Quando o ataque vira meme: o jingle de Osmarzinho e os limites da propaganda política

Uma música criada para atacar um candidato a prefeito em 2016 voltou a circular dez anos depois, virou meme nacional e ainda inspirou uma versão direcionada ao senador Flávio Bolsonaro.
O jingle “Foi o próprio Osmarzinho” usava perguntas e respostas para associar o então candidato a uma série de acusações. A repercussão atual levou o conteúdo à Justiça e transformou uma antiga peça de campanha em fenômeno nas redes sociais.
O caso chama atenção também pelo resultado eleitoral de 2016. Osmar Vieira, o Osmarzinho (PT), disputou a Prefeitura de Cocal dos Alves (PI) contra Ivan, do PDT. Venceu com 51,73% dos votos, contra 48,27% do adversário — uma diferença de apenas 151 votos.
Osmar foi reeleito em 2020 e permaneceu no cargo até 2024. Não é possível afirmar que o jingle tenha influenciado o resultado, mas há uma ironia: o político que a música tentava desgastar acabou vencendo a eleição.
Para o analista político Afrânio Soares, o poder do jingle está na capacidade de permanecer na memória.
“Quando o jingle vira um viral, significa que as pessoas cantam o jingle, se divertem com o jingle. Na maioria das vezes, não é porque acham o jingle bonito ou não, é que ele fixa na cabeça”, explica.
“Você fecha os olhos para dormir e o jingle fica na cabeça, fica na cabeça, fica na cabeça”, completa.
Segundo Afrânio, essa repetição pode provocar reflexão e projetar uma imagem positiva ou negativa, embora não seja suficiente, sozinha, para determinar o voto.
“De certa forma, ele provoca algum tipo de reflexão. Ou seja, as pessoas começam a pensar no que o jingle está transmitindo, mas não é algo completamente decisivo”, afirma.
O analista destaca que jingles podem tanto promover candidatos quanto desgastar adversários. No caso de Osmarzinho, porém, a música reúne acusações envolvendo o político e familiares, além de supostos crimes. As afirmações presentes na letra não comprovam, por si só, que os fatos tenham ocorrido.
A repercussão levou Osmar à Justiça. A 4ª Vara Cível de Teresina determinou que Instagram e TikTok retirassem publicações com o jingle.
Para Afrânio, o conteúdo ultrapassa os limites da propaganda.
A Justiça mandou retirar o jingle do ar. Ainda assim, o episódio levanta uma questão para as eleições de 2026: até onde pode ir uma crítica política quando ela é transformada em música, meme e conteúdo viral?
O feitiço que voltou contra o feiticeiro?
Dez anos depois, o jingle que tentava desgastar Osmarzinho virou entretenimento e colocou novamente seu nome em circulação. A fórmula ainda foi reaproveitada em uma paródia contra Flávio Bolsonaro, transportando uma linguagem de campanha municipal de 2016 para a disputa política nacional.
Para Afrânio, essa capacidade de circulação pode trabalhar contra ou a favor de um político.
“Quando se torna viral, ele pode projetar negativamente ou positivamente”, resume.
A discussão, porém, vai além do poder de um jingle. Para o analista político Carlos Santiago, memes e músicas ganham espaço justamente em um cenário de baixa participação política cotidiana.
“Os memes são utilizados com muita eficiência para capturar a atenção e o voto do eleitorado”, afirma.
Na avaliação de Santiago, parte do problema está na falta de uma formação política mais presente na sociedade.
“Não se tem um pacto social envolvendo as instituições de formação escolar em que a política seja debatida como deveria ser em um país democrata”, diz.
Segundo ele, esse ambiente favorece a transformação da eleição em entretenimento.
“Políticos que não querem uma concentração cidadã, política, usam e abusam do humor dos memes para transformar o processo eleitoral, algo tão importante para o futuro do estado e do país, em um espetáculo de gracejos e de músicas, com algumas delas fora do contexto”, afirma.
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Santiago reconhece que humor e música fazem parte da liberdade de expressão e da participação popular, mas critica quando esses recursos substituem o debate.
“Na maioria dos casos não contribuem em nada para o esclarecimento das regras eleitorais, da importância de se votar de forma consciente e responsável”, avalia.
O caso do Osmarzinho mostra, portanto, as duas faces da comunicação política nas redes: uma mensagem simples pode alcançar milhões de pessoas e permanecer na memória, mas também pode transformar uma disputa eleitoral em entretenimento e reduzir o espaço para propostas e discussão política.
Em 2016, o jingle não impediu a vitória de Osmarzinho. Em 2026, voltou como meme e ganhou outro alvo.





