O retorno de José Melo no tabuleiro de David Almeida: ativo eleitoral ou teste de memória do eleitor?

O nome de José Melo como peça da articulação de David Almeida no interior do Amazonas revela mais do que uma composição de campanha. Trata-se de um movimento carregado de simbolismo político e de risco calculado. A trajetória de ambos se cruza desde os tempos em que David foi um dos principais defensores do governo Melo na Assembleia Legislativa, relação construída na lealdade que agora volta ao centro do palco a pouco meses das eleições de 2026.
Apesar de anos afastado do protagonismo, Melo mantém conhecimento profundo da dinâmica dos municípios do interior, região que historicamente decide eleições estaduais. Seu trânsito entre lideranças locais e a experiência acumulada em passagens pela Câmara dos Deputados, secretarias estaduais, vice-governo e Governo do Amazonas são vistos como ativos para uma campanha que precisará ampliar presença além da capital.
Em conversa com a Rede Onda Digital, José Melo confirmou a aproximação com David Almeida e resumiu, em poucas palavras, a disposição de colaborar com o projeto político do prefeito: “Vou ajudar ao David no que estiver ao meu alcance!”. A declaração reforça os sinais de reaproximação entre os dois e indica que o ex-governador pretende participar das articulações para 2026, embora ainda não tenha detalhado de que forma essa atuação ocorrerá.
A reportagem também procurou David Almeida para esclarecer qual será, na prática, o papel de José Melo em sua estratégia política para o interior do Amazonas e como avalia o impacto eleitoral dessa aliança diante do histórico político do ex-governador. Caso se manifeste, a expectativa é que pré-candidato explique tanto a função que Melo deverá exercer na construção de alianças quanto sua avaliação sobre os possíveis reflexos dessa aproximação perante o eleitorado.
Na avaliação do cientista político Raimundo Nonato, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e coordenador do Laboratório de Estudo do Comportamento e Racionalidade Política (LECORP), a movimentação segue uma lógica tradicional da construção de alianças eleitorais.
“Há uma máxima na política que diz: ‘apoio não se nega, negocia-se’. David Almeida busca agregar José Melo ao seu campo político para ampliar sua capacidade de articulação e fortalecer sua presença eleitoral no interior do estado”, analisa.
O peso do histórico
A reaproximação, porém, carrega desafios de imagem inevitáveis. O ex-governador teve o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), enfrentou investigações de grande repercussão e passou anos tentando reconstruir sua trajetória pública. Embora parte desses episódios tenha seguido diferentes caminhos na Justiça, o histórico permanece associado ao seu nome e tende a ser explorado por adversários durante a disputa.
A aposta de David Almeida indica que, no cálculo da campanha, o peso da articulação regional supera eventuais desgastes de narrativa. É uma escolha que sugere confiança na capacidade de Melo de dialogar com prefeitos, ex-prefeitos e lideranças comunitárias em municípios onde relações políticas de longo prazo ainda exercem forte influência eleitoral.
Para Raimundo Nonato, a estratégia também envolve um cálculo sobre o perfil do eleitorado. Segundo ele, o histórico político de José Melo pode representar uma vantagem no interior, que concentra aproximadamente 48% do eleitorado amazonense, justamente pela rede de relações construída ao longo de décadas de vida pública. Em contrapartida, na capital, o desgaste decorrente da cassação e dos desdobramentos da Operação Maus Caminhos tende a ser explorado pelos adversários de David Almeida durante a campanha.
A pergunta que o eleitorado responderá
A questão central, porém, já não é apenas o que Melo pode agregar a David Almeida. É outra: o eleitor enxergará Melo como um operador político experiente, capaz de abrir portas, ou como um personagem que remete a um capítulo que parte da política amazonense preferia deixar encerrado?
Na avaliação do cientista político, a resposta dependerá da capacidade da campanha de neutralizar esse passivo político.
“Os adversários certamente explorarão esse histórico, enquanto David Almeida aposta que uma parcela significativa do eleitorado não terá essa memória política como fator determinante do voto”, conclui.
A resposta pode dizer muito sobre o humor do eleitorado em 2026 e sobre a força que o passado ainda exerce sobre o futuro da política local.





