Síndrome dos ovários policísticos: veja os sintomas e como é diagnosticada

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) pode provocar alterações no ciclo menstrual, dificuldades relacionadas ao peso e outros sintomas que variam de mulher para mulher. O atraso menstrual foi o primeiro sinal percebido por Hemilly Vasconcelos, estudante de fisioterapia, que relata ter passado por períodos de mais de três meses sem menstruar. A identificação dos sintomas e a avaliação médica são fundamentais para investigar a condição e definir o tratamento adequado.
“Sim, alterou. No começo, não estranhei muito, depois o atraso já passava de três meses”, conta Hemilly sobre as mudanças na menstruação.
A SOP é uma condição hormonal que pode provocar irregularidade menstrual e alterações na ovulação, entre outras manifestações. No entanto, nem toda alteração no ciclo é causada pela síndrome. Segundo a endocrinologista Luciana Lobato, a menstruação depende da interação entre diferentes hormônios e também pode ser influenciada pela quantidade de gordura corporal, pela alimentação e pelo gasto de energia.

Vontade intensa de comer e dificuldade para emagrecer
Além das alterações menstruais, Hemilly percebeu mudanças relacionadas à alimentação e ao peso. Ela relata que, em determinados períodos do mês, sentia vontade intensa de comer e encontrava dificuldades para emagrecer, mesmo quando fazia dieta.
“A desregulação do meu ciclo fez com que eu sentisse uns desejos diferentes em determinados dias do mês, e é uma vontade de comer absurda. Com o passar do tempo, percebi que, por mais que fizesse dieta, meu organismo é muito lento. Isso dificulta o emagrecimento”, afirma.
Luciana Lobato explica que o peso corporal, a quantidade de gordura, a ingestão de calorias e o gasto energético influenciam diretamente o ciclo menstrual. Tanto a baixa disponibilidade de energia quanto o excesso de gordura corporal podem provocar alterações hormonais.
Em mulheres com baixo peso, ou que, mesmo com peso considerado normal, consomem pouca energia ou mantêm rotina de exercícios muito intensa, o organismo pode reduzir a atividade do eixo hormonal responsável pela função reprodutiva. Esse processo pode interromper a ovulação e tornar a menstruação irregular, chegando à ausência completa de sangramento, chamada amenorreia.
“O corpo entende que há pouca energia disponível, e começa a reduzir determinadas funções, entre elas a reprodutiva”, explica a endocrinologista.
Por outro lado, o excesso de gordura corporal, especialmente na região visceral, pode favorecer a resistência à insulina e aumentar a quantidade desse hormônio no sangue. De acordo com Luciana, isso pode estimular os ovários a produzir mais andrógenos, como a testosterona, contribuindo para alterações no equilíbrio hormonal e na ovulação.
“No excesso de gordura corporal ocorre o oposto. Há excesso de energia, principalmente pela deposição de gordura visceral, o que leva ao aumento da resistência à insulina e excesso desse hormônio circulando na corrente sanguínea”, afirma.
A médica ressalta que essas alterações podem interferir na regularidade do ciclo e provocar desde sangramentos excessivos até a interrupção da menstruação. Os mecanismos, porém, variam de acordo com cada pessoa, e a irregularidade precisa ser investigada para que a causa seja identificada.

Anticoncepcional ajudou no ciclo, mas trouxe dificuldades
Durante o tratamento, Hemilly utilizou anticoncepcionais para regularizar a menstruação. Segundo ela, os medicamentos ajudaram a controlar o ciclo e melhoraram seu humor, mas vieram acompanhados de ganho de peso, o que tornou a experiência mais difícil.
“Tomei anticoncepcional para regularizar meu ciclo, porém eles me fizeram engordar. Por um lado, ajudou a menstruação e meu humor; por outro, me fez engordar”, relata.
O tratamento depende da causa identificada e das necessidades de cada paciente. No caso da SOP, a abordagem pode incluir medicamentos para controlar sintomas específicos e medidas voltadas à saúde metabólica. A escolha deve ser feita com orientação médica, considerando benefícios e possíveis efeitos adversos.
Luciana Lobato destaca que o equilíbrio entre disponibilidade de energia, alimentação, gasto energético e composição corporal pode ajudar a recuperar a regularidade menstrual quando esses fatores são responsáveis pelas alterações. Isso não significa, porém, que toda mulher com irregularidade menstrual precise emagrecer: a conduta depende da avaliação clínica.
“A boa notícia é que ambas as situações podem ser revertidas a partir do momento que o corpo encontre o equilíbrio do peso em relação à quantidade de gordura corporal, ingesta e gasto de energia”, explica a endocrinologista.
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“A maioria das pessoas acha que é frescura”
Além dos sintomas físicos, Hemilly relata que enfrenta julgamentos de pessoas que não compreendem as dificuldades de conviver com a síndrome. Segundo ela, algumas atribuem os problemas à falta de vontade ou consideram os sintomas exagerados.
“A maioria das pessoas acha que é frescura e falta de vontade, porém eu sei que uma desregulação hormonal pode alterar todo o seu organismo quando não é tratada”, afirma.
A estudante conta que aprendeu a lidar de outra forma com os comentários e a não condicionar suas decisões às expectativas alheias.
“Hoje em dia não incomoda mais. Parei de me importar com o que os outros pensam, porque, se não, ia enlouquecer fazendo de tudo para emagrecer só porque os outros acham que é melhor para mim”, diz.
O relato evidencia como a falta de informação pode contribuir para a desvalorização dos sintomas enfrentados por mulheres com alterações hormonais. A investigação médica é importante para evitar que os sinais sejam atribuídos automaticamente ao peso ou à falta de disciplina.

Quando procurar um endocrinologista?
Luciana Lobato recomenda que mulheres com mudanças persistentes no padrão menstrual procurem avaliação médica. Entre os sinais de atenção estão ciclos com intervalos inferiores a 21 dias ou superiores a 35 dias, meses sem menstruar e sangramentos que duram mais de sete dias.
“Toda mulher que esteja passando por alterações no padrão dos ciclos menstruais, seja por ficar menstruada novamente em menos de 21 dias entre cada ciclo, ou acima de 35 dias, até meses sem menstruar, ou ficar sangrando por mais de 7 dias, deve procurar o médico endocrinologista para que seja identificada a causa e iniciado o tratamento adequado”, orienta.
Segundo a especialista, investigar essas alterações também ajuda a prevenir complicações do desequilíbrio hormonal. Dependendo da causa e do tempo sem tratamento, podem existir riscos para a saúde cardiovascular, para os ossos e para o endométrio, tecido que reveste o interior do útero.
A médica ressalta que o acompanhamento permite identificar a origem das mudanças e definir o tratamento apropriado, em vez de apenas tentar controlar os sintomas.
Conhecer o próprio corpo é fundamental
Ao compartilhar sua experiência, Hemilly deixa um conselho para outras mulheres com sintomas semelhantes: respeitar as particularidades de cada organismo e procurar orientação profissional.
“Para cada mulher é diferente. É importante fazer exames periódicos, consultar um médico e não procurar tudo na internet, até porque, quando não se entende muito sobre o assunto, a internet pode ser um vilão. E o mais importante é sempre conhecer seu corpo”, aconselha.





