Calor e fumaça em Manaus: alerta para risco à saúde de quem trabalha nas ruas

Quem trabalha nas ruas de Manaus enfrenta, nos últimos dias, uma combinação que vai além do desconforto: calor intenso e fumaça. Mototaxistas, entregadores, vendedores ambulantes e outros profissionais que passam horas expostos ao ambiente externo respiram um ar carregado de partículas enquanto o corpo também lida com temperaturas elevadas.
O cenário ficou mais crítico nesta semana. Na terça-feira (22), Manaus registrou 38,6°C, a maior temperatura do ano até então. No dia seguinte, sensores de qualidade do ar da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) registraram concentrações de material particulado em níveis classificados como “péssimos” em diferentes pontos da capital.
A fumaça que cobre a cidade está relacionada às queimadas no Amazonas e em áreas próximas. O material particulado fino, conhecido como MP2,5, preocupa por penetrar profundamente no sistema respiratório. O Ministério da Saúde alerta que a exposição prolongada a altas concentrações desse poluente pode agravar doenças respiratórias e cardiovasculares preexistentes e aumentar atendimentos e hospitalizações.
Impacto no coração
Para o cardiologista Aristóteles de Alencar Filho, a preocupação não fica restrita aos pulmões. Segundo ele, partículas presentes na fumaça podem ser absorvidas pelo aparelho respiratório e alcançar a circulação sanguínea.
“O mecanismo principal é a inflamação endotelial, a camada interna que reveste as artérias”, explica o médico.
A exposição à fumaça também inclui gases provenientes da combustão de diferentes materiais. No trânsito, quem trabalha sobre duas rodas ainda fica exposto à poluição produzida pelos veículos.
Para quem permanece horas nessas condições, alguns sintomas devem ser tratados como sinais de alerta. Aristóteles cita dificuldade para respirar, dor no peito, palpitações e tontura. A recomendação é não insistir na atividade diante desses sinais e procurar atendimento médico.

Aristóteles Comte de Alencar Filho, médico cardiologista da UFAM.
Calor também pesa
A combinação com temperaturas elevadas aumenta a preocupação. Em setembro, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) já havia alertado que a associação entre baixa qualidade do ar, altas temperaturas e poluição pode provocar desidratação e complicações pulmonares e cardíacas.
Para quem não consegue deixar de trabalhar nas ruas, o cardiologista recomenda reduzir ao máximo a exposição à fumaça, usar máscara adequada e manter a hidratação.
A orientação também vale para quem não trabalha na rua. Em dias de qualidade do ar muito ruim, a Semsa recomenda evitar exercícios ao ar livre, principalmente atividades que aumentem a frequência respiratória, como corrida, caminhada e ciclismo.
O Ministério da Saúde recomenda, quando a exposição for inevitável, o uso de máscaras do tipo N95, PFF2 ou P100, corretamente ajustadas ao rosto, além da ingestão regular de água e da redução de esforços físicos ao ar livre. A orientação é especialmente importante para idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas.
Em Manaus, o problema não é apenas sentir a fumaça ou o calor. Para quem passa horas diariamente nas ruas, a exposição prolongada coloca o organismo diante de uma combinação de fatores ambientais que exige atenção, principalmente quando surgem sinais como falta de ar, dor no peito, palpitações ou tontura.





