“Acho que tenho autismo ou TDAH”: o fenômeno do autodiagnóstico nas redes

(Foto: Reprodução)
Nos últimos anos, vídeos com frases como “sinais de que você tem TDAH” ou “comportamentos autistas que você não sabia reconhecer” acumulam dezenas de milhões de visualizações nas redes sociais. O fenômeno gerou um movimento em comum entre as pessoas: pessoas que nunca haviam considerado um diagnóstico passaram a se identificar profundamente com listas de características.
Esse movimento tem duas faces. Por um lado, democratizou o acesso à informação sobre condições que historicamente foram subdiagnosticadas, especialmente em mulheres e pessoas negras. Por outro, levantou preocupações sobre banalização e autodiagnóstico impreciso.
A internet ajudou muita gente a chegar ao consultório com palavras para descrever o que sente há décadas. Mas ela não substitui a avaliação clínica, que é complexa, longa e individualizada.
Por que o autismo e o TDAH são os mais pesquisados
- Sintomas difusos
Características como distração, sensibilidade social e dificuldade de organização são comuns a muitas pessoas, facilitando a identificação.
- Subdiagnóstico histórico
Mulheres e adultos frequentemente não foram diagnosticados na infância, criando uma geração que busca respostas tardiamente.
- Conteúdo algorítmico
O algoritmo amplifica vídeos de identificação emocional, criando câmaras de eco onde todos parecem ter o mesmo diagnóstico.
- Redução do estigma
A crescente normalização dessas condições nas redes tornou mais fácil falar sobre elas, e mais desejável ter um “rótulo explicativo”.
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Os riscos do autodiagnóstico sem acompanhamento
Especialistas em psiquiatria e neuropsicologia reconhecem que a autoidentificação pode ser o primeiro passo para buscar ajuda, mas alertam que parar nesse ponto traz riscos concretos:
Diagnósticos equivocados: Sintomas de TDAH e autismo se sobrepõem a condições como ansiedade, depressão, trauma complexo e transtorno bipolar. Sem avaliação, a pessoa pode tratar a condição errada.
Automedicação: Algumas pessoas passam a buscar medicamentos (como metilfenidato) sem prescrição, com riscos sérios à saúde.
Identidade em torno do diagnóstico: Adotar uma identidade baseada em um autodiagnóstico pode dificultar a busca por ajuda profissional e limitar a visão que a pessoa tem de si mesma.
Autodiagnóstico não é sinônimo de diagnóstico. Uma avaliação clínica formal envolve entrevistas aprofundadas, histórico de vida, questionários validados e, frequentemente, múltiplas sessões com profissionais especializados.
O que os especialistas recomendam
A orientação predominante é tratar o autodiagnóstico como um ponto de partida, não de chegada. Se você se identificou com características de autismo ou TDAH, o caminho indicado é buscar avaliação com psiquiatra ou neuropsicólogo, profissionais habilitados para aplicar os critérios diagnósticos formais (como o DSM-5).
Listas de sintomas nas redes sociais, por mais precisas que sejam isoladamente, não consideram a intensidade, a duração, o impacto funcional e o contexto de vida de cada pessoa — elementos centrais para um diagnóstico responsável.





