Como Pelé transformou a camisa 10 no maior símbolo do futebol mundial

Vestir a camisa 10 representa muito mais do que ocupar uma posição em campo. O número é hoje sinônimo de talento, liderança e protagonismo, mas nem sempre foi assim.
Nos primórdios do futebol, jogadores e torcedores não davam grande importância às numerações, que tinham pouco simbolismo. Implementada no fim da década de 1930, a identificação numérica servia apenas para facilitar o reconhecimento dos atletas durante as partidas.
O sistema de numeração por posição
Na época, os times utilizavam o esquema tático 2-3-5, em que cada posição correspondia a um número específico. O goleiro vestia a camisa 1; os defensores, as camisas 2 e 3; os meio-campistas usavam do 4 ao 6; enquanto os atacantes ficavam com as camisas de 7 a 11. O número 10 era apenas mais um entre os jogadores do setor ofensivo.

A estreia de Pelé e o início da mudança
A história começou a mudar em 1956, quando o jovem Pelé estreou pelo Santos. Inicialmente no banco, o atacante ganhou espaço após o titular da camisa 10, Vasconcelos, sofrer uma grave fratura na perna durante uma partida contra o São Paulo. A partir daquele momento, o adolescente nascido em Três Corações passou a vestir o número que marcaria a história do futebol.

A Copa do Mundo de 1958 e o sorteio da numeração
Dois anos depois, veio a Copa do Mundo da Suécia. Curiosamente, Pelé não estava acostumado a jogar com a camisa 10. Nas categorias de base do Bauru Atlético Clube e até nos primeiros treinamentos da Seleção Brasileira, ele utilizava a camisa 8 e não esperava ser titular e muito menos vestir a camisa 10.
Há várias versões de como Pelé recebeu o número 10 no Mundial de 1958. Muitos citam aleatoriedades como o número da mala dos jogadores, número na lista de voo para Suécia. A mais aceita aponta que a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) não enviou à Fifa a numeração dos jogadores dentro do prazo, fazendo com que a entidade distribuísse os números através de sorteio.


O legado construído em campo
Independentemente da origem, o destino fez da relação Pelé e camisa 10 um símbolo eterno no esporte. Com apenas 17 anos, Pelé quebrou recordes e marcou seis gols na Copa do Mundo, incluindo dois na vitória por 5 a 2 sobre a Suécia na decisão. Ali era o início de uma época de ouro na Seleção Brasileira e de uma carreira que iria encantar o planeta com um futebol jamais visto até então.
“O número 10, todo mundo fala: antes do Pelé, era só um número. Eu nem sabia que tinha essa importância, mas realmente depois que nós fomos campeões do mundo em 1958, (eu era o) jogador mais novo com 17 anos e o número 10…”, reconheceu o aniversariante em entrevista à série “Identidade FS”, do canal Foras de Série.
(Vídeo: Reprodução/Canal Foras de Série) – Pelé fala sobre a camisa 10 na Copa de 1958
A partir daquele Mundial, a camisa 10 deixou de ser apenas um número para representar o principal jogador de uma equipe. Pelé consolidou esse legado ao conquistar três Copas do Mundo, marcar mais de mil gols e construir uma carreira considerada a mais vitoriosa da história do futebol.
Pelé reconhecia a transformação que ajudou a criar. Em entrevistas, costumava dizer que, antes dele, “o número 10 era apenas um número”. Com o passar das décadas, o legado atravessou gerações. Grandes nomes como Diego Maradona, Zico, Michel Platini, Zinedine Zidane, Ronaldinho Gaúcho, Lionel Messi e Neymar vestiram a camisa 10, reforçando a tradição iniciada por Pelé.

A expressão “camisa 10” ultrapassa as quatro linhas. Ela passou a ser utilizada para definir pessoas que se destacam em qualquer profissão, simbolizando excelência, criatividade e capacidade de liderança. Um legado construído por Pelé que transformou um simples número em um dos maiores ícones da história do esporte.





