Quando a dor não passa: autoridades de saúde alertam para o transtorno de luto prolongado

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Embora o luto seja uma reação natural diante da perda de alguém próximo, autoridades internacionais de saúde alertam que, quando o sofrimento se torna intenso, duradouro e incapacitante, pode configurar transtorno de luto prolongado, condição oficialmente reconhecida nos principais manuais diagnósticos.
A Organização Mundial da Saúde incluiu o transtorno na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Segundo o órgão, o quadro é caracterizado por saudade persistente e dor emocional intensa que se estendem por pelo menos seis meses após a perda, acompanhadas de prejuízo significativo na vida pessoal, social ou profissional.
Já a American Psychiatric Association incorporou o diagnóstico ao DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). A entidade descreve sintomas como dificuldade em aceitar a morte, sensação de vazio, isolamento, perda de propósito e sofrimento que excede as normas culturais e religiosas relacionadas ao luto.
Especialistas destacam ainda que o luto, por si só, não é considerado doença e varia conforme o contexto cultural e individual. Dessa forma, o diagnóstico de luto prolongado ocorre quando há persistência dos sintomas com impacto funcional relevante.
O tratamento recomendado inclui psicoterapia específica para luto e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico para controle de sintomas associados, como depressão e ansiedade. As entidades reforçam que o reconhecimento formal do transtorno amplia o acesso a cuidado especializado e reduz o estigma em torno da busca por ajuda psicológica.
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Sinais
A perda de alguém querido é uma experiência dolorosa, mas esperada ao longo da vida. No entanto, quando a dor se torna persistente e incapacitante, pode evoluir para um quadro clínico que exige acompanhamento profissional. Em entrevista ao Onda Digital, o psicólogo clínico Danilo Areosa explica como diferenciar o luto considerado natural do transtorno de luto prolongado, quais são os fatores de risco e quais abordagens terapêuticas são mais indicadas.

Segundo o psicólogo, o luto é um processo individual.
“A psicologia entende o luto como um processo complexo, que varia de pessoa para pessoa. Cada um vive de forma única. Sentir dor, saudade e todos os sentimentos vinculados à perda é algo normal e esperado”, afirma.
O alerta surge quando a intensidade e a duração dos sintomas comprometem o funcionamento da pessoa.
“Em casos em que o luto se prolonga, podemos dizer que há um transtorno mental instaurado, porque ele impede a pessoa enlutada de tocar a vida e interfere no funcionamento diário e no bem-estar geral”, explica.
De acordo com o DSM-5, o luto considerado natural pode variar entre três e seis meses após a perda, com sentimentos moderados que não inviabilizam a rotina. Já o luto prolongado persiste além desse período e costuma apresentar sinais clínicos mais intensos, como dificuldade em aceitar a morte, culpa, irritabilidade, sensação de vazio emocional, isolamento social, além de alterações na higiene, alimentação e sono.
Danilo Areosa destaca que alguns fatores aumentam o risco de evolução para o luto patológico. “Circunstâncias traumáticas, como morte de cônjuge ou filho, mortes inesperadas, acidentes ou situações violentas, podem intensificar o processo”, diz. Histórico de depressão, crises de ansiedade, baixa autoestima e forte dependência emocional também são elementos que elevam a vulnerabilidade.
Em crianças, o cuidado deve ser redobrado. “Elas ainda não conseguem discernir plenamente seus sentimentos e, muitas vezes, precisam de psicoterapia infantil para elaborar a perda”, pontua.
Quanto a tratamentos, o especialista aposta em abordagens como a Psicanálise e a Terapia Cognitivo-Comportamental, além de grupos de apoio, como as opções mais indicadas.
No entanto, Areosa observa que a medicação pode ser recomendada, mas é necessária avaliação médica psiquiátrica para uma análise global de cada caso.
Reconhecimento
Desde 2022, o luto prolongado é reconhecido como transtorno mental pela American Psychiatric Association (APA), no DSM-5-TR, e pela Organização Mundial da Saúde, na CID-11. Embora o luto seja um processo natural diante de perdas, ele pode se tornar patológico quando o sofrimento é intenso, persistente e impede a retomada da vida funcional.
Diferente da depressão e da ansiedade, no luto prolongado o gatilho central é sempre a perda. Segundo a psicóloga Samantha Mucci, da Universidade Federal de São Paulo, no luto natural a dor tende a ser ressignificada com o tempo. Já no luto prolongado, a pessoa permanece excessivamente focada na perda e tem dificuldade de retomar atividades cotidianas.
Sintomas
Em crianças e adolescentes:
- Isolamento e retraimento;
- Dificuldade de concentração e socialização;
- Sofrimento agudo e sensação de abandono.
Em adultos:
- Dificuldade de concentração e produtividade;
- Sentimento de desvalorização da vida e incapacidade;
- Isolamento, perda de libido e de interesse pela vida pessoal.
Vale observar que o luto pode ser desencadeado não apenas por morte, mas também por perdas afetivas, como separações familiares.
SUS
O Sistema Único de Saúde oferece atendimento por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A Atenção Primária é a porta de entrada, e os CAPS e as equipes multiprofissionais especializadas atendem casos leves a moderados.
Setembro Amarelo
O Ministério da Saúde reforça a importância da conscientização: mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no mundo (OMS); mais de 70 milhões têm transtornos alimentares; entre 5% e 8% da população apresenta TDAH; transtornos de ansiedade podem ter origem genética; e o Brasil lidera a prevalência de depressão na América Latina.





