Terras raras são promessas de desenvolvimento ou novos riscos ao AM?

O Amazonas é o segundo estado com a maior reserva de terras raras do Brasil, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), atrás apenas de Minas Gerais. O potencial de exploração tem atraído atenção internacional no contexto da transição energética global, o que divide especialistas sobre se os benefícios econômicos compensam os riscos ambientais para o estado que abriga a maior floresta tropical do planeta.
De um lado, geólogos defendem que o Amazonas pode ocupar posição estratégica na cadeia produtiva desses minerais. Do outro, pesquisadores alertam para impactos ambientais, riscos à saúde pública e questionam se a atividade gera desenvolvimento para a população local.
Quem defende a exploração
O geólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Tiago Maia afirma que o estado possui grandes reservas distribuídas em diferentes áreas.
“O Amazonas possui grandes reservas de terras raras, localizadas em Presidente Figueiredo, especificamente na Mina do Pitinga, em São Gabriel da Cachoeira, na região conhecida como Seis Lagos, e mais recentemente em Apuí, num projeto chamado EMA”, explica Maia.
Segundo o especialista, as reservas concentram elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, utilizados pela indústria de alta tecnologia. Maia defende que o estado pode ir além da extração.
“O Amazonas se posiciona com enorme potencial para produção desses elementos, bem como para algum tipo de refino e beneficiamento”, afirma. Ele também aponta que novas tecnologias, como a lixiviação in situ, técnica que extrai os minerais diretamente do solo sem a necessidade de removê-lo por completo, podem reduzir os impactos ambientais em comparação à extração tradicional.
Pesquisador aponta riscos
Essa visão é contestada pelo pesquisador Lucas Ferrante, da Universidade de São Paulo (USP) e associado ao Centro de Pesquisa da Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima). Para ele, qualquer discussão sobre mineração na Amazônia precisa ser fundamentada em evidências científicas.
Ferrante cita estudo publicado na revista Science, desenvolvido por 19 pesquisadores de instituições brasileiras e internacionais. Segundo ele, o trabalho identificou que áreas com potencial mineral coincidem com regiões que abrigam microrganismos pouco conhecidos. “Solos-alvo de mineração se sobrepõem a reservatórios microbiológicos patogênicos, representando risco para a população local, regional e global”, afirma.
O pesquisador explica que a movimentação desses solos pode favorecer a disseminação de agentes causadores de doenças. Entre os organismos identificados, segundo ele, estão patógenos associados à tuberculose e ao antraz, além de agentes que podem afetar a produção de soja e o rebanho bovino. “Medidas prévias de monitoramento e avaliação são necessárias para apontar a viabilidade ou não dessas atividades”, declara.
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Impacto nos aquíferos e risco de pandemias
Para Ferrante, os riscos vão além do desmatamento. A alteração do solo, segundo ele, pode facilitar a chegada desses microrganismos a aquíferos e corpos d’água. Na avaliação do pesquisador, o cenário exige abordagem multidisciplinar e vai além da competência técnica da extração geológica. Ele cita novamente o estudo da Science para afirmar que existe risco de pandemias associadas à mineração nessas áreas.
Ferrante também questiona o impacto econômico da atividade sobre os municípios. Para ele, a exploração de grandes jazidas nem sempre resulta em melhoria da qualidade de vida da população.
Como exemplos, cita as minas de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, onde, segundo ele, a mineração aumentou as disparidades econômicas e sociais. No Amazonas, menciona Coari, que figura entre os municípios com pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, mesmo com receitas de royalties.
“Esse tipo de atividade fica restrito na mão de grandes empresários e não ajuda a promover o desenvolvimento local”, declarou.
Estratégia do governo federal
Em entrevista à Rede Amazônica, em maio deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu a exploração de minerais críticos e terras raras na região Norte como parte de uma estratégia para desenvolver a Amazônia sem destruí-la. Ele afirmou que o Brasil tem “muita competência para disputar” o mercado global desses minerais, essenciais para tecnologias como inteligência artificial.
“O que se fala no mundo é o seguinte: tem inteligência artificial e terras raras. Então, nós temos. Nós temos muita competência para disputar. Queremos utilizar o Norte do país para fazer com que ele seja desenvolvido”, declarou Lula.
O presidente também mencionou a exploração de potássio na região, mineral estratégico para a agricultura brasileira, e disse que é preciso encontrar formas de extraí-lo sem causar danos ao meio ambiente.
Com a crescente demanda mundial por minerais críticos, o interesse pelas reservas do Amazonas deve aumentar nos próximos anos. Especialistas defendem que qualquer projeto de exploração seja precedido por estudos ambientais, avaliações de saúde pública, diálogo com as comunidades afetadas e análise dos impactos econômicos e sociais.
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos, entre eles o neodímio, o praseodímio, entre outros. Por suas propriedades magnéticas, luminescentes e catalíticas, são componentes essenciais na fabricação de ímãs de alta performance usados em motores elétricos, turbinas eólicas, em baterias automotivos, em telas de smartphones, computadores e televisores, e até equipamentos militares.





