Mortes no trânsito: por que a segurança dos motociclistas deve entrar no debate eleitoral?

Em Manaus, a motocicleta deixou de ser apenas um meio de transporte. É instrumento de trabalho e sobrevivência para entregadores, mototaxistas e trabalhadores de aplicativos, usada para transportar passageiros, alimentos, medicamentos e mercadorias.
Por isso, o número de vítimas deveria ser tratado não apenas como uma questão de trânsito, mas também de trabalho, renda, saúde pública e desigualdade urbana.
De janeiro a julho de 2026, 11.820 motociclistas deram entrada na rede pública de saúde do Amazonas vítimas de sinistros de trânsito, segundo levantamento apresentado pelo engenheiro de trânsito Manoel Paiva. A média apontada é de 56 vítimas por dia, aproximadamente duas a cada hora.
Os dados do IMMU reforçam o alerta. Manaus registrou 21 mortes no trânsito em julho, contra 16 em junho, e os motociclistas representaram 52% das mortes daquele mês. No acumulado até julho, foram 149 vítimas fatais, cinco a mais que no mesmo período de 2025.
Quando o tempo vira fator de risco
Para quem trabalha sobre duas rodas, o tempo também faz parte do trabalho. Entregadores precisam cumprir prazos, mototaxistas dependem das viagens e trabalhadores de aplicativos precisam aumentar a produtividade para melhorar a renda.
A própria legislação federal reconhece esse risco. A Lei nº 12.436/2011 proíbe práticas que estimulem motociclistas profissionais a aumentar a velocidade, inclusive mecanismos de remuneração associados ao número de entregas. A Lei nº 12.009/2009 regulamentou as atividades de mototaxistas e motoboys.
O problema, portanto, não é apenas a existência de leis, mas como elas são fiscalizadas e adaptadas à realidade do trabalho por aplicativos. O Amazonas aprovou, em 2025, legislação para proteger entregadores contra violência, discriminação, ameaças e assédio, mas proteger o trabalhador apenas quando ele chega ao destino não basta. É preciso discutir também as condições em que ele percorre a cidade.
A cidade também participa do risco
Reduzir os acidentes à imprudência do motociclista significa ignorar a responsabilidade do poder público sobre o ambiente onde essas pessoas circulam. Cruzamentos perigosos, sinalização deficiente, iluminação, pavimento, fiscalização, conflitos com ônibus e automóveis e planejamento urbano também interferem no risco.
Fiscalizar é necessário. Em 2025, a operação “Cavalo de Aço” realizou mais de duas mil abordagens, com 615 autuações e mais de 80 motocicletas removidas. Mas, se o trabalhador é punido por uma irregularidade e continua obrigado a circular diariamente por uma via perigosa para garantir sua renda, o problema estrutural permanece.
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O problema chegou às eleições
É neste ponto que a questão ganha dimensão política. Em 2026, os amazonenses escolherão governador, dois senadores, deputados federais e estaduais.
A pergunta aos candidatos não deveria ser apenas “o que pretende fazer pelo trânsito?”
Qual a meta de redução das mortes de motociclistas? Quais cruzamentos e corredores serão prioritários? Haverá metas públicas de segurança viária? Como proteger trabalhadores de aplicativos da pressão por produtividade e velocidade? Como melhorar a formação dos condutores profissionais? Como integrar trânsito, saúde, trabalho e fiscalização?
E, para deputados e senadores, o que será feito para atualizar a legislação diante das novas relações de trabalho criadas pelas plataformas digitais?
Para muitos amazonenses, a motocicleta não é uma escolha de conforto, mas uma alternativa diante do preço, da demora e das limitações do transporte coletivo. Quando o ônibus demora, quando o trabalhador precisa fazer mais viagens para aumentar a renda ou quando uma entrega precisa atravessar a cidade em determinado prazo, a moto aparece como solução.
A expansão das motocicletas, portanto, também revela as deficiências da própria cidade.
O Brasil já criou uma Semana Nacional de Prevenção a Acidentes com Motociclistas, na semana que inclui 27 de julho, Dia Nacional do Motociclista. Mas o reconhecimento institucional ainda precisa se transformar em política permanente: quem trabalha sobre duas rodas não pode ser lembrado apenas quando morre no trânsito ou quando chega a hora de pedir seu voto, nem a discussão pode se resumir às motos. Ela é sobre qual cidade e qual Amazonas o poder público pretende construir, quem terá direito de circular com segurança e quanto vale a vida de quem movimenta a economia sobre duas rodas.





