Notoriedade já não basta na corrida pelo Governo do Amazonas, avalia especialista

A pouco mais de três meses para as eleições, a corrida pelo Governo do Amazonas em 2026 caminha para um cenário incomum: os principais concorrentes já são amplamente conhecidos pelos eleitores. Nas redes sociais, porém, a disputa deixou de ser apenas por visibilidade e passou a ser uma tentativa de transformar reconhecimento em narrativa política, com cada pré-candidato tentando se apresentar como solução para o futuro do estado. Mas, segundo especialistas, ainda existe uma distância entre ser conhecido e conseguir consolidar uma imagem capaz de gerar confiança e voto.
Na avaliação do cientista político Guilherme Otaviano, doutorando em Políticas e Administração Pública pela State University of New York e mestre em Políticas Públicas e Governo pela FGV, esse movimento marca uma mudança central no processo eleitoral.
“Uma coisa não elimina a outra. A trajetória política ajuda na primeira impressão, mas não basta mais. Os nomes já são conhecidos. A disputa agora é quem consegue explicar melhor o que pretende fazer com o Estado”, afirmou à Rede Onda Digital.

Entre os principais nomes do cenário estão o senador Omar Aziz (PSD), o ex-prefeito de Manaus David Almeida (Avante), a empresária Maria do Carmo Seffair (PL) e o governador Roberto Cidade (União Brasil), que assumiu o Executivo em mandato-tampão. Um levantamento das redes sociais abertas dos pré-candidatos mostra que cada um deles já estrutura uma forma própria de “venda política” no ambiente digital, indo além da exposição de agenda para construir imagens específicas de futuro.
Embora representem campos políticos diferentes, Guilherme Otaviano avalia que os candidatos ainda são percebidos mais pelas suas histórias pessoais e alianças políticas do que pelas propostas que defendem.
“O eleitor ainda identifica mais esses nomes pelas trajetórias e pelos grupos políticos do que por projetos muito claros. O Brasil é marcado pela personificação da política. As pessoas sabem quem são os candidatos, mas não necessariamente sabem o que eles pretendem fazer ao chegar ao governo”, explicou.
É justamente nesse cenário que as redes sociais passaram a assumir um papel que vai além da visibilidade. Cada pré-candidato tenta associar sua imagem a atributos capazes de convencer o eleitor e transformar capital político em expectativa de futuro.
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Enquanto Omar Aziz procura reforçar a imagem de experiência e capacidade de articulação, apoiado na influência no interior, na ampla rede de alianças e na defesa da Zona Franca de Manaus, David Almeida aposta nos resultados da gestão em Manaus e no discurso de que as entregas realizadas na capital podem ser reproduzidas em todo o estado.
Maria do Carmo Seffair busca se consolidar como principal nome do campo conservador no Amazonas. Com discurso alinhado ao bolsonarismo, a empresária se apresenta como uma alternativa de ruptura e aposta na experiência da iniciativa privada para defender um modelo de gestão mais eficiente. Já Roberto Cidade tenta capitalizar a visibilidade do mandato-tampão à frente do Governo do Amazonas, associando sua imagem à continuidade administrativa e à capacidade de entrega da máquina pública.
Mas será que o eleitor consegue captar essa imagem que eles tentam passar?

Na visão de Igor Castro, fundador do Instituto de Pesquisas Direto ao Ponto, existe uma diferença importante entre reconhecer um nome e de fato conhecer o candidato.
“Quando alguém diz ‘já ouvi falar’, significa reconhecimento, mas isso não quer dizer que saiba o que o candidato fez ou o que defende”, explicou.
Ele afirma que, nas pesquisas, o senador Omar Aziz aparece como um nome amplamente conhecido, mas ainda em processo de consolidação mais profunda junto ao eleitorado. Já o governador Roberto Cidade surge com desempenho eleitoral considerado acima do seu nível de conhecimento mais detalhado, o que indica espaço para crescimento. Maria do Carmo Seffair ainda enfrenta o desafio de ampliar o reconhecimento, enquanto David Almeida tem alta popularidade, mas precisa transformar visibilidade em confiança.
Para o analista, essa conversão depende de três fatores: capacidade, confiança e identificação com os problemas da população. “O eleitor só transforma conhecimento em voto quando acredita que o candidato pode resolver sua vida”, concluiu.
Para Guilherme Otaviano, diferentes perfis podem encontrar espaço no eleitorado, dependendo das prioridades do momento. A experiência administrativa tende a atrair eleitores que buscam segurança e capacidade de gestão, enquanto discursos de renovação ganham força especialmente em cenários de desgaste com grupos políticos tradicionais.
“Experiência administrativa costuma ser importante para quem busca segurança e capacidade de entrega. Mas a renovação também tem força, especialmente quando existe um cansaço com os mesmos grupos de sempre”, disse.
Outro fator considerado relevante pelo cientista político é a rejeição dos candidatos. Ele avalia que, em uma disputa fragmentada, evitar resistência pode ser tão decisivo quanto liderar as intenções de voto. Para ele, a polarização nacional também pode influenciar o ambiente eleitoral no Amazonas.
Na avaliação de Igor Castro, o cenário aponta para uma disputa ainda em fase de consolidação do eleitorado, em que o reconhecimento dos nomes não se traduz automaticamente em decisão de voto. Para ele, a eleição passa por um processo gradual de transformação da imagem pública em confiança.
“A diferença entre reconhecer e conhecer é fundamental. Saber quem é o candidato não significa confiar nele ou saber o que ele propõe. O eleitor só transforma isso em voto quando acredita que aquele nome pode resolver problemas reais”, afirmou.
Com isso, a leitura dos especialistas indica que a eleição de 2026 no Amazonas deve ser definida menos pela visibilidade dos candidatos e mais pela capacidade de cada um converter imagem pública em credibilidade junto ao eleitorado.





