “Sexta do Vinil”, com DJ sets em vinil. Nesta sexta (27), o convidado é o DJ Markito, que apresenta o set “Som do Beiradão”, uma homenagem ao movimento criado por Teixeira de Manaus.





