“Cabeça Dinossauro”: o disco que questionou toda uma geração e levou os Titãs ao topo do rock nacional

(Foto: reprodução)
Na madrugada do dia 13 de novembro de 1985 o guitarrista Tony Belloto e o cantor Arnaldo Antunes, ambos membros da banda de rock Titãs, eram presos por porte e tráfico de drogas. Tudo começou quando Belloto foi pego em uma blitz policial levando heroína para consumo próprio. Na delegacia, o músico confessou que obteve a droga com seu companheiro de banda, o que culminou na sua prisão. Tony Belloto foi liberado no dia seguinte, mas Arnaldo ficou preso por um mês, sendo autuado por porte e tráfico de drogas.

De acordo com a biografia da banda “Titãs – A Vida até parece uma festa”, o episódio foi uma tragédia para o grupo, mas também a faísca para que a banda, que também contava como Marcelo Fromer, Nando Reis, Charles Gavin, Sérgio Britto, Paulo Miklos e Branco Mello, partissem para o tudo ou nada que mudaria para sempre a trajetória da banda e daria origem ao seu cultuado disco “Cabeça Dinossauro”, que completa 40 anos em 2026.
O livro explica que o ano de 1985 foi difícil para o grupo. Naquele ano eles lançaram o seu segundo LP, “Televisão”, que ia mal de vendas, apenas 25 mil cópias, considerado um fracasso para o mercado da época. Os Titãs haviam despontado em 1984 com sua coreografia engraçada e figurino extravagante, cantando “Sonifera Ilha” nos principais programas de auditório do Brasil. Apesar do sucesso radiofônico da música, o LP “Titãs” vendeu apenas 50 mil cópias, o que também não foi um número satisfatório para a Warner Music, gravadora da banda.
A prisão de Arnaldo e Tony foi um escândalo para a época, resultando no cancelamento de diversos shows e boicote em programas de rádio. Somente o apresentador Fausto Silva, na época a frente do programa “Perdidos da Noite” na Bandeirantes, apoiou os Titãs. Em 2021 Nando Reis comentou a fase em seu canal do Youtube. A situação era tão difícil que, segundo o cantor; “havia mais pessoas em cima do palco do que na plateia” nas apresentações dos Titãs.
Como era de praxe nas gravadoras, a banda havia assinado um com trato para três discos, e após o fracasso comercial de “Titãs” e “Televisão”, o terceiro disco poderia selar prematuramente a trajetória da banda. A prisão de Arnaldo e Tony foi o ponto de partida para o conceito transgressor do terceiro álbum da banda, que ao contrário da sonoridade mais leve e radiofônica do passado, este seria mais áspero, sujo e agressivo.

O intuito de “Cabeça Dinossauro” era questionar e afrontar tudo aquilo que era dito como ordem vigente do período. As letras acompanham a agressividade das guitarras, criando um discurso mais político, algo que ainda era incomum naquele período, já que o Brasil vivia a transição da ditadura militar para a redemocratização. O álbum foi produzido pelo produtor musical Liminha, que era apontado como o responsável pelo sucesso de outras bandas da época, como Kid Abelha e Os Paralamas do Sucesso.
Mesmo com a censura perdendo a força, ela ainda era capaz de causar algum dano em alguma obra, o que não ocorreu nesse disco. Uma das faixas, “Bichos Escrotos”, trazia um palavrão em seu refrão, e embora o governo militar tenha liberado a faixa para gravação, a capa do disco trazia um aviso que diz que “Bichos Escrotos tinha sua radiodifusão proíba”, com as rádios sujeitas a multas em caso de execução. Mesmo assim, as estações aceitaram correr o risco e tocaram a canção assim mesmo.
A crítica a instituições e modelos econômicos estava presente em cada uma das faixas, entre elas “Polícia”, escrita por Belloto após a sua prisão, a canção se tornou um hit, bem como a faixa “Igreja”, que causou alvoroço no Bispo de São Paulo quando ouviu na rádio os versos “Eu não gosto de Bispo. Eu não gosto de Cristo. Eu não digo amém”.
A falta de fé nas instituições publicas também geraram outras letras críticas, como “Porrada”, bem como a crítica ao capitalismo selvagem era cantada em “Homem Primata”, e o conformismo de uma geração era expressado em “AAUU” e “To Cansado”.

“Cabeça Dinossauro” foi lançado em 1986 e já no show de lançamento, em São Paulo, a banda sentiu a força de sua nova obra. Pela primeira vez o público lotava as casas de show, cantando todas as músicas do novo LP, algo que, conforme relembra Sérgio Britto “nunca havia acontecido em nenhum outro show nosso”. A banda só percebeu que “Cabeça Dinossauro” de fato havia se tornado uma sensação quando o disco os levou para Salvador e encontrou um público que conhecia, não só as músicas do novo disco, como também dos dois trabalhos anteriores.
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No total, “Cabeça Dinossauro” vendeu 250 mil cópias, alcançando a certificação disco de platina. Com isso, a banda rapidamente alcançou o status de uma das maiores bandas de rock do Brasil, renovando seu contrato com a Warner, o que gerou outros discos de sucesso nos anos seguintes, como “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, “Go Back” e “Õ Blesq Blom”.
Mais do que consolidar os Titãs, “Cabeça Dinossauro” se tornou um dos discos de rock mais importantes do país. Outras bandas se inspiraram no som pesado, crítico e contestador do disco para lançar trabalhos iguais. No ano seguinte a Legião Urbana traria “Que País É Esse”, com um discurso parecido. Outra banda que pegou carona nesse sucesso foi o Ultraje a Rigor, no disco “Sexo” que rivalizou diretamente com os Titãs na época.

Em 2007 a revista Rolling Stone Brasil publicou uma matéria elegendo os 50 discos mais importantes do Brasil, e elegeu o “Cabeça Dinossauro” no 19 º posição, inclusive sendo cultuado por outras bandas que vieram depois, como Skank, Raimundos, Jotas Quest e Charlie Brown Jr.






