Direita supera esquerda em novo levantamento do Datafolha; especialista analisa cenário

A pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (3/7) trouxe uma mudança importante no cenário político brasileiro. Pela primeira vez desde 2014, os eleitores identificados com a direita voltaram a superar os que se posicionam à esquerda. O levantamento aponta que 44% dos brasileiros se enquadram como direita ou centro-direita, enquanto 39% se identificam com a esquerda ou centro-esquerda. Outros 17% ocupam posição de centro.
O resultado representa uma inversão em relação a 2022, quando a esquerda aparecia com 49% e a direita com 34%, refletindo as transformações ocorridas ao longo dos últimos anos de intensa polarização política no país.
Diferentemente de pesquisas em que o entrevistado escolhe se é de direita ou de esquerda, o Datafolha utilizou uma metodologia baseada em 16 perguntas sobre economia, segurança pública, impostos, religião, costumes, pobreza, criminalidade, papel do Estado e outros temas para posicionar ideologicamente os entrevistados.
Para o cientista político Guilherme Otaviano, doutorando em Políticas e Administração Públicas pela State University of New York e mestre em Políticas Públicas e Governo pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o resultado não deve ser interpretado apenas como uma mudança de lado do eleitor brasileiro.
“ESSA PESQUISA DEVE SER LIDA MENOS COMO UMA VIRADA IDEOLÓGICA SIMPLES DO ELEITORADO BRASILEIRO E MAIS COMO UM RETRATO DE UMA REACOMODAÇÃO DAS PREFERÊNCIAS POLÍTICAS NO PAÍS”, AFIRMOU EM ENTREVISTA À REDE ONDA DIGITAL.
Segundo ele, embora o fato de a direita aparecer numericamente à frente da esquerda seja relevante, é preciso observar como o levantamento foi construído.
“ELA NÃO É UMA PESQUISA DE AUTODECLARAÇÃO IDEOLÓGICA. O INSTITUTO CLASSIFICA OS ENTREVISTADOS A PARTIR DAS RESPOSTAS DADAS A 16 PERGUNTAS SOBRE COMPORTAMENTO, ECONOMIA, SEGURANÇA, RELIGIÃO, CRIMINALIDADE, POBREZA, IMPOSTOS E OUTROS TEMAS”, EXPLICOU.
Conservador nos costumes, mas favorável ao Estado
Na avaliação do pesquisador, o crescimento da direita ocorre principalmente no campo dos valores sociais e comportamentais.
“O AVANÇO DA DIREITA SE DÁ SOBRETUDO NO CAMPO COMPORTAMENTAL. HÁ UMA INCLINAÇÃO MAIOR PARA POSIÇÕES CONSERVADORAS EM TEMAS COMO COSTUMES, SEGURANÇA PÚBLICA E RELIGIÃO.”
Ele ressalta, porém, que isso não significa que o eleitor brasileiro tenha aderido ao liberalismo econômico.
“ISSO NÃO QUER DIZER QUE O ELEITORADO TENHA SE TORNADO MAJORITARIAMENTE LIBERAL NA ECONOMIA. PELO CONTRÁRIO. A PRÓPRIA PESQUISA MOSTRA EXPECTATIVAS DE MAIOR PRESENÇA DO ESTADO, PROTEÇÃO SOCIAL E INVESTIMENTOS PÚBLICOS.”
Segundo Otaviano, essa combinação de posições consideradas contraditórias é, na verdade, uma característica do eleitor brasileiro.
“O ELEITOR MÉDIO BRASILEIRO CONSEGUE SER CONSERVADOR NOS COSTUMES, DEFENDER MAIOR CONTROLE DA CRIMINALIDADE E CRITICAR IMPOSTOS, MAS, AO MESMO TEMPO, APOIAR DIREITOS TRABALHISTAS, PROGRAMAS SOCIAIS E MAIOR PARTICIPAÇÃO DO GOVERNO NO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO.”
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Centro continua sendo maioria
Para o cientista político, o aspecto mais importante do levantamento pode não estar na vantagem da direita sobre a esquerda, mas na dimensão do eleitorado moderado.
Somando centro-esquerda (26%), centro (17%) e centro-direita (29%), esse grupo representa cerca de 72% dos brasileiros. Já os segmentos mais ideológicos — esquerda (13%) e direita (15%) — somam apenas 28%.
“Apesar da aparência de polarização, a maior parte do eleitorado brasileiro não está nos extremos. Ela está nas zonas intermediárias, híbridas e frequentemente ambivalentes.”
Segundo ele, essa característica ajuda a explicar por que a polarização política nem sempre representa uma radicalização da sociedade.
“Essa informação é decisiva porque permite separar polarização política de radicalização social”, destaca.
Reflexos para as eleições de 2026
Embora o levantamento mostre um ambiente mais favorável à direita em determinados temas, Otaviano afirma que isso não garante vantagem eleitoral automática.
“A pesquisa não significa necessariamente favoritismo de um campo sobre outro. Ela indica um ambiente ideológico mais favorável para alguns discursos, mas eleições são disputas concretas, com candidatos concretos e em condições específicas.”
Na avaliação do especialista, o comportamento do eleitor brasileiro continua sendo fortemente influenciado pela imagem e pela confiança transmitida pelos candidatos.
“As propostas importam, as pautas importam, a ideologia importa, mas elas não operam sozinhas. O eleitor ainda vota muito pela confiança, pela simpatia e pela personalidade do candidato.”
Por isso, ele acredita que o centro continuará sendo o principal alvo das campanhas eleitorais.
“A disputa deve depender menos da conversão ideológica dos extremos e mais da capacidade de conquistar o eleitor que hoje está no centro ou próximo dele.”
Para o cientista político, a sondagem reforça que, apesar de o discurso da polarização dominar o debate público, o eleitor brasileiro permanece plural, combinando posições conservadoras em algumas áreas e progressistas em outras. Na avaliação dele, esse cenário tende a manter o centro político como o principal campo de disputa nas eleições de 2026.
Sobre o estudo
A pesquisa ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 139 municípios brasileiros, nos dias 17 e 18 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-09956/2026.





