Renúncia do presidente do Paraguai pode afetar relação com Brasil?

A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciada nesta quinta-feira (5/11), abre um período de incertezas políticas no país e pode repercutir nas relações diplomáticas e econômicas com o Brasil. A mudança de governo ocorre em meio à crise envolvendo o Ueno Bank e às negociações sobre a usina hidrelétrica de Itaipu.
Os possíveis impactos envolvem três áreas estratégicas: política externa, comércio bilateral e energia. A transição também levanta dúvidas sobre a continuidade dos compromissos assumidos pelo governo paraguaio com o Brasil.
Partido Colorado no poder
Pela ordem de sucessão, o vice-presidente Pedro Alliana é o nome indicado para assumir a Presidência. Integrante do Partido Colorado, ele foi eleito na mesma chapa de Peña, em 2023, e já desempenhava funções relacionadas à política externa do governo.
A eventual mudança de comando não representa necessariamente uma alteração na orientação política do país. Alliana pertence ao mesmo partido que governa o Paraguai há quase sete décadas e mantém vínculos com as principais lideranças da legenda, incluindo o ex-presidente Horacio Cartes.
A situação institucional, porém, depende da conclusão dos procedimentos no Congresso paraguaio. A renúncia precisa ser formalmente aceita, enquanto o processo de impeachment também avançou na Câmara dos Deputados.
Relação diplomática com o Brasil
A mudança de comando ocorre em um momento de negociações importantes entre Brasil e Paraguai. Os dois países mantêm uma agenda conjunta que envolve Itaipu, comércio exterior, integração regional e participação no Mercosul.
Pedro Alliana já participou diretamente de episódios diplomáticos com o governo brasileiro. Em uma ocasião, reuniu-se com o embaixador do Brasil no Paraguai após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança.
Na ocasião, Alliana afirmou que Brasil e Paraguai compartilham uma história de cooperação e interesses comuns, destacando a importância do Mercosul e da usina binacional.
A continuidade dessa relação será um dos pontos observados pelo governo brasileiro durante a transição. A mudança presidencial também poderá exigir a reorganização dos canais de negociação e a confirmação de compromissos assumidos pela administração anterior.
Confiança de investidores
No campo econômico, um dos principais pontos de atenção é a imagem do Paraguai como destino de investimentos estrangeiros.
O país vinha atraindo empresas e investidores interessados em sua expansão econômica, inclusive brasileiros. Entretanto, a crise envolvendo o Ueno Bank e as denúncias de irregularidades relacionadas a recursos públicos colocaram em discussão a segurança institucional e a fiscalização do sistema financeiro paraguaio.
A crise pode aumentar a cautela dos investidores até que haja maior clareza sobre a sucessão política, a investigação envolvendo o banco e a atuação das instituições de fiscalização.
A relação comercial com o Brasil também merece atenção. Em 2024, o intercâmbio entre os dois países alcançou US$ 7,2 bilhões, com superávit brasileiro de US$ 273 milhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior, divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Entre os principais produtos comercializados estão máquinas, fertilizantes, veículos e energia elétrica. A continuidade desses negócios depende da manutenção dos acordos comerciais e da estabilidade das relações institucionais.
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Itaipu
Na área energética, a principal preocupação envolve as negociações sobre o Anexo C do Tratado de Itaipu, documento que estabelece as bases financeiras e comerciais da usina compartilhada por Brasil e Paraguai.
Os dois países negociam mudanças nas regras de comercialização da energia e na definição da tarifa a partir de 2027. O entendimento firmado em 2024 estabeleceu que o valor deverá refletir os custos operacionais da hidrelétrica.
As tratativas, entretanto, enfrentam dificuldades. Em setembro, a CNN Brasil informou que as negociações estavam paradas e que o governo brasileiro trabalhava internamente com a possibilidade de uma tarifa de US$ 15 por kW/mês em 2027, acima da faixa de US$ 10 a US$ 12 anteriormente associada ao custo operacional da usina.
A saída de Peña pode acrescentar uma nova etapa às negociações, já que o próximo governo terá de definir sua posição sobre os termos financeiros de Itaipu. O tema é estratégico para o Brasil porque envolve diretamente o custo da energia e a disponibilidade de eletricidade para o sistema nacional.
Brasil e Paraguai
A transição presidencial coloca três questões no centro da agenda bilateral:
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Diplomacia: continuidade das relações com o governo brasileiro e dos compromissos no Mercosul.
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Economia: manutenção da confiança dos investidores e dos acordos comerciais, especialmente com empresas brasileiras.
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Energia: definição das novas condições financeiras de Itaipu e das regras para comercialização da eletricidade a partir de 2027.
Até o momento, não há anúncio de rompimento de acordos ou alteração formal das negociações entre Brasil e Paraguai em decorrência da saída de Peña.
O principal ponto de atenção será a posição adotada pela nova administração diante dos compromissos já assumidos, especialmente na revisão das condições financeiras e comerciais do Tratado de Itaipu.





