Sem sombra, esperar o ônibus vira desafio no calor de Manaus

Na parada de ônibus, o lugar destinado aos passageiros nem sempre é o melhor lugar para esperar. Em meio ao calor intenso que atinge Manaus, quem depende do transporte coletivo tem recorrido ao improviso para fugir do sol: sombra de postes, muros, árvores e até áreas afastadas da própria parada viraram abrigo enquanto o ônibus não chega.
O cenário foi registrado pela equipe da Rede Onda Digital nesta quarta-feira (2), em um dos períodos de maior calor enfrentados pela capital amazonense neste ano. Entre terça (1º/9) e quarta-feira (2), os termômetros chegaram aos 37,6°C, enquanto a sensação térmica se aproximou dos 38°C.
Na prática, para quem está na rua, cada pedaço de sombra faz diferença.
Em uma das paradas visitadas pela reportagem, passageiros ocupavam os bancos cobertos, mas outros preferiam permanecer de pé em uma área lateral, onde havia mais proteção contra a incidência direta do sol. Em outro ponto, pessoas aguardavam o ônibus encostadas em um muro, justamente para escapar dos raios solares.
É uma espera que exige estratégia. Tem quem leve sombrinha, quem use protetor solar e quem tente manter uma garrafa de água por perto. Mas nem sempre existe uma alternativa.
“Ficar ali tu torra”

A promotora Patrícia Kitéria utiliza a parada com frequência e reclama da falta de proteção contra o sol. Segundo ela, a estrutura do ponto de ônibus não oferece proteção suficiente para quem precisa esperar pelo ônibus. “Protege não, mana. Não protege de nada.”
“Porque ficar ali embaixo não dá, sem condições, mana. Deus o livre. Ficar ali tu torra. É sol, é chuva. Sem condições.”

O problema se torna ainda mais evidente para quem passa vários minutos aguardando o transporte. A passageira Roberta do Nascimento conta que já teve dificuldades para conseguir chegar ao ponto e reclama tanto do calor quanto da demora do transporte coletivo.

“É péssimo. Eu até peguei o Uber errado, devido a esse calor. E quando eu fui pegar o 422, o ônibus já tinha passado. E os ônibus estão péssimos, os horários estão péssimos. Eles andam muito lento. Leva duas horas pra chegar no bairro”, conta a passageira do transporte público.
A espera, segundo ela, fica ainda mais difícil quando não há sombra.
“E o sol está queimando hoje. E a gente fica esperando quase uma hora pra passar o ônibus aqui.”
Para ela, propostas para enfrentar o calor amazônico, como a melhoria das paradas de ônibus, deveriam ser prioridade durante o período eleitoral, mas o assunto não chega a ser mencionado pelos políticos.
“Nós estamos na época das eleições e não fazem nada. Entram, saem e a gente está jogada aí, né? Essa parada do ônibus aqui é a pior que tem. Não tem uma sombra. A sombra vai pra lá, né? Pra cá não tem.”
Ela também chama atenção para a falta de estrutura em outros pontos da cidade.
“Tem bairro aí que não tem nenhuma parada dessa. É no sol mesmo. Já pensou? Que absurdo.”
O abrigo que não abriga

Embora os pontos de ônibus tenham a função de proteger os passageiros do sol e da chuva, a cobertura nem sempre garante sombra para quem aguarda o ônibus. Em alguns pontos, os usuários precisam se afastar e procurar proteção em muros, árvores, nos postes de energia elétrica ou outros locais.
O resultado é que a população acaba procurando soluções por conta própria.

Foi o que chamou a atenção do autônomo Rômulo Santos, que chegou a Manaus recentemente. Mesmo sem utilizar aquela parada com frequência, ele percebeu a situação de quem espera pelo transporte.
“Verdade. A maioria dos bairros aqui não tem parada, não tem infraestrutura direito. Aí o pessoal fica assim, no sol, na chuva. Lá onde eu moro, não tem nem parada também.”
Calor continua dentro do ônibus
Para quem consegue escapar do sol até a chegada do coletivo, o alívio nem sempre vem quando o ônibus aparece.
A auxiliar de polimento Elisangela Xavier utiliza a parada diariamente e conta que costuma esperar entre cinco e dez minutos. O problema é que, muitas vezes, precisa fazer isso fora da área coberta, já que a sombra não alcança o local onde os passageiros aguardam.

“Sempre no sol. Sem contar que os ônibus estão todos quentes também, né? Quase não tem ônibus com ar-condicionado. Nesse clima aqui de Manaus, era pra ser tudo climatizado, os ônibus. Mas fazer o quê, né? Além de ficar aqui uns 10 a 15 minutos no sol, ainda vai dentro do ônibus no calor”, reclama.
Sombra e hidratação são as principais recomendações
Segundo o Ministério da Saúde, durante períodos de calor intenso, é importante evitar a exposição direta ao sol, buscar locais frescos e sombreados e manter a hidratação. O INCA também recomenda reduzir a exposição aos raios solares, principalmente entre 10h e 16h, além do uso de roupas que protejam a pele, chapéu ou boné e protetor solar.
O calor intenso ocorre em um período de estiagem no Amazonas e em meio à atuação do El Niño. Em Manaus, enquanto os termômetros sobem, quem depende do transporte coletivo enfrenta outro desafio: encontrar um lugar com sombra para esperar pelo ônibus. Para esses passageiros, a proteção contra o calor começa antes mesmo de o coletivo chegar.





