Manaus está tão quente que lojas, igrejas e shoppings podem ‘criar’ sombras

Manaus pode ganhar uma espécie de “rede de sobrevivência” para os dias de calor extremo. A proposta do programa Sombra Solidária prevê que comércios, supermercados, shoppings, postos de combustíveis, igrejas, escolas, hotéis e outros estabelecimentos possam abrir voluntariamente seus espaços para oferecer sombra, assentos, água potável e ventilação à população durante ondas de calor.
A ideia é boa. Afinal, se o sol resolveu trabalhar em horário integral, nada mais justo do que oferecer um lugar para o cidadão respirar.
O problema é que a proposta também levanta uma pergunta incômoda: por que não atacar com mais força a origem do problema, a falta de arborização urbana?
Dados recentes mostram que apenas 44,8% das vias de Manaus são arborizadas, segundo informações do Censo do IBGE citadas em levantamento divulgado em agosto deste ano.
A situação ganha ainda mais peso porque, segundo o MapBiomas e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus foi a capital brasileira que mais perdeu vegetação urbana nas últimas duas décadas.
E as pesquisas indicam que árvore não serve apenas para deixar a cidade mais bonita ou render uma boa foto para pauta ambiental.
Um estudo sobre vegetação e temperatura da superfície em Manaus identificou temperaturas próximas de 30,5°C nas áreas com maior presença de vegetação, enquanto regiões densamente ocupadas registraram temperaturas de superfície superiores a 41°C. Ou seja, onde há mais verde, o termômetro agradece. Onde sobra concreto, as coisas esquentam.
Outro levantamento realizado em Manaus identificou diferenças de até 7°C em uma mesma área, dependendo das condições de sombra e exposição ao sol. Em uma medição feita na Zona Leste, por exemplo, a temperatura chegou a 42°C no sol, enquanto ficou em 35°C na sombra.
A própria Prefeitura de Manaus reconhece a importância da arborização no enfrentamento das altas temperaturas. O Plano de Ação Climática da cidade prevê projetos de arborização urbana, corredores verdes, jardins de chuva, tetos verdes e recuperação de áreas, especialmente em regiões suscetíveis às chamadas ilhas de calor.
Há, porém, um detalhe importante: plantar árvore hoje não significa ter uma floresta amanhã. Um estudo realizado em três vias de Manaus apontou que a arborização implantada havia cerca de dez anos ainda não havia produzido mudanças significativas no índice de desconforto térmico, reforçando que políticas de arborização precisam ser contínuas e planejadas.
Por isso, o projeto de Nº 715/2026, do vereador Diego Afonso (União Brasil), pode ser útil como medida emergencial, principalmente para idosos, crianças, gestantes e pessoas em situação de rua. Mas, se a cidade quiser realmente enfrentar o calor, talvez seja necessário ir além de pedir ao cidadão que procure a sombra mais próxima.
E talvez seja essa a parte mais irônica da história: uma cidade no coração da Amazônia precisando criar uma proposta para encontrar sombra.





