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“Six-seven”: o que um número sem sentido diz sobre como a geração Z se comunica

De "brainrot" a ferramenta de pertencimento, entenda por que os jovens se comunicam por meio de memes
15/04/26 às 07:17h
“Six-seven”: o que um número sem sentido diz sobre como a geração Z se comunica

(Foto: Reprodução)

O número “6-7”, pronunciado “six-seven”, se espalhou pelas redes sociais em 2025 sem que a maioria dos adultos conseguisse entender o que ele significava. A expressão, repetida em vídeos no TikTok e no Reels do Instagram  com um tom arrastado e um gesto característico das mãos, tornou-se um dos memes mais virais entre os jovens da Geração Z.

O que parecia apenas mais uma brincadeira sem sentido revelou, na verdade, um fenômeno mais profundo: a forma como essa geração constrói sua própria linguagem, acelera a criação de códigos culturais e utiliza o “humor nonsense” (sem sentido) como ferramenta de pertencimento e identidade.

A origem do meme citado está na música “Doot Doot (6 7)”, do rapper americano Skrilla, lançada oficialmente em fevereiro de 2025. O refrão, que apenas repete o número, foi associado a vídeos do jogador de basquete LaMelo Ball, que tem 2,01 metros de altura, o equivalente a 6 pés e 7 polegadas no sistema americano.

A partir daí, o “six seven” deixou de ser uma referência específica, possivelmente ligada à rua 67 da Filadélfia ou ao código policial “10-67”, para se tornar uma expressão fática, ou seja, uma frase que não transmite informação, mas sim um sentimento de pertencimento, ironia ou absurdo.

Skrilla e LaMelo Ball (Fotos: Reprodução)

O “brainrot” como linguagem

A expressão representa uma categoria de humor que os próprios jovens chamam de “brainrot”, algo como “apodrecimento cerebral”, conteúdos tão repetitivos, absurdos e nonsense, que parecem derreter o cérebro de quem consome. Mas, para os especialistas, há método nessa aparente loucura.

O estudo “80% da Geração Z acredita que memes facilitam conexões”, realizado pelo InstitutoZ em parceria com a Saquinho Mídias Criativas, ouviu 1.479 jovens de 13 a 27 anos e revelou dados expressivos. Mais de 80% dos entrevistados afirmaram que os memes ajudam na socialização, e mais da metade concordou que eles contribuem para o senso de pertencimento em comunidades.”

O estudo também apontou que 46% dos jovens levam os memes para além do ambiente virtual, usando-os também em interações presenciais.

De acordo com os pesquisadores, é inegável que o meme é uma ferramenta de conexão de comunidades que partilham de interesses em comum. O meme funciona como linguagem de associação, permite expressar ideias complexas mesmo na ausência de palavras corretas e cria pertencimento entre grupos de pessoas que partilham as mesmas referências.


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Aceleração digital

Entre os termos que fazem parte desse novo vocabulário, o “brainrot” se destaca como a estética do absurdo, enquanto “mogado”, que significa ser superado ou humilhado por alguém em algum aspecto, reflete a cultura de comparação e performance on-line. Geralmente, o termo vem acompanhado de outro fenômeno da internet: o “beta”, com origem na franquia “Matrix” e popularizado pela comunidade RedPill, é usado para inferiorizar, como o clássico “perdedor”.

(Fotos: Reprodução)

Se antes as gírias e os códigos entre gerações levavam anos para se consolidar, hoje o ciclo se mede em meses, ou até semanas. Os dados ajudam a explicar essa aceleração.

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Cetic.br e NIC.br, mostra que 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos (cerca de 24,5 milhões) usam a internet, sendo o celular o principal meio de acesso (96%). A maioria (85%) possui perfil em plataformas digitais, com destaque para WhatsApp e YouTube, seguidos por Instagram e TikTok. O estudo também aponta que 65% dos jovens já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa, principalmente para estudos (59%) e busca de informações (42%), evidenciando a forte presença da tecnologia no cotidiano da Geração Z e sua influência em práticas digitais como a criação de memes.

Um produto que teve origem a partir dessa nova cultura digital entre os jovens é a “novela de frutas”, como ficou conhecida a série de vídeos criados por IA em que frutas interpretam personagens em histórias semelhantes a de telenovelas. Os amantes “Moranguete” e “Abacatudo” são dois dos persongens que apareceram nos feeds de milhões de usuários do Instagram e TikTok nas últimas semanas.

(Fotos: Reprodução)

Gerações cresceram em mundos diferentes

Para os Millennials, nascidos entre 1981 e 1996, o meme era um formato de piada, algo que se consumia e compartilhava. Para a Geração Z, nascida entre 1995 e 2010, o meme é linguagem primária de comunicação e socialização.

Um exemplo recente que escancara o abismo geracional em torno desse meme aconteceu no talk show americano The Tonight Show Starring Jimmy Fallon. Os integrantes do BTS, boy band sul-coreana que estourou nos anos 2010, conversavam com o apresentador quando, de forma despretensiosa, RM mencionou os números 6 e 7, referindo-se aos anos em que eles moraram juntos durante a formação do grupo.

Imediatamente, a plateia, majoritariamente composta por jovens da Geração Z, começou a gritar e a fazer o gesto característico do “six seven” com as mãos. Os membros do BTS, que pertencem majoritariamente à geração millennial (nascidos entre 1991 e 1997), ficaram visivelmente confusos, sem entender o motivo da reação.

@fallontonight

Things go off the rails when RM mentions 6 7 😭 @BTS #FallonTonight #BTSonFallon #TonightShow #BTS #67

♬ original sound – FallonTonight

Como aponta o estudo do InstitutoZ, 92% dos jovens consomem memes por diversão, mas a principal função vai além do entretenimento: representa  a capacidade de criar códigos próprios, de se diferenciar das gerações anteriores e de construir identidade coletiva em um mundo hiperconectado.

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