Além da diversão: videogames ajudam adultos na socialização e saúde mental

Por mais de duas décadas, os videogames foram tratados como brinquedos ou, simplesmente, como atividades direcionadas às crianças. No entanto, com o passar do tempo, o público que jogava, em geral, crianças dos anos 1980 e 1990, cresceu, mas manteve o hábito de jogar como passatempo. Como resultado, os jogos eletrônicos passaram por reformulações, incorporando temáticas mais maduras para atender à demanda de uma audiência adulta.
Hoje, em 2026, sabe-se que jogar videogame se tornou um hábito bastante comum entre homens e mulheres, que encaixam a atividade em uma rotina repleta de compromissos, como trabalho, família e relacionamentos pessoais. Segundo uma pesquisa publicada pela Pesquisa Game Brasil, 73% dos brasileiros jogam videogame e, desse total, 36% são adultos.
O número de adultos consumindo games no Brasil atingiu o pico entre 2020 e 2022, período da pandemia, quando 78% dos brasileiros, sendo 51% adultos, afirmaram utilizar os jogos não apenas para diversão, mas também para socialização.
O fato é que, volta e meia, surge uma pergunta que incomoda a comunidade gamer: “adultos deveriam jogar videogame?”. De tempos em tempos, uma trend sobre o tema ganha força no X, gerando discussões acaloradas. Segundo os criadores dessas discussões, não seria possível ser um homem adulto, cuidar da família e do trabalho e, ainda assim, jogar videogame.
O empreendedor autônomo André Campos, de 39 anos, cresceu com o hábito de jogar videogame. Casado e pai de dois filhos, ele fala sobre a importância dos jogos eletrônicos durante sua infância.

“Cada geração tem uma marca, uma característica bem específica. Acho que a geração Y é marcada pela transição tecnológica. Crescemos dividindo o tempo entre a bola no campinho, a matinê com os amigos no fim de semana e os jogos eletrônicos”, disse. “Esse hábito não foi abandonado na vida adulta e sempre foi uma forma de relaxar em casa, com a família, na paz e no sossego do sofá”, declarou Campos.
Durante a pandemia, André, juntamente com amigos que conheceu jogando, formou um grupo de WhatsApp que se reunia para interagir, jogar e conversar.
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“Quando a pandemia começou e não pudemos mais sair, a ansiedade causada por tudo isso e a necessidade de distrair a mente foram amenizadas pelos jogos, pelos amigos virtuais e pelas histórias vividas nas jogatinas. Durante muitos meses, essas aventuras substituíram parte da vida real e ajudaram a afastar a depressão”, explica André, que destaca que a interação promovida pelos videogames foi fundamental para a manutenção de sua saúde mental e da convivência familiar. O grupo segue ativo até hoje, mesmo após as mudanças de rotina no período pós-pandemia.
O videogame, historicamente alvo de preconceitos, representa hoje a maior e mais lucrativa indústria do entretenimento global. O setor movimenta cerca de US$ 188 bilhões por ano e atrai nomes de Hollywood para suas produções. Um exemplo é o jogo Death Stranding, que reuniu profissionais como o diretor Guillermo del Toro e o ator Norman Reedus. A indústria também atrai artistas da música, como a banda Linkin Park, que participou de trilhas sonoras para títulos como Medal of Honor e League of Legends.
A aproximação de Hollywood com o mercado dos jogos evidencia o valor artístico das produções atuais, que retratam diferentes mundos, épocas e histórias, reforçando a complexidade e a seriedade do setor. Para André Campos, os games representam exatamente isso: universos variados que ajudam na construção de experiências e contam histórias únicas.
“O videogame é fantasia. É ser quem você não pode ser. É ser corajoso, destemido, sedutor, poderoso. É poder voar, correr, ser um craque do esporte, uma criatura mitológica ou viver em várias eras. É um refúgio da vida real monótona, é comunidade, é saúde mental”, destacou, deixando claro como a atividade segue presente em sua vida e também na dos filhos, funcionando como um importante elemento de convivência familiar.

Mas e a pergunta que frequentemente incomoda a comunidade gamer? É possível ser um adulto responsável e jogar videogame? E de onde vem esse questionamento? André já ouviu esse tipo de comentário, mas encara a situação de forma mais leve do que se imagina.
“Em algum momento, já ouvi algo assim. Mas geralmente vêm de pessoas que não vivem nesse ambiente nem convivem com quem tem esse hobby. As pessoas do meu círculo social entendem essa distinção, sabem da importância disso para a saúde mental e apoiam”, explica. Ele enfatiza que esse tipo de crítica costuma partir de pessoas que carecem de informação sobre o universo dos videogames e sobre como eles podem funcionar não apenas como ferramenta de lazer, mas também de socialização e fortalecimento de laços emocionais.





