Machismo e violência política desafiam participação feminina

Embora as mulheres representem a maioria do eleitorado amazonense (51%), elas ainda ocupam uma parcela reduzida dos cargos eletivos no estado. Ouvidas pela reportagem, quatro pré-candidatas de diferentes partidos afirmam que a baixa representatividade feminina resulta de fatores como machismo estrutural, violência política de gênero, desigualdade no acesso aos recursos partidários e sobrecarga de responsabilidades no cotidiano.
As entrevistadas, apesar de pertencerem a diferentes espectros políticos, convergem na avaliação de que ampliar a presença feminina na política depende de mudanças estruturais dentro dos partidos e da criação de condições para que mais mulheres disputem eleições em igualdade de oportunidades.
Exposição pública e redes sociais

Pré-candidata a deputada federal pelo Avante, Shádia Fraxe afirma que muitas mulheres ainda evitam ingressar na política devido à exposição pública.
“Isso acontece justamente pelo estigma, pela exposição”, afirmou.
Segundo ela, a preocupação em proteger a família, a casa e os filhos influencia essa decisão. Fraxe também considera que o ambiente das redes sociais contribui para afastar novas lideranças femininas.
“Hoje em dia a gente tem algumas inversões de valores nas redes sociais, onde viraram verdadeiros tribunais”, declarou.
Falta de investimento partidário

A pré-candidata a deputada estadual pelo PT, Michelle Andrews, avalia que a sub-representação feminina também está relacionada à estrutura interna dos partidos.
“Os espaços políticos são dominados por homens, o poder está associado à figura masculina”, afirmou.
Na avaliação dela, a ampliação da participação feminina depende de investimentos permanentes em formação política e fortalecimento de novas lideranças.
“Sem investimento financeiro e de tempo, isso não vai acontecer”, declarou.
Michelle também destaca que muitas mulheres enfrentam dupla jornada de trabalho e convivem com estereótipos que restringem sua participação nos espaços de decisão.
Barreiras internas e violência política

Pela pré-candidata do PCdoB, Marília Freire, práticas como candidaturas fictícias utilizadas apenas para cumprir a legislação eleitoral prejudicam o avanço da representação feminina.
“Enquanto as mulheres continuarem enfrentando barreiras dentro dos partidos e violência política, a representação feminina seguirá abaixo do que a sociedade merece”, afirmou.
Marília defende que os partidos assegurem acesso igualitário aos recursos financeiros, ampliem os espaços de decisão e fortaleçam programas de formação política, além de adotarem mecanismos para combater ataques e intimidações contra mulheres que atuam na vida pública.

A deputada estadual Brena Dianná (União Brasil), possível candidata à reeleição, também aponta a violência política de gênero como uma das principais dificuldades enfrentadas por mulheres na disputa eleitoral.
“Muitas mulheres precisam enfrentar ataques que não são direcionados às suas ideias, propostas ou atuação pública, mas à sua condição de mulher”, afirmou.
Segundo ela, ampliar a participação feminina exige mais do que incentivar candidaturas.
“Não basta convidar mulheres para disputar eleições, é preciso dar condições reais para que elas possam competir em igualdade de condições”, declarou.
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Legislação busca ampliar participação
As mulheres conquistaram o direito ao voto no Brasil em 1932. Atualmente, a legislação eleitoral estabelece que os partidos devem reservar, nas eleições proporcionais, no mínimo 30% e no máximo 70% das candidaturas para cada sexo.
A Lei nº 14.192/2021 também instituiu mecanismos para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher, tipificando como crime condutas destinadas a impedir, dificultar ou restringir seus direitos políticos.
No Amazonas, o tema ganhou destaque recentemente. Em maio, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) manteve a cassação do mandato do vereador Elan Alencar por fraude à cota de gênero, reforçando o entendimento de que candidaturas femininas devem ser efetivas e não apenas cumprir exigências legais.
Outro episódio citado foi a denúncia feita por Anne Moura, que afirmou ter sido vítima de violência política de gênero durante as articulações internas do PT para a disputa da Prefeitura de Manaus em 2024. Os dois casos evidenciam desafios distintos relacionados à efetivação da participação política das mulheres.





